Associação Nacional de Cruzeiros



BATALHAS E COMBATES
da Marinha Portuguesa

Cabo de São Vicente - 21 de Julho de 1337

O desprezo que o rei Afonso XI de Castela votava a sua mulher, a infanta Dª Maria, filha do rei D. Afonso IV de Portugal, juntamente com outros agravos que lhe fizera, levaram este a entrar em guerra com Castela no ano de 1336.

Cabo de S.Vicente - 1337

Os Portugueses iniciaram as hostilidades enviando uma armada de 20 galés, provavelmente acompanhadas por algumas naus, a assolar a costa da Andaluzia. Mas a expedição redundou num fiasco perante a intrépida resistência dos Castelhanos que rechaçaram as várias tentativas de desembarque feitas pelos nossos.
Recolhida a armada ao Tejo foi destroçada por um violentíssimo temporal que igualmente dispersou e causou grandes avarias na frota castelhana que saíra de Sevilha, provavelmente para executar uma acção de retaliação assolando a costa portuguesa.

No que toca às operações terrestres, os Portugueses começaram por fazer uma incursão à Galiza, à qual os Castelhanos responderam, mais tarde, com incursões no Minho, no Alentejo e no Algarve, sem que daí tivesse resultado qualquer recontro importante. Aquando da incursão no Minho, possivelmente para aliviar a pressão que o inimigo estava fazendo por terra, D. Afonso IV enviou uma armada, sob o comando de Manuel Pessanha, a assolar as costas da Galiza e das Astúrias, onde apresou numerosas embarcações de pesca.

No ano seguinte, ou seja em 1337, logo que terminou o Inverno, a frota portuguesa largou de Lisboa na força de trinta galés, sob o comando do almirante Pessanha, provavelmente com intenção de assolar novamente as costas da Andaluzia. Aproximadamente pela mesma altura saiu de Sevilha a frota castelhana, na força de quarenta galés, sob o comando do prestigioso almirante D.Afonso Jofre Tenório, provavelmente com uma intenção semelhante, ou seja, de assolar as costas portuguesas. Mas os fados tinham decidido que o encontro entre ambas só teria lugar alguns meses mais tarde. Outro violento temporal apanhou em cheio as duas frotas, possivelmente quando já estavam relativamente perto uma da outra, metendo-lhes no fundo várias galés e avariando-lhes de tal modo as restantes que os dois almirantes se viram obrigados a arribar ao porto de partida. E toda a Primavera terá sido consumida em fabricos e reequipamento.
Nos começos de Julho voltaram as frotas de Portugal e Castela a fazer-se ao mar, a primeira reduzida a cerca de vinte galés e a segunda a cerca de trinta. Provavelmente fariam parte das duas frotas algumas naus, especialmente destinadas ao apoio logístico, uma vez que ambas se destinavam a operar longe das suas bases. Navegando com destinos opostos, as frotas portuguesa e castelhana vieram a encontrar-se no dia 21 de Julho de 1337, possivelmente um pouco a norte do cabo de São Vicente.
No primeiro embate, as galés portuguesas, atacando impetuosamente, conseguiram ao fim de pouco tempo render nove das contrárias. Depois houve qualquer coisa que fez inverter o rumo dos acontecimentos. A hipótese que nos parece mais verosímel é que estivesse a soprar um vento bonançoso de sudoeste, o que tería permitido às naus castelhanas entrar em combate e abalroar ou aferrar algumas das galés portugueas, lançando-lhes para dentro, do alto dos seus castelos, grande quantidade de pedras, barras de ferro, setas, virotões, etc. A verdade é que esta táctica já tinha sido utilizada com êxito pelo almirante Tenório alguns anos antes, numa batalha em que derrotara os Muçulmanos; e só seria de admirar que não a voltasse a usar desde que tivesse vento favorável para o fazer, como seria o caso. Como é evidente, as naus portuguesas, tendo vento contrário, não poderiam ter ido em socorro das suas galés.
O que é certo é que em dado momento da batalha a situação inverteu-se e os portugueses começaram a sentir grandes dificuldades, sendo algumas das suas galés afundadas e outras capturadas. Duas galés castelhanas aferraram por ambos os bordos a nossa capitânia e, depois de uma luta prolongada, tomaram-na, abatendo o estandarte real e aprisionando o almirante Pessanha e seu filho. Rendida a capitânia, as restantes galés puseram-se em fuga, perseguidas ainda durante algum tempo pelas castelhanas que acabaram por as deixar, provavelmente por serem mais veleiras.
Em resultado da determinação com que ambos os contendores se bateram, o número de mortos e feridos de ambos os lados foi muito elevado. Os portugueses tiveram oito galés tomadas e seis afundadas, provavelmente por abalroamento.
As galés portuguesas capturadas foram levadas para Sevilha, onde chegaram a reboque das castelhanas, com os pendões a arrastar pela água em sinal de derrota. O rei D.Afonso XI foi pessoalmente àquela cidade para felicitar o almirante Tenório e os seus homens pela grande vitória que haviam alcançado, a qual deu brado em toda a Castela. Os prisioneiros portugueses, que ascendiam a alguns milhares, foram obrigados a desfilar pelas ruas de Sevilha com cangas ao pescoço, à excepção do almirante Pessanha e seu filho. A bandeira real portuguesa tomada na batalha ficou exposta na igreja de Santa Maria.
Em resultado da tremeda derrota sofrida pela sua frota, o rei de Portugal viu-se forçado a aceitar a mediação de um legado do Papa e concordou com a celebração de uma trégua de um ano que acabou por ser prolongada até à conclusão da paz em 1339. A verdade é que o rei de Castela estava desejoso de terminar a guerra com Portugal porque tinha notícias de que os Muçulmanos estavam a passar muita gente para a Península, o que fazia prever para breve uma nova ofensiva de grande envergadura contra os Cristãos. Era tempo de estes porem de parte as suas desavenças e unir forças contra o inimigo comum.

                Saturnino Monteiro                
em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa» (Vol.I)

Bibliografia:
Quintella, Ignacio da Costa, Annaes da Marinha Portugueza, Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1839, Tomo I, p. 24
Morais, Tancredo de, História da Marinha Portuguesa, Clube Militar Naval, Lisboa, 1940, p.158
Pereira, António Rodrigues, História da Marinha Portuguesa, Escola Naval, Lisboa, 1983, Parte I, p. 127
Duro, Cesáreo Fernandez, La Marina de Castilla, EDITMEX, Madrid, 1995, p. 79
Alvarez de la Fuente, Joseph, Sucession Real de España, Herderos de Francisco del Hierro, Madrid, 1735, Parte Segunda, p. 404


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Última actualização: 23 de Fevereiro de 2001
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