
Em Maio de 1605, portanto já em plena «monção», chegou inesperadamente a Goa numa galeota o novo vice-rei, D. Martim Afonso de Castro, cuja nau, por ter saído muito tarde de Lisboa, fora obrigada a invernar em Moçambique. Desta forma terminou o desastroso governo de Aires de Saldanha, durante o qual, além do vexame que representou o bloqueio de Goa pela armada de van der Hagen, se perderam as Molucas e a ilha de Barém, no golfo Pérsico.
As ordens que levava D. Martim Afonso de Castro eram as mesmas que levara Aires de Saldanha: organizar uma grande armada de navios de alto bordo e de remo e ir em pessoa ao Sueste Asiático expulsar de lá os Holandeses.
Mas agora a situação era diferente. Despertados pela tremenda bofetada que representara o bloqueio de Goa, os portugueses da Índia tinham-se finalmente apercebido da verdadeira dimensão do perigo que os ameaçava e, pondo de lado a sua antiga arrogância, tinham deitado mãos à tarefa de organizar uma armada capaz de enfrentar as da Holanda. De Ormuz, das praças do Norte e de Cochim estavam a afluir a Goa navios, homens, armas, munições e mantimentos para reforçar a dita armada.
À sua chegada a Goa é provável que D. Martim Afonso de Castro já tenha encontrado em adiantado estado de aprontamento os cinco galeões que Cosme de Lafetá fora buscar ao Norte, bem como os dois que estavam naquela cidade. Durante a «monção» de 1605 é natural que tenham sido acabados de construir, nas praças do Norte ou em Goa, outros dois galeões. Entre Setembro e Outubro chegaram à India, idas do Reino, seis naus e quatro galeões com muita gente, armas e munições. Dessas seis naus, uma foi integrada na armada da Índia, juntamente com os quatro galeões; as restantes cinco regressaram a Lisboa com carga.
Quer dizer que, ao começar o ano de 1606, o Vice-Rei dispunha de uma armada de alto bordo constituída por uma grande nau e treze galeões, a que foram agregadas três naus mercantes e uma caravela, destinadas ao transporte de mantimentos, e uma armada de remo constituída por quatro galés, quatro galeotas e vinte e uma fustas. Era na verdade uma das maiores armadas que jamais se tinha organizado no Estado da Índia! Perante o espectáculo da floresta de mastros que coalhavam a barra de Goa parecia que não haveria poder no mundo capaz de resistir-lhe!
Infelizmente nada sabemos acerca das qualidades náuticas dos galeões que constituíam o núcleo desta armada. Teriam os Portugueses conseguido construir navios mais rápidos e melhores de bolina que os antigos? É possivel que alguma coisa tenha sido feita nesse sentido mas não dispomos de elementos que permitam dar uma resposta cabal à pergunta. A única coisa que se poderá afirmar é que se alguns progressos foram feitos não terão sido suficientes.
Pelas nossas contas, cada navio português devia estar armado, em média, com cerca de vinte canhões de grosso calibre e ter de guarnição cerca de trezentos e trinta homens, dos quais metade seriam marinheiros canarins ou malabares. De qualquer forma, mesmo que enfermasse de um certo número de debilidades de ordem estrutural, a armada de D. Martim Afonso de Castro demonstra cabalmente a falsidade dos mitos de que na Índia Portuguesa faltavam os meios para combater os Holandeses e de que a falta desses meios resultava do abandono a que tinha sido votada pela Corte de Madrid.
Vejamos agora o que se estava passando no campo contrário. A 12 de Maio de 1605 tinha largado da Holanda uma armada de onze naus, sob o comando de Cornelis Matelieff, a quem fora atribuída secretamente a missão de conquistar Malaca. Com este golpe pensavam os directores da Companhia das Índias Orientais cortar definitivamente o acesso dos Portugueses ao riquíssimo comércio com o Sueste Asiático, o Sião, a China e o Japão.

As naus que compunham a armada de Matelieff eram de menor porte que os galeões portugueses que por essa altura estavam a ser concentrados em Goa mas eram seguramente mais rápidas e melhores de bolina que eles e estavam mais fortemente artilhadas. Cada uma delas devia dispor, em média, de trinta peças, o que lhes conferia acentuada vantagem no combate de artilharia, acrescida pelo facto de terem bombardeiros melhores que os nossos. A guarnição de cada nau holandesa devia rondar os cento e vinte e cinco homens, que, ao contrário do que sucedia nos navios portugueses, desempenhavam indistintamente as funções de marinheiros, soldados ou bombardeiros.
Não obstante, iam embarcados na armada de Matelieff duzentos soldados profissionais destinados especialmente às operações em terra.
A 1 de Janeiro de 1606 a armada holandesa alcançou as ilhas Maurícias, onde se encontrou com van der Hagen, que estava de regresso à Holanda com dois navios. Por este soube Matelieff da facilidade com que tinham sido tomadas as fortalezas portuguesas de Amboíno e de Tidore, o que o animou ainda mais à conquista de Malaca, apesar de constar que esta se encontrava bem guarnecida.
Tendo largado das Maurícias a 27 de Janeiro, tomou o rumo do Achém, como era habitual. No entanto, ventos contrários obrigaram-no a arribar às ilhas Nicobar, o que afinal se viria a revelar uma circunstância favorável, uma vez que tal arribada lhe permitiu, posteriormente, entrar no estreito de Malaca sem ser detectado, o que não teria acontecido se tivesse feito escala no Achém.
Nas ilhas Nicobar, Matelieff deu pela primeira vez a conhecer às suas guarnições a natureza das tarefas que lhes cabia executar, o que provocou de imediato grande descontentamento entre os marinheiros, que alegavam que tinham sido contratados para uma viagem comercial e não para uma expedição militar. Apaziguou-os prometendo-lhes o saque de Malaca e fez-se de novo ao mar, a caminho desta cidade, onde fundeou inesperadamente a 30 de Abril de 1606.
Era ainda capitão de Malaca André Furtado de Mendonça, que, na altura, dispunha de menos de uma centena de soldados, já que a maior parte da sua gente andava embarcada nos quatro galeões encarregados de escoltar as naus da China e nos navios de remo que patrulhavam o estreito de Singapura e bloqueavam Jor. Além disso, logo que soubera da perda de Amboíno e de Tidore havia destacado duas galeotas para as Filipinas, a fim de colaborarem na sua recuperação, com o que desfalcara ainda mais a guarnição da praça.
Tendo sido obrigado a fundear muito afastado de terra por causa dos baixos fundos, Matelieff, no próprio dia em que chegou a Malaca, mandou queimar pelas lanchas quatro juncos, um dos quais destinado à China, que deviam estar fundeados junto à ilha das Naus. Mas os tripulantes das lanchas, em vez de fazerem o que lhes tinha sido ordenado, tentaram tomar os juncos à abordagem a fim de se apoderarem da sua carga. Encontrando uma resistência muito superior à que esperavam, acabaram por ser obrigados a retirar depois de terem sofrido três mortos e quinze feridos. Terminado o combate, os juncos içaram as velas e fizeram-se ao mar incólumes. Compreendendo que a conquista de Malaca só lhe seria possível através de um cerco regular, Matelieff mandou pedir a ajuda do rei de Jor e de outros reis da península Malaia, apesar da discordância de alguns dos seus capitães. Já se sabia que era esperada a todo o momento uma grande armada portuguesa vinda da Índia e receavam aqueles ser apanhados por ela com parte dos seus homens em terra. Para prevenir esta possibilidade, Matelieff destacou duas naus para o cabo Rachado, onde ficaram de vigia, mas persistiu na ideia de pôr cerco a Malaca logo que chegassem as forças do rei de Jor e dos seus aliados.
Quando a armada holandesa fundeou diante da cidade, André Furtado apressara-se a mandar prevenir Fernão da Costa, capitão-mor da pequena armada de remo que andava a patrulhar o estreito de Singapura e que seria constituída somente por duas fustas e alguns bantins, onde andariam embarcados cerca de oitenta soldados portugueses. Provavelmente, ter-lhe-á ordenado para regressar de imediato, meter os navios no rio de Muar e tentar alcançar Malaca com o seu pessoal, marchando por terra. Mas Fernão da Costa não procedeu exactamente assim. Tendo acabado de derrotar doze navios do rei de Jor, resolveu seguir directamente para Malaca e furar o bloqueio da armada holandesa. Naturalmente, terá feito a aproximação durante a noite, cosido com a costa, e, ao romper do dia, fazendo força de remos, terá passado diante dos navios holandeses, que, como se disse, estavam fundeados bastante longe de terra, indo meter-se sem sofrer danos nem baixas no rio de Malaca, apesar de intensamente bombardeado por aqueles. Com a sua chegada ficou a guarnição da praça consideravelmente reforçada. Poucos dias depois chegaram também a Malaca, vindos por terra, vinte e cinco soldados, de cinquenta e dois que haviam regressado nas duas galeotas que tinham ido às Filipinas, as quais, possivelmente, se terão recolhido ao rio de Muar quando souberam da presença da armada holandesa. Com mais este reforço, a guarnição de Malaca deverá ter subido para cerca de duzentos portugueses, auxiliados por um pequeno número de aguerridos japoneses e de um milhar de escravos e auxiliares malaios.
A 17 de Maio apareceu a armada do rei de Jor e dos seus aliados, constituída por mais de trezentos navios de remo, em que deviam vir embarcados cerca de vinte mil homens. A 18 teve lugar o desembarque, sendo postos em terra oitocentos holandeses e catorze mil malaios, com os quais os portugueses travaram as primeiras escaramuças, recolhendo-se em seguida à praça. Matelieff rodeou esta com fortes entrincheiramentos e mandou construir catorze baluartes, onde foram instaladas vinte e cinco peças de grosso calibre. Começou então um terrível bombardeamento, que durou perto de três meses a fio, durante o qual os holandeses terão disparado contra os baluartes e as muralhas de Malaca mais de cinquenta mil tiros!
Defenderam-se animosamente os portugueses, ripostando com a sua artilharia à dos holandeses e fazendo por vezes surtidas que os levavam até junto dos entrincheiramentos inimigos. Mas a fome ia apertando cada vez mais os sitiados, causando muitas mortes entre a população civil, que de seis mil almas que era inicialmente terá ficado reduzida a pouco mais de três mil. Era evidente que a praça não poderia resistir muito mais tempo. E os olhos dos sitiados perscrutavam ansiosamente o mar na esperança de avistarem as velas salvadores da armada da Índia. Subitamente, a 15 de Agosto de 1606, os holandeses começaram a reembarcar apressadamente a bagagem e a artilharia que tinham em terra! Não podia haver dúvidas. A armada portuguesa devia estar perto!
É provável que D. Martim Afonso de Castro tenha deixado Goa em finais de Abril e tenha navegado para sul assombrando as costas do Canará e do Malabar com o imenso poder que levava consigo, muito maior que o dos holandeses que por ali tinham passado dois anos antes e que, ao que parecia, iam agora pagar o seu atrevimento. No entanto, a bordo dos navios portugueses o ambiente não era propriamente de euforia. O Vice-Rei mandara içar no seu navio a bandeira do Rei de Espanha, a primeira vez que isso acontecia na Índia, o que provocou a mais viva indignação entre os fidalgos e os soldados portugueses. A partir daí as relações entre D. Martim Afonso de Castro e os seus capitães tornaram-se inamistosas, o que enfraqueceu consideravelmente a capacidade operacional da armada.
A partir do cabo Comorim, as armadas de alto bordo e de remo terão navegado separadas uma da outra, voltando a juntar-se nas proximidades da ilha de Samatra. A 13 de Junho de 1606 a armada portuguesa fundeou aparatosamente na barra do Achém. O rei, à vista de tantos e tão poderosos navios, ficou aterrado e mandou logo dizer a D. Martim que se desejasse a fortaleza que defendia o porto lha entregaria imediatamente!
Nessa altura apresentavam-se ao Vice-Rei duas linhas de acção igualmente promissoras: a primeira consistia em aceitar a oferta do rei do Achém e procurar estabelecer com ele um tratado de amizade e de comércio; a segunda era desembarcar de imediato à viva força e arrasar a cidade de Achém a fim de mostrar aos reis daquelas partes os inconvenientes que lhes poderiam advir de comerciar com os Holandeses. Mas D. Martim não fez uma coisa nem outra. Desprezando os conselhos dos capitães que insistiam para que aceitasse a fortaleza ou para que desembarcasse de imediato, embrenhou-se em prolongadas negociações com o rei do Achém, exigindo a este que lhe entregasse uma elevada quantia para custear as despesas que fizera com a armada. Mas o rei, já refeito do primeiro choque e sentindo a indecisão do Vice-Rei, apressou-se a fortificar a cidade com a ajuda dos feitores holandeses que lá residiam e a convocar as tropas do interior, ao mesmo tempo que ia entretendo D. Martim com contrapropostas e embustes.
Ao fim de treze dias de troca de mensagens sem qualquer resultado palpável, o Vice-Rei foi obrigado a reconhecer que já não tinha outra alternativa senão combater. E deu ordem de ataque. O desembarque teve lugar a 29 de Junho e, apesar de os achéns estarem muito melhor preparados do que aquando da chegada da nossa armada, foram levados de vencida pelos portugueses até aos seus entrincheiramentos principais. Ao cair da noite suspenderam estes o seu avanço na intenção de o renovarem no dia seguinte. Mas, entretanto, chegara à armada um bantim ido de Malaca com a notícia de que a cidade se encontrava cercada por uma forte armada holandesa e pelas tropas do rei de Jor e de outros reis, correndo o risco de perder-se.
Perante estas informações, D. Martim Afonso de Castro, talvez um tanto precipitadamente, deu ordem para reembarcar imediatamente, decisão que foi muito mal recebida pelos capitães e soldados que se encontravam em terra e que já estavam a contar com um valioso saque. Em consequência disso, o regresso aos navios foi feito de má vontade e vagarosamente, do que resultou terem acabado por morrer afogados cerca de cento e cinquenta homens. Desta forma, a primeira fase da campanha do Vice-Rei, que de início se apresentara tão risonha, terminou por um fracasso completo: as relações com o Achém ficaram piores que antes; perderam-se inutilmente duas semanas e um número considerável de soldados. Possivelmente ao cair da noite de 30 de Junho, a armada portuguesa suspendeu e tomou o rumo de Malaca. Mas as condições atmosféricas não lhe foram propícias. Fortes temporais e ventos contrários atrasaram consideravelmente a sua marcha e fizeram desgarrar parte dos navios de remo, alguns dos quais se terão mesmo afundado. Com tudo isto, só a 16 de Agosto de 1606 é que D. Martim Afonso de Castro conseguiu avistar o cabo Rachado, ao largo do qual se encontravam as duas naus holandesas de vigia. Poucos dias antes, possivelmente a 14, Matelieff havia sido avisado da aproximação da nossa armada por uma embarcação ligeira que lhe foi enviada pelos feitores holandeses que se encontravam no Achém. A 15, dera ordem para se iniciar o reembarque, o qual se completou no dia seguinte. Durante o cerco terão os holandeses perdido, em resultado dos combates e de doença, cerca de cento e oitenta homens. O rei de Jor e os seus aliados, que não haviam sido avisados por Matelieff do levantamento do cerco, logo que viram os holandeses começarem a dirigir-se para os seus navios, apressaram-se a seguir-lhes o exemplo. Mais uma vez Malaca fora salva no último minuto. Mas a inquietação dos defensores da praça ainda não terminara, pois bem sabiam que a sua sorte continuava dependente do resultado da grande batalha naval que ia ter lugar a seguir.
Quando foram avistadas as duas naus holandesas que estavam de vigia ao largo do cabo Rachado, D. Nuno Álvares Pereira, capitão-mor dos nossos navios de remo, pediu licença ao Vice-Rei para as ir atacar. Mas este recusou, a nosso ver bem, por não se querer arriscar a iniciar a batalha com um desaire, já que devia saber que os navios de remo não eram os navios mais indicados para dar combate a naus europeias, mesmo quando em grande superioridade numérica.

Durante a noite de 16 para 17, provavelmente com ventos fracos e variando de direcção, as duas armadas, continuaram a aproximar-se uma da outra. No dia 17, ao amanhecer, o vento devia estar a soprar fraco de SE, o que dava aos holandeses a vantagem do barlavento. A armada portuguesa, cingida ao vento, fez-se na volta do mar, em direcção à ilha de Samatra, com amuras a BB. A holandesa, navegando com vento para ré do través, terá governado a rumo de colisão com ela.
É provável que os navios de alto bordo de ambas as armadas fossem formados em coluna simples com o chefe à testa, levando a portuguesa os navios de remo por EB.
Sendo o vento fraco, só pelas três da tarde as duas armadas chegaram ao alcance de tiro, sendo a portuguesa a primeira a abrir fogo. Mais experientes neste tipo de combate, os holandeses deixaram encurtar a distância e só depois responderam. E até ao cair da noite prosseguiu o duelo de artilharia com muito ruído e fumaça mas com pouco efeito. Ao escurecer, começando as sondas a acusar menos de seis braças, as duas armadas fundearam à vista uma da outra mas fora do alcance de tiro eficaz.
Ao amanhecer do dia 18 o vento começou a soprar de NW, sendo também dessa direcção a corrente de maré. Aproveitando a circunstância de ter o vento e a corrente a seu favor, D. Martim Afonso de Castro deu ordem de suspender e ir abordar os navios inimigos. Atentos, os holandeses suspenderam também e afastaram-se. Mas houve uma das suas naus, a Nassau, que por qualquer razão fortuita se deixou ficar para trás. Apercebendo-se da situação, o galeão português Santa Cruz, de que era capitão Sebastião Soares, foi sobre ela e aferrou-a, inundando-a com uma avalanche de panelas de pólvora e de lanças de fogo.

Vendo o perigo que corria a Nassau, Matelieff, que se encontrava embarcado na Orange, tentou virar em roda para a ir socorrer, o mesmo fazendo a Middelburg. Porém, durante a manobra as duas naus abalroaram, decorrendo algum tempo até que se conseguissem libertar uma da outra. Aproveitando a confusão que reinava no campo inimigo, a N.ª S.ª da Concepção, uma grande nau de que era capitão D. Manuel de Mascarenhas e em que ia embarcado o vice-rei D. Martim Afonso de Castro, foi atracar à Nassau pelo outro bordo. Vendo-se perdidos, os tripulantes da nau holandesa, que ardia furiosamente, saltaram para a lancha que levavam pela popa e puseram-se em fuga. Receando que o incêndio da Nassou se propagasse aos seus navios, os capitães do Santa Cruz e da N.ª S.ª da Concepção pediram a ajuda dos navios de remo e afastaram-se, deixando-a em chamas.
Entretanto, o galeão São Salvador, de que era capitão Álvaro de Carvalho, conseguira aferrar a Middelburg. Mas fora logo aferrado pela Orange de Matelieff pelo outro bordo. Acorreu outro galeão português, o N.ª S.ª das Mercês (?), de que era capitão D. Henrique de Noronha, que, por sua vez, aferrou a Orange pelo bordo que estava livre! Travou-se então um combate medonho, com os canhões e a arcabuzaria disparando à queima-roupa, acompanhados, por parte dos portugueses, de lançamentos contínuos de panelas de pólvora e de lanças de fogo com que pretendiam incendiar os navios holandeses.
Só que tanto umas como outras eram armas de dois gumes, uma vez que o incêndio provocado no navio alvejado se podia propagar com grande facilidade ao navio lançador.

Ardendo furiosamente como archotes, as velas dos quatro navios que se encontravam atracados uns aos outros ajudavam a espalhar as chamas pelas enxárcias e pela mastreação de todos eles sem que as respectivas guarnições, empenhadas no combate, tivessem a menor possibilidade de acudir ao fogo. Veio aumentar o pandemónio o galeão de Duarte Guerra, que se aproximou do N.ª S.ª das Mercês na intenção de lhe passar um cabo para o afastar da Orange que estava a arder. Mas, ao que parece, o vento teria, entretanto, rondado para SE, o que fez gorar a manobra de Duarte Guerra, que ficou atravessado nas proas dos outros quatro navios, sendo, poucos minutos depois, aferrado por BB pela Mauritius! Nesta altura a confusão e a fúria dos combatentes atingiu o auge. Com grande presença de espírito, Matelieff mandou largar o ferro e cortar as amarras que o prendiam ao São Salvador a fim de se libertar deste e evitar descair para cima da armada portuguesa se esta se lembrasse de fundear. Não obstante, continuou a ter atracado a si, por BB, o N.ª S.ª das Mercês. Enquanto isto se passava, a Mauritius, vendo que o galeão de Duarte Guerra tinha pegado fogo, cortou as amarras que o ligavam a ele e afastou-se.

Continuando enganchados uns nos outros, este galeão, a Middelburg e o São Salvador, ardendo furiosamente, continuaram a abater, completamente desgovernados ao sabor do vento. O combate entre eles tinha cessado e a única coisa que agora preocupava as respectivas guarnições era alcançar as lanchas e afastarem-se dos navios em chamas. Teve pouca sorte a lancha do São Salvador, que, ao passar pela popa da Orange, foi alvejada pela arcabuzaria desta, tendo perdido a maior parte da gente que transportava, incluindo o capitão Álvaro de Carvalho.
Nesta altura, somente o N.ª S.ª das Mercês e a Orange, aferrados um ao outro e ambos em chamas, continuavam a combater. Perante a ameaça de o incêndio consumir a curto prazo os dois navios, Matelieff propôs a D. Henrique de Noronha uma trégua para o tentarem extinguir. Concordou este e deu ordem de cessar fogo, o que permitiu a ambas as guarnições dominarem as chamas. Mas, como a Orange estava fundeada e o vento continuava a soprar de SE, vários navios holandeses iam-se aproximando dela enquanto os portugueses se afastavam cada vez mais, o que tornava a posição de D. Henrique crítica em extremo. Mas Mateiieff não se quis aproveitar de uma situação que resultara de uma trégua por ele proposta exclusivamente com o fim de salvar o seu navio. E, magnanimamente, deixou que D. Henrique desaferrasse e se afastasse a reboque das nossas galés. Para responder ao cavalheirismo do adversário, D. Henrique declarou a Matelieff que, mesmo que o voltasse a encontrar, não mais o combateria! Quem não gostou do sucedido foi o Vice-Rei, que preferia, com razão, que o N.ª S.ª das Mercês se tivesse deixado queimar juntamente com o navio-almirante inimigo. Ou porque tivesse sido demitido ou porque tivesse pedido a demissão, D. Henrique de Noronha foi substituído no cargo de capitão do N.ª S.ª das Mercês por Pedro Mascarenhas.
Neste combate, um dos mais renhidos que alguma vez se terá travado entre navios de alto bordo, os portugueses perderam dois galeões e os holandeses duas naus, todos eles por incêndio, o que mostra claramente que, ao fim e ao cabo, as panelas de pólvora e as lanças de fogo eram muito mais perigosas do que a artilharia, embora com o grave inconveniente de serem uma arma cega que não distinguia os amigos dos inimigos. Os holandeses terão tido cerca de uma centena de mortos e muitos feridos; os portugueses devem ter tido bastantes mais.
Depois de o N.ª S.ª das Mercês se ter separado da Orange, os navios holandeses fundearam, o mesmo fazendo os portugueses. O rei de Jor e os outros reis malaios que se tinham conservado à distância, observando e aguardando o desfecho da batalha, logo que se aperceberam que ela tinha terminado por um impasse, entenderam que nada mais tinham ali a fazer e, prudentemente, bateram em retirada para o estreito de Singapura.
Durante todo o dia 19 as duas armadas permaneceram fundeadas, reparando as avarias sofridas nos combates do dia anterior e tratando dos feridos. A 20, de manhã, tendo o vento a seu favor, a armada holandesa suspendeu e tentou aproximar-se da nossa, que igualmente se deve ter posto sob vela para a receber. Mas o vento caiu e ambas tiveram de voltar a fundear antes que chegassem ao alcance de tiro. No dia 21 à tarde, novamente com vento a seu favor, os holandeses fizeram uma segunda tentativa para se aproximar da armada portuguesa na intenção de travar com ela um duelo de artilharia à distância em que desfrutavam de nítida vantagem. Ao que parece, as duas armadas chegaram ao alcance de tiro e trocaram entre si algumas salvas, provavelmente navegando a rumos paralelos, no bordo do mar, com amuras a EB. Tal como sucedera no dia anterior, o vento voltou a cair, o que deve ter obrigado todos os navios a fazerem-se no bordo da terra para poderem fundear.
A 22 foi a vez de a armada portuguesa ter o vento a seu favor, o que lhe permitiu ir sobre a holandesa na intenção de travar com ela novo combate à abordagem. Mas tal tipo de combate não agradava obviamente a Matelieff. Dispondo de navios mais ligeiros e melhores de bolina, não teve qualquer dificuldade em conservar-se à distância dos nossos. Após uma breve troca de tiros, o vento caiu ou mudou de direcção, acabando as duas armadas, mais uma vez, por fundear. No dia 23, continuando o vento a ser muito fraco e de várias direcções, teve lugar nova tentativa de aproximação, registando-se mais uma troca de tiros à distância sem consequências.
Finalmente, a 24, o vento estabilizou em NW moderado, o que permitiu à armada portuguesa lançar-se deliberadamente ao ataque da holandesa, obrigando Matelieff a arribar francamente e a bater em retirada para SE. Ao anoitecer, o vento voltou a cair, permitindo ao almirante holandês reunir conselho. Nele foi constatado que na maior parte dos navios havia já muito poucas munições e que tinham um elevado número de doentes e feridos, o que diminuía consideravelmente a sua capacidade operacional. Nestas condições foi resolvido desistir por então de dar batalha à armada portuguesa e seguir para Jor a fim de permitir a recuperação daqueles. A 25 de Agosto, ao amanhecer, puderam os portugueses constatar que as naus holandesas já se encontravam bastante afastadas, navegando para SE, rumo ao estreito de Singapura. A batalha terminara com uma vitória táctica dos Portugueses, já que o inimigo abandonou o campo de luta, e também com uma vitória estratégica, uma vez que conduziu à libertação definitiva de Malaca de um perigoso cerco. No entanto, os seus resultados ficaram muito aquém do que poderiam ter sido se os Portugueses dispusessem de navios tão rápidos e tão bons de bolina como os holandeses que lhes tivessem permitido alcançá-los e queimá-los a todos, tal como fizeram à Nassau e à Middelburg, mesmo que para isso tivesse sido necessário perder igual número de navios portugueses. É óbvio que a destruição da armada de Matelieff conduziria inevitavelmente à subsequente destruição das feitorias que os Holandeses tinham no Sueste Asiático e, porventura, à sua expulsão definitiva do Oriente. Mas a má qualidade dos navios portugueses em relação aos holandeses não permitiu que isso acontecesse. E assim se perdeu a última grande oportunidade que tivemos para continuarmos senhores absolutos dos mares do Oriente.
Saturnino Monteiro
em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa» (Vol.V)
Bibliografia:
Queiroz, Padre Fernão de, Vida do Venerável Irmão Pedro de Basto, Oficina de Miguel Deslandes, Lisboa, 1689, p. 331
Sousa, Manuel de Faria e, Ásia Portuguesa, Livraria Civilização, Porto, 1947, Vol. V, p. 269
Sousa, Botelho de, Subsídios para a História Militar Marítima da Índia, Ministério da Marinha, Lisboa, 1948, Vol. II, p. 30
Penrose, Boies, Sea Fights in East Indies, Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, 1931, p.55
Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa
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