A.N.C. - Folha Informativa JULHO/SETEMBRO 96


Associação Nacional de Cruzeiros


morada

JULHO / SETEMBRO 96


Passada a época de férias, retoma a FI o contacto com os associados, fazendo votos de que as mesmas tenham sido, para todos, aquele momento privilegiado de mais prolongada fruição do barco, do mar e da companhia dos que mais amamos.

O PASSARÃO POISOU. O novo local do contentor alado que nos vem servindo de sede situa-se agora, para facilitar a vida a quem tem GPS portátil, em 38º 42’ 05" N / 009º 10’ 38" W. Para quem não tem, é no topo Poente da Doca de Alcântara (também conhecida por "Doca do Espanhol"), junto à entrada principal de uns edifícios baixos, atrás da Polícia Marítima. Em duas salas desse edifício, por ora muito degradado, vislumbra-se a possibilidade de vir a situar-se, em termos provisoriamente definitivos, a nossa sede - enfim - de pedra e cal. Mas não falemos antes de tempo...

PARABÉNS! À Federação Portuguesa de Vela, na pessoa dos seus dirigentes, pela Medalha de Prata e pelos excelentes resultados globais da nossa representação náutica nos Jogos Olímpicos, a premiar não só os velejadores mas também uma política desportiva acertada. Uma citação especial para o Director Técnico, Sr. Prof. António Carneiro, nosso sócio.

PARABÉNS também a outro nosso sócio, Sr. Engº João Barreto, por ser pai - e, por certo, primeiro instrutor - de um dos medalhados olímpicos, Nuno Barreto, proa de Hugo Rocha em 470.

CRUZEIRO AO GUADIANA. Precedido dos 3 Dias de Lagos, de 8 a 10/8, onde se registou forte presença e alguns prémios ganhos por embarcações participantes no cruzeiro, decorreu de forma muito agradável e sem incidentes, para além de algumas "turras" com as autoridades que, em V. R. Sto. António, não estavam suficientemente avisadas da chegada da frota. Numa doca com a lotação naturalmente esgotada em Agosto, o agente da Brigada Fiscal gastou bastante combustível ao Estado em desvairadas correrias de "jeep" à volta da doca, para berrar a cada um dos 17 veleiros que entravam em sucessão imparável que "ali era proibido fundear". Mal estava a vociferar com um, já se ouvia a corrente da âncora de outro a lançar ferro e lá ia o pressuroso funcionário arengar para outra freguesia. No final, a frota que na véspera já tinha fundeado frente ao Grupo Naval de Olhão, beneficiando da hospitalidade e de uma esplêndida sardinhada oferecidas por este clube, lá conseguiu autorização para pejar a doca da Associação Naval do Guadiana, onde recebeu igual hospitalidade e um jantar típico de várias e excelentes especialidades de atum, oferecido pela Câmara Municipal de V. R. Sto. António e pela ANC.
A escala seguinte foi Guerreiros do Rio, já em pleno Guadiana, numa curta paragem para visitar o Museu. Disseram-nos que, proximamente, será instalado um pontão acostável, para mais comodamente os iates de passagem poderem auferir deste interessante e bem organizado museu, que não deixa cair no esquecimento aspectos da vida do Guadiana em tempos de bem maior actividade e de um restaurante com óptima comida regional.
Mais umas milhas e chegou-se a Alcoutim, onde houve visita ao castelo e ao núcleo museológico, seguido de beberete oferecido pela C. M. de Alcoutim. Esta autarquia tem desenvolvido esforços meritórios no acolhimento a iates, no sentido de fazer de Alcoutim uma escala muito interessante. Para além da beleza do local, do castelo, do museu, da simpatia da população, existe um pontão acostável como em qualquer marina, com a diferença de tudo ser grátis: permanência, água, electricidade, sanitários e duches ao ar livre. San Lucar de Guadiana, em frente e em festa, foi pretexto para "picar" petiscos espanhóis e ouvir "flamenco" até madrugada.
Em 15/8 chegou a frota ao Pomarão, em plena baixa-mar, o que deu lugar a inofensivos encalhes dos primeiros e prudentes fundeios dos seguintes, até a maré subir um pouco e um pescador local vir ensinar "o caminho pelas pedras". Para quem lá quiser ir, avisa-se que estes encalhes se devem a um assoreamento desusado na confluência do Chança com o Guadiana, mesmo ao lado do Pomarão, devido às descargas violentas da barragem motivadas pela invernia deste ano. Estão lá umas bóias improvisadas, brancas, que se devem deixar todas por estibordo. Se não estiverem lá as bóias, no último meandro antes de Pomarão, deve-se passar pelo lado de dentro, a uns 6 a 8 metros da margem, devagar e com atenção à sonda, de preferência de meia maré para cima e com água a encher. Passado esse ponto, volta a haver 8 m. de água em frente ao Pomarão, onde se fundeou sem problemas. Também aqui a edilidade vai instalar um pontão de acostagem, fazendo do local um pequeno porto de recreio. Depois de uma feijoada à alentejana, oferecida pela ANC, e uma excursão de autocarro a Mértola com visita ao castelo e núcleo arqueológico, oferecida pela respectiva Câmara Municipal, fez-se a descida, de novo até Alcoutim, onde terminou o cruzeiro.
A organização foi da Associação Lacobrigense de Deportos Náuticos, com o apoio da ANC, estando aquela associação algarvia de parabéns pelo que se mostrou capaz de incentivar a prática das nossas rotas de turismo náutico, em navegação cruzeirística onde não faltou uma componente cultural bem cuidada e, nela incluída, a componente gastronómica, no seu melhor sentido divulgador. Que continue!

MARINA DE LAGOS. É de enaltecer a acção desta marina nas condições oferecidas a veleiros de cruzeiro em eventos organizados. Para além do impecável serviço e simpatia, extensivos a todos os utentes, proporcionou condições especiais de permanência, não só aos participantes nas regatas dos 3 Dias de Lagos, como aos do Cruzeiro ao Guadiana. Antes já tinha patrocinado a Regata Lisboa- Lagos, com prémios muito tentadores. Não há dúvida de que assim se dinamiza e transforma num polo de atracção uma marina já de si localizada privilegiadamente. Entre a ANC, representando os seus sócios, e a Marina de Lagos foram estabelecidos contactos no sentido de, em 1997, serem organizados eventos de mútuo interesse.

CURSO DE PRIMEIROS SOCORROS E SOCORROS A NÁUFRAGOS PARA NAVEGAÇÃO DE RECREIO. O Clube Naval de Lisboa vai levar a efeito este utilíssimo curso, que inclui aulas práticas na piscina do Instituto Superior Técnico, com abertura de balsa, salvamento, reanimação (a respiração boca a boca é praticada com o conhecido manequim Ana). O curso funcionará em Outubro. Para o dimensionar, aceitam-se desde já inscrições, na ANC ou no CNL.

EXEMPLO DO QUE NÃO DEVE ACONTECER. Por amabilidade do nosso sócio honorário Sr. Almte. Leiria Pinto, foi-nos facultado um registo de comunicações rádio cuja história se resume assim: No dia 14/7/96 às 19h55, a estação S. MIGUEL RÁDIO, em Ponta Delgada, recebeu do iate CONTENTEZZA (ironicamente "Contentamento", em italiano) a seguinte mensagem: "Estou sozinha a bordo, o meu marido morreu, não sei nada de navegação nem como manobrar o barco, não sei onde estou, por favor ajudem- me". O operador de serviço começou acalmar a senhora, cuja aflição era patente na voz, e pediu-lhe para consultar a carta marítima, para ver onde estaria o último ponto marcado. A tripulante não conseguiu localizar a carta e informou que a última indicação ouvida ao marido era de que estavam a 100 M. da Ilha das Flores. O operador pediu então que a senhora fosse lendo os instrumentos de bordo eventualmente ligados. A certa altura, uma sucessão de algarismos indicou que estava a ser lido o GPS. Assim se localizou a embarcação, a 60 M. da Ilha do Faial. Concertaram-se esforços com a Capitania e a Rádio Naval da Horta. Após chamadas gerais, respondeu o pesqueiro PRÍNCIPE DA HORTA como mais próximo do iate, ao qual passou um cabo e iniciou reboque às 23h30. Entraram na Horta às 10h00 do dia 15/7. O corpo de Jürgen Broeker, alemão, 31 anos, seguiu para a morgue do Hospital Distrital, onde se verificou paragem cardíaca como causa da morte. A esposa, Marlene Fernandez, 27 anos, foi assistida na Urgência do mesmo hospital, dado o seu estado psicológico. Como se vê, não é a relativa juventude que evita imponderáveis dramáticos e nunca deve ir apenas uma pessoa a bordo capaz de governar a embarcação. A não ser quando se assumem os riscos de navegar solitariamente.

EMPRESAS APOIANTES. Os sócios da ANC passam a contar com um desconto de 25% em material da VETUS, com a vantagem adicional de poderem fazer as suas encomendas na sede da ANC, onde se encontra à disposição o catálogo com os produtos abrangidos, que são quase todos.

ADIVINHA. Pois o cabo de laborar que constituía a adivinha do número anterior da FI, tão sabiamente descrito no Guia do Marinheiro Amador, de Domingos Heitor Gomes, é a adriça de pique. Aquela que, segundo o mesmo manual, "iça ou repica o penol da carangueja". Ainda que poucos sócios possuam embarcações desta armação, nunca é demais saber estas coisas, por uma questão de cultura giral (ramo da cultura que se ocupa das coisas giras). E já agora: Qual é a adriça irmã desta? Sim, porque uma não dispensa a outra. E por onde passa? Continua no próximo número.


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Última actualização : 9 de Setembro de 1996
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