
Durante a segunda guerra de D. Fernando com Castela (1372-1373) não tiveram lugar operações navais de vulto. Por razões que ignoramos, D. Fernando não mandou armar a frota no começo das hostilidades. Aproveitando-se dessa circunstância a armada castelhana ocupou de surpresa o estuário do Tejo onde havia somente meia dúzia de galés em estado de combater. Mas mesmo essas, logo que apareceram os primeiros navios castelhanos desgarrados, entraram em pânico e fugiram para Santarém, onde se encontrava D. Fernando, em vez de irem ao seu encontro.
Pelo lado de terra as coisas não correram melhor. O rei Henrique II de Castela atravessou Portugal sem que o nosso exército lhe fosse fazer frente e veio pôr cerco a Lisboa cujos arredores devastou, só não conseguindo apoderar-se da cidade por, entretanto, ter sido obrigado a regressar ao seu país, cujas fronteiras orientais se encontravam sob forte pressão das tropas do duque de Lencastre e do rei de Navarra.
Felizmente para os Portugueses mais uma vez a intervenção do Papa veio pôr termo à guerra.
Mas D. Fernando não desistia! Humilhado pelos sucessivos desaires que sofrera nas guerras anteriores, só esperava uma ocasião para se desforrar. E sem qualquer razão válida renova as hostilidades contra Castela em 1381, confiado num auxílio de tropas que lhe fora prometido pelo duque de Lencastre.
Desta vez, logo que a guerra começou, enquanto esperava pela chegada dos ingleses, voltou novamente à estratégia naval que adoptara na primeira guerra e equipou uma poderosa armada que enviou para sul, não sabemos se em busca de uma vitória sobre a armada castelhana se para retomar o bloqueio de Sevilha.
Compunha-se a armada portuguesa, que largou do Tejo a 11 de Julho, de vinte e uma galés, uma galeota e quatro naus, com uma guarnição total de seis mil homens. Será oportuno referir que foi muito difícil arranjar remadores para tão elevado número de navios, o que obrigou ao recrutamento forçado de camponeses sem qualquer experiência de mar. No entanto não nos parece que este facto possa ser invocado como justificação para o calamitoso desfecho da batalha. Mais grave terá sido, possivelmente, a escolha para almirante da armada de João Afonso Telo, conde de Barcelos e irmão da rainha, em substituição de Lançarote Pessanha que havia sido destituído do cargo em resultado da forma pouco airosa como se tinha comportado na guerra anterior.O novo almirante era valente e decidido mas vaidoso e desconhecedor da guerra naval.
A armada castelhana, que se encontrava baseada em Sevilha, compunha-se de vinte e três galés das quais apenas dezassete se encontravam nessa altura em estado de navegar. Talvez porque não dispusesse de informações correctas sobre a força da armada portuguesa, foi com essas dezassete galés que o almirante Sanchez de Tovar se fez ao mar em meados de Julho, ao que parece com a intenção de ir ocupar o estuário do Tejo, tal como fizera na guerra anterior, a fim de impedir o desembarque dos ingleses.

Ao atingirem a costa algarvia, no fatídico dia 17 de Julho de 1381, as galés castelhanas avistaram a armada portuguesa que devia ir a navegar à vela, com vento fraco, em sentido oposto. Surpreendido pelo elevado número de navios que compunham a nossa armada, o almirante Sanchez de Tovar, prudentemente, inverteu o rumo e dirigiu-se para Huelva, provavelmente por pensar que seria mais vantajoso para si dar combate aos portugueses dentro da ria, em águas restritas que dificultariam a manobra das nossas galés e onde as nossas naus teriam dificuldade em penetrar.
A retirada da armada castelhana encheu de júbilo e de vaidade os portugueses, que imediatamente arriaram as velas e se lançaram a remos em sua perseguição, sem qualquer cuidado, como se já a tivessem vencido.
Um pouco antes de Huelva foram encontradas numerosas armações de pesca que oito das nossas galés que iam mais à terra, num gesto de arrogância, resolveram ir destruir. Com isso, atrasaram-se consideravelmente em relação às restantes, acentuando-se a dispersão da nossa armada. À frente, com o almirante, iam apenas doze galés e a galeota, navegando de uma forma desordenada, na ânsia de alcançarem o inimigo; bastante mais atrás seguiam as oito galés que tinham ido destruir as armaçoes; a certa distância destas arrastava-se uma outra galé, que por ser mais ronceira ia perdendo terreno em relação às outras; por fim, ainda mais lá para trás, lutando contra a falta de vento, as quatro naus.
O estado caótico em que navegava a armada contrária não passou despercebido ao experimentado almirante de Castela, que não hesitou em aproveitar a oportunidade que o inimigo tão infantilmente lhe estava oferecendo. Já muito perto da ria de Huelva, ao largo de um lugarejo chamado Saltes, mandou inverter o rumo e com todas as suas galés formadas em linha e bem juntas umas às outras ficou aguardando a investida dos portugueses.

Em face da mudança de atitude do inimigo, mandava o mais elementar bom senso que o nosso almirante suspendesse a marcha das galés que tinha consigo e, pelo menos, aguardasse pela chegada das oito que tinham ficado para trás. Depois de devidamente formada a sua linha de batalha e de ter dado um pouco de descanso aos remadores, que deviam estar extenuados, poderia ir demandar os castelhanos com uma margem de superioridade de três galés e uma galeota, o que, possivelmente, lhe daria a vitória. Mas não fez nada disso. Empolgado pela longa perseguição a um inimigo que parecia fugir espavorido diante de si, Afonso Telo só pensava em abordá-lo o mais depressa possível antes que se escapasse para Huelva.
Deste modo, mal apoiadas umas pelas outras, as nossas galés dianteiras continuaram a avançar contra a linha inimiga. Como seria de esperar, nestas circunstâncias, ao dar-se o embate, as galés portuguesas que primeiro chegaram ao contacto com as castelhanas ficaram entaladas entre duas ou mais destas e foram dominadas com relativa facilidade, o mesmo acontecendo às que chegaram alguns minutos mais tarde. Desta forma, depois de oferecerem maior ou menor resistência, todas as doze galés que acompanhavam o nosso almirante, bem como a galeota, soçobraram perante o maior número das castelhanas.
Vendo a batalha bem acesa lá para a frente, as oito galés que tinham ficado para trás esforçaram-se por ir em auxílio das companheiras. Mas em vão. Quando chegaram ao local do combate já todas aquelas tinham sido forçadas à rendição. A um combate de dezassete contra treze seguiu-se um segundo combate de dezassete contra oito que, obviamente, teve um desfecho semelhante ao do primeiro: todas as oito galés portuguesas foram tomadas!
A galé que se encontrava ainda mais atrasada quando se apercebeu do desfecho da batalha inverteu o rumo e foi juntar-se às naus, regressando todas juntas a Lisboa.
Terminada a batalha, Sanchez de Tovar dirigiu-se a Sevilha subindo o Guadalquivir com as galés portuguesas capturadas a arrastar os pendões pela água, perante o gáudio das populações ribeirinhas.
A derrota sofrida pela armada portuguesa, a mais pesada de toda a sua História, teve repercussões imediatas no desenrolar da guerra, uma vez que deixou o estuário do Tejo aberto às arremetidas das armadas de Castela. Em fins de Novembro desse mesmo ano de 1381 foi a armada de galés de Sanchez de Tovar que se conservou em Lisboa durante cerca de um mês, obrigando todos os navios que estavam no seu porto, incluindo os que tinham trazido as tropas inglesas, a refugiar-se na ribeira de Sacavém. Em Março do ano seguinte foi uma armada de oitenta naus e barcas da Biscaia, com muita gente de armas, que se instalou no Tejo, assolando as suas margens durante cerca de seis meses.
Entretanto, as operações por terra arrastavam-se. No Alentejo, o exército castelhano e o exército anglo-português encontravam-se frente a frente sem que nenhum deles se resolvesse a atacar com receio do outro. D. Fernando estava farto dos desmandos e da arrogância dos Ingleses; o rei D. João de Castela estava farto da guerra. Entabularam-se negociações secretas e fez-se a paz entre os dois... sem conhecimento do conde de Cambridge, chefe das tropas inglesas, que, indignado, nada mais pôde fazer do que regressar a Inglaterra.
Dadas as enormes dificuldades tanto de ordem interna como de ordem externa com que se debatia o rei de Castela, as condições de paz foram, mais uma vez, favoráveis aos Portugueses, sendo-nos devolvidos todos os prisioneiros e todas as galés que nos haviam sido tomadas em Saltes.
Saturnino Monteiro
em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa» (Vol.I)
Bibliografia:
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Morais, Tancredo de, História da Marinha Portuguesa, Clube Militar Naval, Lisboa, 1940, p.174
Pereira, António Rodrigues, História da Marinha Portuguesa, Escola Naval, Lisboa, 1983, Parte I, p. 141
Duro, Cesáreo Fernandez, La Marina de Castilla, EDITMEX, Madrid, 1995, p. 145
Alvarez de la Fuente, Joseph, Sucession Real de España, Herderos de Francisco del Hierro, Madrid, 1735, Parte Tercera, p. 144
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