Associação Nacional de Cruzeiros



BATALHAS E COMBATES
da Marinha Portuguesa

Bantam - 25 a 30 de Dezembro de 1601

A ida sistemática de numerosos navios holandeses ao Sueste Asiático, que começou a verificar-se a partir de 1598, pondo em perigo o monopólio comercial de que desfrutavam naquela região, veio criar aos Portugueses um problema de ordem estratégica muito dificil de resolver.
A solução radical para esse problema teria sido, obviamente, o bloqueio dos portos holandeses por intermédio de uma armada suficientemente forte baseada no Escalda. Mas isso, dentro da conjuntura existente, competia aos Espanhóis, que, apesar de várias tentativas que fizeram nesse sentido, nunca foram capazes de o conseguir. A partir daí, o problema tornava-se extremamente complicado porque as armadas holandesas, uma vez no mar largo, tanto podiam aparecer no Brasil, como em São Tomé, como em Luanda, como em Moçambique, como em Mombaça, como em Mascate, como em Ormuz, como em Diu, como em qualquer outra cidade da costa ocidental da Índia, como em qualquer porto da ilha de Ceilão, como na costa do Coromandel, como no Achém, como em Malaca, como em Bantam, como em Amboíno, como nas ilhas de Banda, como em Ternate ou Tidore, como em Macau ou no Japão. E, como é por demais evidente, não podiam os Portugueses ter armadas suficientemente fortes em todos esses locais que lhes permitissem bater-se de igual para igual com as holandesas.
A única coisa que podiam fazer era concentrar a sua armada da Índia num daqueles pontos e ficar ali à espera que aparecesse uma armada holandesa para então a tentar destruir. Desde que conseguissem capturar ou afundar um número suficientemente elevado de naus dessas armadas, as respectivas Companhias seriam levadas à falência e deixariam de mandar navios ao Oriente. Aliás, de início, o problema apresentava-se bastante simplificado pelo facto de a maioria das armadas holandesas serem constituídas por um número relativamente pequeno de navios e por se dirigirem, quase que exclusivamente, a Bantam ou ao Achém. Era pois nestes dois pontos nevrálgicos que se tinha de concentrar a atenção dos Portugueses, o que nem sempre foi claramente entendido.
No quadro estratégico inicialmente existente teria sido porventura suficiente ter mantido em permanência uma armada de quatro galeões e algumas fustas (estas últimas para reconhecimentos e outras missões secundárias) nas proximidades do estreito de Sunda, outra semelhante no Achém e, eventualmente, uma terceira da mesma força, de reserva, em Goa. Isso implicaria conservar doze galeões permanentemente operacionais, o que era perfeitamente compatível com as possibilidades logísticas e financeiras do Estado da Índia.
Mas o problema não era tanto de ordem estratégica, nem mesmo logística ou financeira, conforme muitas vezes se ouve dizer, mas, sobretudo, de ordem tecnológica.
Quando da sua chegada à Índia, os Portugueses haviam ganho o domínio do mar por intermédio dos seus navios de alto bordo, robustos e armados com canhões de bronze, que eram francamente superiores aos navios indianos, muito pior construidos e mal armados. Porém, a pouco e pouco, por variadíssimas razões, foram abandonando os navios de alto bordo e o combate de artilharia em favor dos navios de remo e do combate à abordagem. Será oportuno recordar que a primeira grande batalha naval que os Portugueses travaram na Índia foi a batalha de Cananor de 1501, que foi ganha exclusivamente através do uso da artilharia. E o mesmo aconteceu nas três batalhas de Cochim de 1504. Porém, nas batalhas de Cananor de 1506, de Ormuz de 1507 e na de Chaul de 1508, embora a decisão tenha ainda sido obtida por intermédio da artilharia, o rescaldo já se desenrola sob a forma de combate à arma branca. Finalmente, na célebre batalha de Diu de 1509, a artilharia e o combate à abordagem desempenham papéis de importância equivalente. Daí para diante são raras as batalhas em que os navios de alto bordo e a artilharia desempenham o papel principal.
Desta evolução resultou que na Índia, como aliás na Metrópole por razões diferentes, os Portugueses estagnaram em matéria de construção de navios de alto bordo. E, quando as rápidas e bolineiras «fluyts» holandesas apareceram nos mares do Oriente, nos começos do século XVII, não dispunham de navios capazes de as alcançar e obrigar a combater. A partir daí, todas as congeminações estratégicas e tácticas, por mais brilhantes que fossem, estavam de antemão condenadas ao fracasso. A batalha naval de Bantam de 1601 constitui um exemplo flagrante do que acabamos de dizer.
Quando, em Março ou Abril de 1600, chegaram a Goa as primeiras notícias de que andavam muitas naus holandesas espalhadas por todo o Sueste Asiático, o vice-rei D. Francisco da Gama, com a «monção» à porta e a maior parte das suas forças empenhadas na destruição do Cunhale, apenas pôde mandar para Malaca, em princípios de Maio, duas galeotas. Ao que parece, uma delas terá sido utilizada pelo capitão daquela cidade para transportar para o Achém um embaixador deste reino que acabara de chegar de Goa. Da outra nada se sabe, sendo de supor que tenha ficado ao serviço da fortaleza.
Em Setembro do mesmo ano de 1600, estando já disponíveis as forças que no «Verão» anterior haviam sido usadas contra o Cunhale, foi enviada para Malaca uma armada relativamente importante composta por dois galeões e três galeotas, ao mando de D. Guterres de Monroy. Tendo chegado àquela cidade, possivelmente, em Novembro, D. Guterres incorporou na sua armada uma galeota que lá se encontrava e dirigiu-se a Amboíno e a Tidore a fim de pôr aquelas duas fortalezas em estado de se defenderem se lá aparecessem os Holandeses, medida sensata que veio a dar bons frutos a curto prazo. Quando em Maio de 1601 van der Hagen tentou tornar a nossa fortaleza de Amboíno, foi repelido com perdas; e o mesmo sucedeu, como já vimos, a van Neck, quando em Junho do mesmo ano fez uma tentativa semelhante contra a fortaleza de Tidore. Tanto na viagem de ida para as Molucas como na de regresso, a armada de D. Guterres de Monroy não encontrou qualquer navio holandês.
Entretanto, assumira o governo da Índia o novo vice-rei Aires de Saldanha, que, de acordo com as ordens que recebera de Lisboa, deu prioridade à organização de uma armada de navios de alto bordo destinada a operar em permanência no Sueste Asiático com a finalidade de expulsar de lá os Holandeses.
Em resultado das suas diligências, em Abril de 1601 largou de Goa com destino a Malaca uma nova armada, sob o comando de André Furtado de Mendonça, constituída por quatro galeões, uma galé e dezoito fustas, em que iam embarcados cerca de mil e duzentos portugueses, além de dois mil malabares e canarins.
Se atendermos a que em Malaca se lhe deviam juntar os dois galeões e as cinco galeotas que para lá tinham sido mandadas no ano anterior, não poderemos deixar de concordar que a armada de André Furtado era na realidade uma força quantitativamente adequada à missão de que estava incumbida, que era, nada mais nada menos, do que expulsar os navios holandeses dos mares do Oriente.
A nomeação de André Furtado de Mendonça para capitão-mor da dita armada fora vivamente aconselhada ao Vice-Rei, tanto pelos Governadores do Reino como pelo Conselho de Estado da Índia. No entanto, apesar do enorme prestígio de que aquele desfrutava, em razão das grandes vitórias que havia alcançado sobre o rei de Jafnapatão e sobre o Cunhale, não nos parece que a escolha tenha sido feliz. André Furtado tinha um temperamento instável, uma susceptibilidade doentia e era, por natureza, um pessimista e um frustrado. Por outro lado, era um paladino acérrimo da velha escola dos navios de remo e do combate à arma branca, olhando com desconfiança para os navios de alto bordo e para o combate de artilharia. Acima de tudo, era um Militar de terra e não um Marinheiro.
Para almirante da armada foi escolhido Tomé de Sousa Arronches e para capitão-mor dos navios de remo Salvador Pereira da Silva, que tinha regressado havia pouco da guerra de Ceilão. Será indispensável dizer, para evitar confusões, que nesta época o cargo de «almirante» nas armadas espanholas e portuguesas correspondia ao desempenho das funções de «segundo-comandante» logo abaixo do capitão-mor.
O plano de campanha da armada de André Furtado de Mendonça, concertado em Goa, incluía, ao que parece: fazer escala no Achém, a fim de tentar obter do respectivo rei autorização para construirmos ali uma fortaleza; tocar em Malaca, a fim de se reabastecer, incorporar os navios que lá se encontravam e obter informações; seguir para Bantam a fim de capturar ou destruir todos os navios holandeses que por lá aparecessem, bem como destruir as feitorias holandesas que as diversas Companhias tinham ali estabelecido; seguir depois para Amboíno, a fim de destruir a feitoria que os Holandeses lá tinham instalado e castigar os reis nativos que os tinham auxiliado; fazer o mesmo nas ilhas de Banda; por fim, seguir para Tidore e, com a ajuda dos espanhóis das Filipinas, tentar recuperar a nossa antiga fortaleza de Ternate e destruir a feitoria que os Holandeses tinham instalado nesta ilha.
A nosso ver, tratava-se de um plano de campanha demasiadamente ambicioso que tinha o grave inconveniente de afastar a armada dos dois pontos fulcrais que deviam condicionar toda a manobra estratégica e que eram, conforme já tivemos ocasião de dizer, o estreito de Sunda e o Achém. Por outro lado, dá a ideia de que não terá ficado bem esclarecido no espírito dos chefes que o objectivo principal da armada, ao qual deveriam ser subordinados todos os outros, era a captura ou a destruição de navios holandeses.
O primeiro inimigo com que André Furtado teve de se defrontar foi o mau tempo. Depois de passado o cabo Comorim, um violento temporal abateu-se sobre a armada, provocando a dispersão dos navios. Algumas fustas naufragaram na costa da ilha de Ceilão; outras foram abrigar-se em Manar e noutros portos; a galé, acompanhada por sete fustas, conseguiu alcançar Colombo; um grupo constituido por um galeão e uma fusta e outro grupo constituído por três galeões continuaram a caminho do Achém.
Nessa altura havia falta de soldados e de material de guerra em Ceilão e o geral (general) da conquista, D. Jerónimo de Azevedo, conseguiu sem dificuldade convencer o seu antigo subordinado Salvador Pereira da Silva, que era muito mais útil ficar com os seus navios e os seus homens em Ceilão do que seguir para Malaca, deixando-o em perigo. Ao que parece, o Vice-Rei acabou por sancionar esta decisão. Deste modo, ficou a armada com que André Furtado partira de Goa reduzida a quatro galeões e uma fusta com cerca de seiscentos e trinta portugueses! Foi na verdade um rude golpe que não pode ter deixado de afectar negativamente o moral das guarnições e do capitão-mor logo no início da campanha. Pela nossa parte, não podemos deixar de chamar a atenção do leitor para este exemplo flagrante da influência nociva que a conquista de Ceilão teve, nesta época, em relação às operações navais de natureza vital que estavam sendo levadas a cabo para a conservação do nosso império do Oriente.
A 8 de Junho chegou ao Achém um dos galeões da armada de André Furtado acompanhado por uma fusta. A 19, estando a aproximar-se do porto uma «nau de Meca», o capitão da fusta, por sua alta recreação, resolveu ir tomá-la sem se importar com a ofensa que tal acto representava para o rei do Achém, cuja boa vontade interessava conservar. Mas a tentativa redundou em desastre. Atingida várias vezes pelos tiros da artilharia da nau e da fortaleza do Achém, que se apressara a abrir fogo para marcar a sua soberania, a fusta teve de ser abandonada pela sua guarnição, que provavelmente terá sido salva pelo batel do galeão, e foi dar à costa, onde se desfez.
Como seria de esperar, em resultado deste incidente o rei do Achém ficou muito indisposto com os Portugueses, tanto mais que tinha tido informação de que se estava aproximando uma armada de Jor, o que o fez suspeitar que existisse um conluio do rei desta cidade connosco para o atacarem.
A 5 de Julho, segundo parece, terá chegado ao Achém André Furtado de Mendonça com os outros três galeões com que partira de Goa. Nesse mesmo dia apresentou-se também diante da cidade a armada de Jor. Imediatamente saiu ao seu encontro a do Achém, que após um breve combate a obrigou a bater em retirada. Verificando que os portugueses não tinham tomado qualquer atitude hostil, o rei do Achém percebeu que não existia qualquer entendimento entre eles e o rei de Jor e recebeu muito bem André Furtado. No entanto, não acedeu ao pedido deste para nos deixar construir uma fortaleza junto da cidade para, diziamos nós, o ajudar a defender-se dos Holandeses.
Tendo falhado o primeiro ponto da sua missão e com a armada reduzida a quatro galeões, André Furtado de Mendonça dirigiu-se para Malaca.
Aí chegado, começou por enviar duas galeotas de socorro a Tidore e, possivelmente, também a Amboíno, as quais devem ter partido em fins de Agosto. Seguidamente, tratou de reorganizar a armada, aproveitando-se dos navios que se encontravam nessa altura em Malaca e que eram, além dos dois galeões e das cinco galeotas que para lá haviam sido enviadas no ano anterior, duas ou três naus e dois juncos de mercadores e algumas fustas e bantins da cidade. A armada propriamente dita deverá ter ficado constituída pelos seis galeões, duas galeotas (além das duas que tinham sido destacadas para Amboíno), duas fustas e oito bantins. As naus de mercadores e os juncos é provável que a tenham acompanhado somente para beneficiar da sua protecção e não com o fim de aumentar o seu potencial.
Durante a estadia em Malaca é natural que André Furtado de Mendonça tenha sido informado de que a sua querida armada de remo havia sido desviada para a guerra de Ceilão e que tenha ficado indignado, não só contra Salvador Pereira da Silva mas também contra o Vice-Rei. Numa carta que dali escreve ao governador das Filipinas pedindo-lhe auxílio para a reconquista de Ternate, queixa-se amargamente daquele, ao mesmo tempo que lamenta a falta de navios de remo, sem os quais, no seu entender, não podia cumprir a missão de que fora incumbido.
Na realidade, os seis galeões de que dispunha, fossem eles mais rápidos e melhores de bolina, teriam sido suficientes para criar grandes dificuldades aos Holandeses. A falta da galé com que saíra de Goa era, na verdade, uma ausência para lamentar, já que poderia ser de grande utilidade, com os seus canhões de grosso calibre, para atacar pela popa os navios inimigos em ocasiões de calma. Quanto às fustas, não nos parece que pudessem ter grande utilidade, a não ser para missões de reconhecimento e operações de desembarque, tarefas que também podiam ser desempenhadas pelos bantins de Malaca. Não haveria, consequentemente, razões válidas capazes de justificar o pessimismo de André Furtado numa altura em que ainda não tinha consciência da inferioridade dos galeões portugueses em relação às «fluyts» holandesas no tocante a qualidades náuticas.
Tendo largado de Malaca em princípios de Dezembro de 1601, a armada portuguesa deverá ter chegado a Bantam por meados do mês, fundeando junto da ilha de Pandjang, que fica a meio da baía, frente àquela cidade.


BANTAM - 1601

Ao que parece, já em tempos os Portugueses tinham pensado em construir uma fortaleza na referida ilha, para o que teriam oferecido uma elevada quantia ao regedor de Bantam, que, apesar disso, não aceitou o negócio. No Reino havia a ideia de que convinha ter uma fortaleza nas proximidades do estreito de Sunda. Na Índia, pelo contrário, pensava-se que já havia fortalezas a mais e que o essencial era dispor de uma forte armada de navios de alto bordo para dar combate no mar aos Holandeses. Afinal foi esta última concepção que prevaleceu. Por isso, não fazia parte da extensa lista de objectivos atribuídos à armada de André Furtado efectuar quaisquer diligências no sentido de vir a ser edificada uma fortaleza nas proximidades do estreito de Sunda.
Poucos dias depois da chegada a Bantam, juntaram-se à nossa armada oito corocoras (?) do rei de Palembang, que em tempos havia sido vassalo de Java e que pretendia aproveitar-se da presença ali dos Portugueses para ajustar contas antigas.
Os primeiros navios holandeses que a nossa armada avistou devem ter sido as naus Midelburg e Zon, vindas do Achém, que, provavelmente, fizeram a viagem por dentro do estreito de Malaca. Tendo encontrado a armada portuguesa posicionada em força diante de Bantam, tomaram imediatamente o rumo de Amboíno. Dado que as ditas naus eram mais rápidas que os nossos galeões e que partiam com avanço, André Furtado, sensatamente, não as perseguiu, limitando-se a mandá-las vigiar por alguns bantins. Em circunstâncias que desconhecemos, um desses bantins foi capturado pelos holandeses na costa de Bornéu, sendo depois levado até às Celebes, onde foi abandonado.
Sensivelmente pela mesma altura estava passando ao largo de Balimbing uma armada holandesa, comandada por Wophert Harmensz, composta pelas naus Gelderland, Zeeland e Utrecht e pelos patachos De Wachter e Het Duifke. Sendo aquele informado por uma embarcação chinesa de que em Bantam se encontrava uma grande armada portuguesa, reuniu imediatamente conselho, no qual foi decidido continuar para diante e, se necessário, dar-lhe combate.
Em resultado desta decisão, a armada holandesa penetrou resolutamente no estreito de Sunda e, ao amanhecer do dia 25 de Dezembro de 1601, avistou dois galeões portugueses fundeados junto à ponta NW da ilha de Java. Tratava-se do galeão de Tomé de Sousa Arronches e de outro que ali tinham sido colocados de vigia. Naturalmente que Harmensz não ia deixar escapar a ocasião de se bater na proporção de cinco contra dois e avançou a todo o pano contra os navios portugueses. Pela sua parte, Tomé de Sousa deixou-o ir-se aproximando e, no momento oportuno, suspendeu, largou o pano e atravessou-se-lhe na frente. A partir daí as duas armadas devem ter rumado sensivelmente a NE com vento bonançoso a moderado pela alheta de BB, bombardeando-se mútuamente. É de supor que a Gelderland se tenha emparceirado com a almiranta portuguesa e que a Zeeland se tenha emparceirado com o outro galeão. Como todos os navios deviam ir a andar bastante bem é de supor que a Utrecht e os dois patachos não tenham tido oportunidade de alcançar uma boa posição de tiro e, praticamente, não tenham chegado a tomar parte na contenda.
No combate de artilharia no mar, sendo sensivelmente igual o calibre e o número de canhões de dois navios envolvidos num duelo de artilharia, a sorte desempenha um papel decisivo. Neste caso, a sorte favoreceu os portugueses. Sem ter perdido um único homem, o navio de Tomé de Sousa conseguiu provocar um certo número de baixas na Gelderland, destruir-lhe grande parte das enxárcias e, por fim, avariar-lhe o leme. Pouco depois, rebentava uma peça a bordo do navio holandês, o que veio agravar ainda mais a sua situação. Entretanto, o grosso da armada portuguesa, que estava junto à ilha de Pandjang, levantara ferro e viera navegando para norte, estando prestes a atravessar-se na frente da armada holandesa.
É possível que Harmensz, de início, tivesse tido a intenção de romper à força através da armada portuguesa e dirigir-se para as Molucas, já que Bantam se encontrava bloqueada. Mas agora, com a sua capitânia gravemente avariada e uma forte concentração de navios portugueses diante de si, é de supor que tenha mudado de ideias e resolvido voltar para trás, a fim de se recompor. Por isso, terá virado em roda e feito um bordo para terra, orçando o mais possível. Terá então verificado que os navios portugueses não eram capazes de acompanhar a sua bolina, o que o terá levado, provavelmente, a ir fundear junto à costa, a cerca de légua e meia da ilha de Pandjang, para poder reparar mais comodamente as avarias que sofrera. A armada portuguesa, navegando a sotavento da holandesa e mais aberta do que ela em relação ao vento, voltou a fundear nas proximidades daquela ilha.
Na posição em que se encontravam, com vento e corrente exactamente vindos do lado em que se encontrava o inimigo e sendo fracos de bolina, os navios portugueses não tinham a menor possibilidade de alcançarem o local onde se encontravam os holandeses. Por isso, o dia 26 passou-se sem que se tivesse registado qualquer acção bélica, limitando-se os dois adversários a observarem-se enquanto iam reparando as avarias sofridas no combate da véspera.
No dia 27, André Furtado decidiu lançar um ataque com os seus navios de remo que, como já tivemos ocasião de dizer, eram a sua arma preferida. Ao que parece, tê-los-á dividido em dois grupos, cada um deles constituído por uma galeota, uma fusta e, possivelmente, três ou quatro bantins. Um desses grupos era capitaneado por André Rodrigues, o famoso Palhota, e tinha por missão abordar a Gelderland; o outro grupo, que era capitaneado por D. Francisco de Sousa, devia abordar a Utrecht.
Os navios holandeses, como é óbvio, estavam com as popas, o seu sector mais fraco, voltadas para o lado donde vinham os portugueses. Por isso, não deve ter sido difícil aos nossos navios de remo colocarem-se nesse sector e começarem a batê-los com a sua artilharia, que, infelizmente, não incluía canhões de grosso calibre. (Para situações destas é que faziam falta as galés.) Responderam os holandeses com as poucas peças que tinham montadas à popa e com intenso fogo de mosquetaria. Ao fim de algum tempo, as galeotas e as fustas, metendo-se por baixo das baterias dos navios inimigos e, prolongando-se com eles, aferraram-nos. Em cada grupo é natural que a galeota tenha atracado à nau que lhe competia por um dos bordos enquanto a fusta o tentava fazer pelo outro bordo. Mas a abordagem não foi bem sucedida. Havia muita vaga, que sacudia violentamente os pequenos navios de remo e os fazia dar fortes pancadas contra os costados das naus, tornando muito difícil para os nossos soldados a escalada destes. Além disso, lá do alto choviam sobre eles como granizo as bem dirigidas balas dos mosquetes holandeses que os matavam como tordos. Possivelmente, a maior parte dos atacantes terá sido morta mesmo antes de ter conseguido pôr o pé no convés das naus holandesas. Os poucos que o conseguiram, entre eles André Rodrigues, viram-se logo rodeados por grande número de inimigos bem armados e igualmente destros no jogo das armas e, apesar da valentia com que se bateram, foram rapidamente liquidados. Ao que parece, das guarnições das duas galeotas apenas terá escapado uma escassa dezena de portugueses, que ficaram prisioneiros dos holandeses e que Harmensz, num gesto de rara nobreza, mandou posteriormente entregar a André Furtado sem nada pedir em troca.
Quanto às fustas, é de supor que não tenham chegado a aferrar ou que, tendo-o feito, tenham sentido tais dificuldades em levar por diante a tentativa de abordagem que tenham optado por retirar, provavelmente já com bastantes mortos e feridos. Os bantins deverão ter-se limitado a seguir a acção à distância, acabando por acompanhar as fustas na retirada. Tendo ficado praticamente sem gente, as duas galeotas que se encontravam aferradas às naus foram facilmente tomadas pelos holandeses, que, depois de terem retirado delas tudo que pudesse ter alguma utilidade, lhes puseram fogo.
Este mal sucedido ataque levado a cabo pelos nossos navios de remo, apesar da coragem e da determinação patenteadas pelos capitães e pelas guarnições das galeotas, veio demonstrar mais uma vez que aqueles não eram os navios adequados para combater com as bem construídas, bem artilhadas e bem guarnecidas naus holandesas. Só a inconsciência de André Furtado e dos seus capitães permitiu que fosse concebida e executada uma operação que de antemão estava condenada ao insucesso e redundou na perda de duas galeotas e de perto de cinquenta homens.
Quanto a nós, a única coisa que poderia ter sido tentada era ter mandado as duas galeotas bombardear intensamente pela popa a nau inimiga que estivesse mais a sotavento, na esperança de lhe provocar entradas de água que a fizessem ir ao fundo. E nada mais. Tentar a abordagem nos moldes em que foi efectuada era um verdadeiro suicídio, como foi.
No dia 28, André Furtado de Mendonça, que não se resignava a assumir urna atitude de mera expectativa, mandou transformar duas das corocoras de Palembang em brulotes que, durante a noite de 28 para 29, foram levados para uma posição a barlavento da armada holandesa e deixados ir à deriva depois de incendiados. Mas de noite é muito difícil avaliar distâncias. Os dois brulotes foram lançados cedo demais e consumiram-se antes de terem atingido o fundeadouro da armada inimiga, que, consequentemente, nada sofreu com eles.
André Furtado, depois de jogadas todas as «cartas» de que dispunha, não sabia que fazer. Porém, no dia seguinte, 29 de Dezembro, Harmensz quebrou o impasse. Tendo terminado a reparação das avarias que sofrera no combate do dia 25, suspendeu e fez-se na volta do mar, rumo a NE. O nosso capitão-mor seguiu-lhe imediatamente o exemplo na esperança de o conseguir interceptar e forçar a um combate decisivo. Porém, a meio da tarde, o vento caiu por completo e as duas armadas ficaram imobilizadas, fora do alcance de tiro, enquanto eram arrastadas pela corrente para leste.
Ao amanhecer do dia 30, o vento recomeçou a soprar moderado de oeste. Vendo que não conseguia alcançar o inimigo, André Furtado mandou desfraldar urna grande bandeira vermelha desafiando-o para o combate à abordagem. Pouco depois, a armada holandesa virava em roda, dando a impressão aos portugueses que aceitara o repto e que se dirigia para eles. Mas não era essa, nem por sombras, a intenção de Harmensz, que não era propriamente um cavaleiro andante mas sim um marinheiro hábil e consciente dos interesses dos armadores por conta dos quais trabalhava.
Tendo constatado que a armada portuguesa, arrastada pela corrente, já se encontrava francamente sotaventeada em relação a Bantam, compreendera que podia, sem qualquer perigo, dirigir-se a este porto. Por isso fizera sinal para virar de bordo. Seguidamente, orçando tudo, encaminhou-se para lá, e foi fundear triunfalmente no lugar que a nossa armada havia deixado!
Como os galeões portugueses bolinavam muito pouco e a corrente e o vento eram de oeste, André Furtado concluiu, talvez um tanto apressadamente, que nada mais podia fazer em Bantam. Despediu as corocoras de Palembang e os bantins de Malaca para as respectivas cidades e, com os seis galeões, as duas fustas e os navios mercantes que tinha em sua companhia, tomou o caminho de Amboíno.
Quanto a nós, pensamos que foi urna decisão infeliz, por várias razões: em primeiro lugar, abandonando o campo de batalha aos holandeses fez pensar aos Javos que tínhamos sido derrotados por eles, o que abalou consideravelmente o prestígio de que desfrutávamos na região numa altura em que precisávamos do apoio dos reis locais para combater aqueles; em segundo lugar, porque afastava a armada do eixo estratégico fundamental Achém-Bantam, desviando-a para uma zona periférica e deixando o campo livre aos Holandeses nas zonas vitais do Achém, do estreito de Malaca, do estreiro de Singapura e do estreito de Sunda; em terceiro lugar, porque tornava muito mais difícil o reabastecimento e o reforço da armada a partir de Malaca.
Em nossa opinião, o mais importante, naquela altura, teria sido escrever ao Vice-Rei a dar-lhe conta do sucedido e a mostrar-lhe a necessidade de ser iniciada sem delongas na Índia a construção de novos galeões, mais pequenos que os antigos mas mais rápidos e melhores de bolina, capazes de alcançarem as naus holandesas, de as aferrarem e de as queimarem com panelas de pólvora ou se queimarem com elas. Mas é claro que se tratava de idéias que não podiam passar pela cabeça de André Furtado nem dos seus capitães, homens de um século que passara e que não eram capazes de compreender a necessidade da evolução e da constante adaptação face ao progresso tecnológico.
De qualquer forma, poderia, pelo menos, o nosso capitão-mor ter permanecido com os seis galeões e as duas fustas fundeados na costa, nas imediações de Bantam e aproveitar os periodos de calma para os ir aproximando da cidade, fazendo rebocar os galeões pelas fustas e pelos seus próprios batéis ou espiando ancorotes. Procedendo assim, é provável que tivesse obrigado os holandeses a deixar o porto e até que tivesse podido destruir as quatro feitorias que ali tinham. Poderia então ter continuado em Bantam até ao virar da monção (Maio), impedindo que outras naus holandesas lá fossem carregar e esperando pelo regresso das que viessem das Molucas carregadas e, portanto, com menor velocidade, para as tentar de novo interceptar. Por outras palavras: uma vez que não tinha conseguido impor ao inimigo a decisão por meio da batalha, poderia ter recorrido à estratégia da «armada em potência».
Tal como aconteceu, a batalha naval de Bantam de 1601 constituiu uma enorme frustração para os Portugueses, numa altura em que ainda dispunham de meios humanos e materiais para pôr um dique à maré holandesa que ameaçava submergi-los. E nela ficou mais uma vez demonstrado que o que lhes faltava eram bons navios, bons marinheiros e, sobretudo, chefes políticos e militares com capacidade para inovar.

                Saturnino Monteiro                
em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa» (Vol.IV)

Bibliografia:
Sousa, Afredo Botelho de, Subsídios para a História Militar Marítima da Índia, Imprensa da Armada, Lisboa, 1930, Vol. I, pp. 457, 478, 482, 485
Penrose, Boies, Sea Fights in East Indies, Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, 1931, p.43


Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa

Página principal da A.N.C.
TWK - 'Meter no Correio' Coloque aqui o seu correio, sugestões, ou informações.


Última actualização: 23 de Fevereiro de 2001
Copyright © A.N.C.- Associação Nacional de Cruzeiros / Livraria Sá da Costa Editora / Cmdte. Saturnino Monteiro