Associação Nacional de Cruzeiros



LUSITO

Pequeno barco de vela ligeira saído da imaginação de Rodolfo Fragoso e Nuno Calado na década de 30 do Séc. XX e desenhado e construído por mestre João dos Santos Brites, primeiro nas instalações da ANL na doca de Santo Amaro e mais tarde no seu estaleiro em Pedrouços, foi um monotipo que serviu para os pequenos marinheiros se iniciarem na arte de velejar e competir.

Antes de aparecer o Optimist, cerca de vinte anos mais tarde, foi o Lusito que em Portugal lançou na modalidade muitos dos nossos velejadores, tanto de competição como de recreio. Medalhados olímpicos, campeões mundiais, europeus, etc. iniciaram a sua carreira nesse pequeno barco.
As novas gerações não o saberão, mas nomes a reter são os dos irmãos Bello, Quina e Bustorff, João Tito, Luiz Brites, Carlos Ribeiro Ferreira, Clemente Simão. Ainda hoje quem tiver mais de quarenta anos, certamente aprendeu a andar à vela num Lusito.

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Aparelhando os Lusitos na praia de AlgésAo fim do dia recolhiam-se os barcos no barraccão

A grande maioria dos exemplares construídos, destinou-se aos cerca de vinte centros de vela da Mocidade Portuguesa espalhados pelo continente e ilhas (em 2005 em viagem aos Açores, vi na Horta, uma fotografia de atletas locais junto de vários Lusitos e um tinha o número 101 na vela). Para as colónias também seguiram alguns. Existem referências de Lusitos em Cabo Verde, na Índia, Angola e Moçambique.
Foi no entanto a ANL que encomendou os primeiros, dada a ligação que os mentores da ideia tinham ao clube. Posteriormente foi a Mocidade Portuguesa que incrementou a sua construção e distribuição. Cinco, que inicialmente se destinaram ao Colégio Militar, por falta de interesse dos alunos nesta modalidade desportiva, acabaram cedidos gratuitamente e reforçaram a frota da ANL.

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O 13 pronto para velejarVertedouro a trabalharO Lusito 7 nos anos 40

Media cerca de dois metros e cinquenta e cinco de comprimento e um e meio de boca. O fundo era quase plano e com um “V” bastante pronunciado à proa (parecido com o Snipe). Possuía um largo convés, um bom quebra-mar avante do mastro e uma borda no poço que, embora com altura suficiente para evitar a entrada de água, não incomodava o tripulante.

L31
O 31 preparado para navegar

Saliente-se que os barcos não tinham poço estanque nem qualquer espécie de flutuadores, antes pelo contrário, tinham uns pesadíssimos paneiros de ripas, pelo que o adornar e virar significava alto risco de afundamento se não acorresse alguém em auxílio do náufrago.
O patilhão era de chapa de ferro, móvel em torno de um eixo situado na parte inferior da caixa do mesmo e podia ser içado e arreado por meio de um haste metálica. O leme de madeira, tinha uma cachola envernizada onde entrava a cana e com dois espigões enganchava no painel da popa em dois olhais metálicos. A forma da porta era bastante arredondada e pouco profunda.
Aparelhava com uma vela grande Marconi em algodão com duas réguas de madeira pouco maiores que paus de gelado. O distintivo da classe caracterizava-se por um L maiúsculo, em tecido negro, colado na parte superior desta vela. Por baixo uma faixa horizontal e ainda abaixo o número do casco.

Plano vélico
Plano vélico (escala 1/75 no original)

O estai do mesmo tecido, armava a cerca de ¾ do mastro que era de madeira, maciço e envernizado, medindo 4,3 metros. Este tinha uma calha na parte posterior, onde a tralha da vela grande corria. Era suportado por dois brandais e o gurutil do estai possuía um cabo de aço que actuava como estai real.
A esteira da grande, corria dentro de uma calha na retranca (igualmente de madeira envernizada) em cuja extremidade existia uma roldana por onde passava um cabo que vindo do punho da escota permitia caçar essa mesma esteira e ia amarrar num pequeno cunho. A retranca terminava em forqueta no outro extremo, o que lhe permitia enganchar no mastro. Para não subir neste, a vela grande possuía um olhal por onde passava uma filaça, que um pouco como um “Cunningham” o puxava para baixo.
Ambas as adriças passavam por dois furos no tamborete, perto do mastro e iam ser caçadas em dois cunhos na caixa do patilhão, junto ao pé do mastro. Fazendo arco na adriça, conseguia-se dar a tensão pretendida nas testas.
A escota do pano grande era emanilhada no varão metálico à ré e passando por um par de moitões suspensos da retranca, ia directamente à mão do timoneiro.
As escotas do estai passavam apenas por um olhal com cunho de esganar de cada lado do casco e iam igualmente directamente à mão. Ambas as escotas eram de sisal...ou seja, bastante ásperas enquanto não usadas.

LemePoçoMastro
Pormenor do lemeInterior do poçoFixação da retranca

Apesar de ser um barco algo pesado devido aos materiais que se usavam na sua construção, bolinava muito bem, até algo “molhado” logo que aparecia mareta, que no entanto passava sem dificuldade. Virava de bordo com facilidade e à popa, com vento, chegava a planar. Recordo-me que o 77 (já com casco em contraplacado) era muito disputado por ser dos mais rápidos da frota.
Para crianças de dez anos, não era simples sair da praia, encaixar o leme, meter a cana, baixar o patilhão, caçar duas escotas com uma mão e levar o leme com a outra. Quantas vezes os dentes auxiliavam e se encarregavam da escota do estai. Luvas para as mãos não havia e cintas para fazer prancha era coisa ainda por inventar.
Bem sentado na ampla borda de barlavento, havia que enganchar os pés do outro lado e fazer trabalhar os abdominais não deixando adornar o Lusito logo que entrava vento. Servia assim para seleccionar quem era expedito, hábil e “desenrascado”. Os instrutores rápidamente se apercebiam quem tinha condições para progredir como leme. Aqueles que não eram tão aptos, eram preteridos e seguiam carreira como proas noutras classes quando, um pouco mais velhos e mais pesados, para isso tinham aptidão.
Pelo menos desde 1941 um representante de cada zona do país participava no Torneio Anual de Lusitos, uma espécie de campeonato nacional, sorteando-se em cada regata um Lusito, de modo a equilibrar a competição.

foto de Carlos Loff Fonseca cedida por Joaquim Saial - http://saial.info/
Lusitos com tripulação dupla no Mindelo

Se bem que muito raro, por vezes eram tripulados a dois, como comprova uma foto dos anos 60 no Mindelo. Talvez por falta de barcos e excesso de tripulantes obrigavam a adopção desta solução. O Lusito chegou a ser fabricado em Inglaterra pelo “Rock Sailing Club” da Cornualha, por volta de 1947, com planos cedidos por Rodolfo Fragoso, mas sem continuidade.
Devido ao sucesso que teve em Vila Real de Sto.António, em 1947 estava previsto a construção de 10 unidades em Ayamonte. Não sabemos no entanto se os espanhois levaram avante este projecto.

Nos anos 70/80, ainda nos Estaleiros Brites, em Pedrouços, foram construídos bastantes cascos em fibra quer com caixa de patilhão, para a prática da vela, quer sem ela, destinando-se estes a servir como bote auxiliar de barcos de lazer e até de pesca profissional.

Lusito 7Lusito 466
Lusito nr.7Lusito nr.466 no Museu de Marinha

Para além do exemplar em recuperação atrás citado, existe outro no pavilhão das Galeotas do Museu de Marinha, em Lisboa, muito bem restaurado pelos artífices do museu.
Talvez um dia se recupere uma frota e voltem a navegar para memória futura.


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Última actualização: 28 de Maio de 2007
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