
Decidido a expulsar os Portugueses de Sirião, o rei de Arracão mandou reunir todos os navios que havia no seu reino e organizou uma poderosa armada destinada à conquista da nossa fortaleza. Faziam parte dessa armada dez galeotas, vinte e cinco fustas e cerca de seiscentas jáleas e outras embarcações menores, cujas guarnições totalizavam cerca de catorze mil homens. Era seu capitão-mor o príncipe herdeiro de Arracão, que ia acompanhado por dois príncipes do Pegu e pelos principais capitães do reino.
Soube destes preparativos Filipe de Brito, que logo tratou de aprontar a sua armada, constituída por três galeotas, quatro fustas e um certo número de sanguiceis, entregando-a a Paulo do Rego Pinheiro, ao qual ordenou que fosse esperar pelo inimigo para lá do cabo Negrais e que o procurasse desbaratar no mar, dando-lhe combate por partes, antes que se conseguisse meter no dédalo de rios e canais que vão desde o referido cabo até Sirião.
Assim fez Paulo do Rego, indo postar-se junto à costa, um pouco a norte do cabo Negrais, onde ficou aguardando que aparecesse a armada de Arracão, na esperança de que viesse descuidada e com os navios separados uns dos outros. Na realidade, foi precisamente isso que sucedeu. Por volta de 22 de Janeiro de 1605 foi avistado um grupo de dez navios inimigos, constituído por galeotas e fustas, que se havia adiantado consideravelmente em relação ao grosso da armada, cujas velas mal se divisavam no horizonte. Estando os nossos navios projectados sobre a terra e com o pano em baixo, é natural que só tenham sido avistados pelo inimigo muito tarde. E, enquanto os navios de Arracão arriavam as velas, armavam remos e se aprontavam para combate, foram alcançados por eles.
Travou-se então um renhido combate, em que, beneficiando do factor surpresa, do seu superior armamento e da sua maior experiência, os portugueses venceram com relativa facilidade os contrários, tomando-lhes todos os navios! Terminado o combate, Paulo do Rego recolheu-se ao rio de Negrais, onde ficou à espera que aparecesse outro grupo desgarrado de navios de Arracão.
Mas o príncipe, tendo-se apercebido do que acontecera aos navios que iam em guarda avançada, deu ordens rigorosas para que os restantes se conservassem juntos, navegando em duas grandes esquadras paralelas uma à outra. Quando, possivelmente no dia seguinte de manhã, Paulo do Rego avistou a multidão de velas que se aproximava da barra do Negrais, deve ter tido o receio de ficar encurralado e fez-se apressadamente ao mar, tomando o caminho de Sirião. Como seria de esperar, levou consigo os dez navios que tomara, os quais, além de disporem de boa artilharia, estavam muito bem municiados e abastecidos de mantimentos.
Ficou Filipe de Brito muito satisfeito com o resultado deste primeiro encontro e forneceu a Paulo do Rego os soldados necessários para guarnecer as presas que tinha feito, o que duplicou praticamente a força da nossa armada, embora deixando a fortaleza com muito pouca gente. Feito isso, Paulo do Rego foi postar-se na boca do afluente, por onde se esperava que viesse a armada de Arracão.

Sirião - 1605
Na realidade, depois de ter dobrado o cabo Negrais, o príncipe de Arracão achara preferível ernbrenhar-se com a sua armada no dédalo de rios e canais que permitem a embarcações de pequeno calado ir desde aquele cabo até Sirião por dentro da terra. A sua intenção era pôr cerco à fortaleza o mais cedo possível, apoiado pelas forças dos seus aliados do Pegu que estavam nas imediações de Cosmim.
Quatro dias depois de Paulo do Rego ter chegado a Sirião, ou seja, a 28 de Janeiro de 1605, apareceu a armada de Arracão, que, vendo a passagem obstruída pela nossa, arremeteu resolutamente contra ela. Troaram os canhões, crepitaram os mosquetes e voaram as panelas de pólvora e as lanças de fogo, enchendo-se o ar de estrondos medonhos e de uma vozearia infernal no meio de densas nuvens de fumo negro que mal deixavam distinguir os amigos dos inimigos. Alguns navios de Arracão, vítimas do tiro certeiro dos nossos canhões e dos nossos mosquetes, afundaram-se; outros foram forçados a retroceder, pejados de mortos e feridos, lançando a confusão e desmoralizando os que seguiam na sua esteira.
Retirou a armada de Arracão durante algum tempo, mas, logo que se recompôs, voltou ao ataque, sendo pela segunda vez repelida. Seguiu-se novo compasso de espera para reorganização e, depois, um terceiro ataque ainda mais violento que os anteriores. Nessa altura, em consequência de atraso no lançamento de uma panela de pólvora, num dos nossos sanguiceis, aquela incendiou-se antes de ser atirada e pegou fogo a outras, que começaram a arder furiosamente. Ao verem um dos nossos navios em chamas, os inimigos animaram consideravelmente, julgando que, finalmente, nos iam levar de vencida. No entanto, embora tivessem passado um mau bocado, os portugueses conseguiram dominar o incêndio do sanguicel e continuaram a massacrar com o seu tiro os navios de Arracão que tinham mais perto de si.
Por sorte, nesse momento crítico da batalha chegaram a Sirião, vindas do mar, onde andavam em serviço de patrulha, duas fustas portuguesas, que sem hesitar se lançaram sobre o inimigo a partir de uma direcção donde não eram esperadas. A sua intervenção foi decisiva. Vendo-se subitarnente colhidos entre dois fogos, alguns dos capitães dos navios de Arracão desorientaram-se e bateram em retirada, movimento este que rapidamente se propagou ao resto da armada. Foi então a vez de os navios portugueses se lançarem ao ataque, acabando por tomar, ao fim de pouco tempo, todas as galeotas e fustas que restavam à armada de Arracão!
Vendo-se perdido, o príncipe procurou fugir com as jáleas que lhe restavam pelo mesmo caminho por onde tinha vindo. Mas os sanguiceis portugueses anteciparam-se e taparam-lhe a passagem. Então as jáleas rneteram-se por um outro rio, que afinal não passava de um esteiro sem saída, onde acabaram por ser todas capturadas pelos nossos navios, depois de as respectivas tripulações terem fugido para terra. Desta forma, toda a grandiosa armada de Arracão ficou nas mãos dos portugueses!
Na ressaca das grandes vitórias que alcançara no mar e nos rios, Paulo do Rego resolveu atacar de imediato a fortaleza de Cosmim, que se rendeu sem luta! Apareceu então Filipe de Brito com algumas embarcações miúdas, que logo organizou uma força destinada a ir pela terra dentro dar caça ao príncipe de Arracão! No dia seguinte, após uma furiosa batalha em que pouco mais de duas centenas de portugueses puseram em debandada milhares de arracões e de pegus, o príncipe foi capturado e levado para Sirião.
Rendeu a campanha, além da captura do príncipe, mais de mil canhões, abundantíssimas munições e mantimentos, cerca de seiscentos navios e embarcações, e milhares de cativos, o que contribuiu para elevar a grande altura o prestígio dos Portugueses, e mais particularmente de Filipe de Brito, nas costas do golfo de Bengala.
Mais tarde, para conseguir a libertação do filho, viu-se o rei de Arracão na necessidade de assinar um tratado de paz com Filipe de Brito em condições muito vantajosas para este.
Saturnino Monteiro
em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa» (Vol.V)
Bibliografia:
Bocarro, António, Década 13, Academia Real das Sciencias, Lisboa,1876, Parte I, p.136
Sousa, Alfredo Botelho de, Subsídios para a História Militar Marítima da Índia, União Gráfica, Lisboa, 1948, Volume II, p. 62
Sousa, Manuel de Faria e, Ásia Portuguesa, Livraria Civilização, Porto, 1947, Volume V, p. 255
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