Expedição Lusitânia - Regresso Caraibas. SUEK: Vitória - Camamu - Salvador - Recife. 05 a 16 de Novembro 2022.

26/11/2022

SUEK de Vitória ao Recife

Despedimo-nos de Vitória na sexta feira, dia 4 de Novembro á noite com um jantar de moqueca capixaba de robalo num restaurante que nos tinha sido recomendado numa das zonas tipicas de restaurantes e bares de Vitória.

No dia seguinte, sábado, 5 de Novembro pelas 08 horas, largámos amarras do Iate Clube do Espirito Santo. As previsões eram de vento sul durante todo o percurso até Salvador, sendo forte sobretudo no primeiro dia. E efetivamente assim foi. Logo á saida da marina e no canal de acesso ao mar via-se ao longe bastante espuma num mar muito agitado empurrado pelo vento. Ainda no canal, as ondas faziam levantar a proa dos barcos num sobe e desce constante até chegarmos ao mar aberto.

Ai, abrimos a vela grande rizada e um pouco de genoa que acabámos por fechar passado pouco tempo, por não dar uma mareação correta batendo constantemente com o vento de popa e muito mar. A vela grande com o preventer funcionava bem e apesar de grandes balanços devido á força e direção do vento seguiamos bem. Chegámos a fazer picos de 10 e 11 nós.

O mar muito revoltado, cheio de espuma com ondas a fazerem a rebentação em cima do barco. Logo á saida do canal, tínhamos acabado de içar a vela grande e ainda estávamos a ajustar o rumo, quando ouvimos um enorme baque que quase parecia um tiro de canhão no barco. Tratou-se de uma onda enorme que rebentou  contra o costado de estibordo do Suek. Apesar do barulho e da água que saltou para o poço não houve nenhuma consequência.
Continuámos assim durante todo o dia e noite, depois o vento e o mar começaram a amainar o que permitiu colocar a genoa rizada em borboleta com o pau de spi, seguindo desta forma com o barco mais equilibrado e menos balouçante. Esta mareação permitiu noites tranquilas com o barco a deslizar sobre a água. Também contribuiu a limpeza feita na véspera ao casco por um mergulhador na marina de Vitória...

Entretanto, o Anixa2 começou a ficar para trás reportando avaria no piloto automático, tendo a partir dai seguido com o piloto de vento. Como a restante frota começava a estar muito á frente decidiu-se fazer uma paragem para reagrupamento na baia de Camamu, uma zona turistica, abrigada e com boa zona de fundeio a cerca de 50 milhas a sul de Salvador.

Chegámos lá terça feira, dia 9 de Novembro pela manhã. Largámos ferro em frente aos resorts de casas baixas de cor ocre, telheiros de colmo, altos coqueiros que se destacavam no céu, com densa vegetação e relva e pequenos cais privativos em madeira.

Arranjou-se transporte num pequeno barco local e fomos todos almoçar a terra, a um dos resorts que era igualmente uma pousada e que ficava mesmo em frente aos barcos fundeados. Um local bastante aprazivel e uma excelente comida.
Entretanto apareceu no restaurante o Rodrigo, juntamente com os pais e uns amigos e que tinha feito tripulação no Anixa2 e no Laluna2 no Rio de Janeiro. Ficámos no restaurante durante toda a tarde, a conversar e a admirar a serenidade do local.

Camamu foi em tempos uma zona de exploração de minério, mas pelo facto de conter óxido de ferro, tornava as águas do rio vermelhas. Devido á pressão dos ambientalistas a atividade foi abandonada, ficando a zona apenas para turismo. Sem dúvida, um dos locais que merecia ficarmos mais tempo e explorar com calma.

Largámos ferro no dia seguinte, 10 de Novembro, ás 16 horas debaixo de um céu cinzento e chuva miudinha, mas que durou apenas até sairmos do canal. Assim que chegámos ao mar, a chuva parou, o céu clareou e levantou-se uma brisa de 8-10 nós pelo través que nos levou em rumo direto para Salvador numa vela de prazer a deslizar num mar  calmo e sem ondas. Foi assim durante grande parte da noite, gerindo a velocidade para chegar a Salvador com luz do dia.

Por volta das 06 horas da manhã chegámos a Salvador e fomos devagar, a motor, subindo a baia de todos os Santos para a base naval de Aratú contra uma vazante forte. Chegámos por volta das 10 horas e com a ajuda da marinha encostámos o Suek a um pequeno cais flutuante junto ao paredão de betão, entre duas fragatas.

Depois da chegada dos restantes barcos, excepto o Anixa2 que ficou na marina em Salvador e findos os preparativos de amarração, iamos almoçar ao restaurante da base quando a marinha me disse que devido a um evento que ia ocorrer no dia seguinte precisavam retirar o cais flutuante. O Suek ficou desta forma, encostado diretamente á parede de betão com risco de bater com o varandim. A situação foi salva com o empréstimo pela Marinha de duas defensas grandes que conseguiram mantê-lo a uma distância segura sem encostar completamente. A subida e descida para o cais era feita por uma escada de corda com degraus em madeira...

No dia seguinte, cerimónia de entrega da placa de agradecimento da expedição Lusitânia á Capitania dos portos, compras de supermercado em Salvador e regresso á base.
Dia 12 de Novembro, sábado, ás 08 horas da manhã, saimos da base naval com direção ao Recife.

Assim que chegámos ao mar, tinhamos vento de proa, mas que permitia uma bolina com o pano rizado. Foram 4 dias de bolina para o Recife, com alguns periodos de calmaria, mas a maior parte com vento e mar numa navegação com barco adornado e contra uma vaga forte e curta que levavam o Suek a bater estrondosamente e cujo barulho fazia lembrar mais uma vez, tiros de canhão disparados contra o casco.

Na manhã do terceiro dia, navegávamos com motor e vela grande para carregar as baterias, próximo de Maceió, mas bastante afastados da costa, sem vista de terra, quando vejo boias de pescador, o que me levou a desviar claramente para não passar junto a nenhuma delas.

Contudo, ao passar por uma das boias vejo um enorme cabo a flutuar na água á frente do Suek. Fiquei sem "pinga de sangue", a reação imediata foi tentar parar o barco para não passar por cima do cabo. Engatei marcha á ré com toda a força. Como iamos a cerca de 5,5 nós, o barco fez um enorme barulho, coloquei ponto morto e de novo marcha á ré. O barco parou e ainda andou á ré mas como tinha a vela grande içada retomou o andamento. Entretanto já tinhamos alcançado o cabo. Verifiquei que ele se mantinha junto ao patilhão e ia deslizando para a popa á medida que o Suek avançava. Desta forma percebi que uma das pontas estava solta e ao fim de algum tempo acabou por desaparecer.

Não ganhámos para o susto e retomámos a marcha com o motor e vela grande. Durante todo o dia foi a bater contra o vento e o mar em sucessivos bordos ora para o lado, ora para a frente.
Foi nesta etapa que tivémos a segunda refeição fria de toda a viagem desde que saimos de Lisboa, já que estava muito desagradável para estar a cozinhar junto ao fogão. Ao cair da noite o vento rondou, abriu mais o ángulo de bolina o que permitiu fazer uma excelente velejada em rumo direto para o Recife com velocidades acima dos 6 nós. De madrugada o vento caiu e fizémos as últimas milhas a motor com baixa rotação, para chegarmos com luz do dia.

Por volta das 06 horas da manhã estávamos a entrar no canal do Recife juntamente com o Laluna2.
Aguardámos pela abertura da marina ás 08 horas e entrámos.
Logo de seguida chegou o Maião, ao final da manhã o Arnika e ao final da tarde o Anixa2.
O Zalala, que tinha ficado sem motor com problemas na caixa de transmissão chegou um dia depois.

Os dias no Recife foram agradáveis, com sol e calor e permitiu fazer várias reparações, preparando os barcos para a grande travessia até ás Caraibas.
O Suek inclusivamente trocou as baterias de serviço porque as que trazia de Lisboa ficavam com uma tensão de 11,5v  ao fim de 2 horas de uso e fez uma mudança de óleo e filtro do motor.

Depois de algumas peripécias com orçamentos elevados, acabei por comprar duas baterias de 150Ah da marca Moura, lider de vendas no Brasil, a um fornecedor contactado por telefone pelo José Oliveira no final do dia. Entregavam até ás 23 horas...
Depois de validar que as medidas cabiam nas caixas do Suek, foi feita a encomenda e agendada a entrega para as 08 horas do dia seguinte.
Nesse dia, de manhã cedo, foi tirar almofadas, caixas, sacos e inúmeras outras coisas do interior do Suek para desmontar as baterias e com a ajuda do José Fontes, carregar cada uma com um peso de 47kg para um pequeno carro com rodas, disponibilizado pela marina e colocá-las junto ao bar para aguardar a chegada das novas.

Grande surpresa quando vejo depois chegar o fornecedor de mota, com uma das baterias numa mala na parte de trás do assento. Deixou uma e voltou á empresa para ir buscar a outra...

Quando voltou, disse que as montava e efetivamente assim foi. Um individuo novo, obeso, com dificuldade em se mexer dentro do barco e que suava em bica face ao calor e ao esforço que fazia. Mas bastante educado e extremamente profissional, insistiu em deixar as duas baterias ligadas e a funcionar. Ao final da manhã o Suek já respirava energia nova.
O resto do dia foi voltar a arrumar o barco...

Num dos dias, a convite do comandante do porto, fomos almoçar á capitania, onde se procedeu á entrega da placa de agradecimento da expedição Lusitânia.
Outro dia, fomos a um porto de honra no Gabinete Português de Leitura do Recife para entrega da placa de agradecimento ao Gabinete e ao Real Hospital.  O porto de honra, foi acompanhado por pastéis de nata e pão de ló de Ovar...

No domingo, 20 Novembro, organizou-se num dos espaços da marina um almoço de "camarão no coco" para todas as tripulações. Os tripulantes brasileiros foram ao mercado de manhã, compraram, prepararam, cozinharam..., no final, o resultado foi excelente. As cervejas, bem frescas foram servidas pelo bar da marina...

Entretanto o Zalala conseguiu efetuar a reparação da caixa
pelo que vamos sair do Recife, na quarta feira, 23 Novembro, com destino á base naval do Natal, como o último porto antes de deixar o Brasil com destino ás Caraibas.