
Com a chegada a Ormuz, a 20 de Junho de 1620, da armada de Rui Freire de Andrada, chegara também para a Índia portuguesa a hora da verdade.
Finalmente, fora adoptada uma estratégia global capaz de resolver de uma vez por todas os inúmeros problemas com que se vinha debatendo o nosso império do Oriente. A base dessa estratégia consistia na criação na Índia de uma armada permanente de navios de alto bordo com que pudéssemos recuperar o domínio do mar que nos havia sido arrebatado pelos Holandeses e pelos Ingleses e, a partir daí, impedir a navegação dos seus navios nos mares do Oriente e levar à ruína as respectivas Companhias. Entretanto, procurar-se-ia, por todas as formas, contemporizar com os reis locais a fim de poder concentrar todas as forças disponíveis na luta contra os inimigos europeus.
Era na realidade a estratégia que se impunha nas circunstâncias vigentes que, no entanto, viria a fracassar por duas razões principais: a falta de chefes políticos e militares com mentalidade naval, tanto no Reino como na Índia, e a má qualidade dos nossos navios e dos nossos marinheiros.
Uma vez que os recursos existentes já não eram ilimitados como nos tempos antigos, teria sido necessário dar prioridade absoluta à constituição da armada de alto bordo, sacrificando deliberadamente a política de expansão territorial iniciada no reinado de D. Sebastião. Fortalezas com pouco ou nenhum valor económico e militar, como eram Damão, Chaul, Onor, Mangalor, Barçalor, Cranganor, Coulão e Jafnapatão, deveriam, a nosso ver, ter sido abandonadas. Igualmente deveria ter sido posta de lado a conquista territorial de Ceilão. A conservação das fortalezas de Manar, Negumbo, Colombo, Galle, Batecalou e Trinquemale, apoiadas por pequenas armadas de fustas, teria sido suficiente para assegurar com pouca despesa o controlo das riquezas da ilha. Desta forma se poderiam ter economizado para cima de mil soldados e evitado inúmeras preocupações e frequentes distracções em relação ao objectivo principal.
Infelizmente, não surgiu, nem no Reino nem na Índia, nenhum chefe com a coragem moral de um D. João III, capaz de tomar qualquer das medidas acima referidas. É certo que o abandono de algumas das fortalezas da Índia acarretaria inevitavelmente, a curto prazo, uma considerável perda de prestígio perante os reis locais; mas essa perda seria amplamente compensada pelo prestígio que resultaria de qualquer vitória decisiva que conseguíssemos alcançar no mar contra os Ingleses ou contra os Holandeses.
Quanto ao velho problema da má qualidade dos nossos navios e dos nossos marinheiros, afinal o cerne da questão, que se vinha arrastando desde a Invencível Armada, haveria que passar a construir galeões e naus mais pequenos e mais rápidos, ou comprar mais urcas aos alemães, e formar mais e melhores marinheiros, ou contratar estrangeiros, por exemplo espanhóis ou italianos.
Como prova da má qualidade dos nossos navios e dos nossos marinheiros durante o período que estarmos considerando, poderá dizer-se que, nos anos críticos de 1619 a 1622, de dezasseis naus da carreira da Índia que largaram de Lisboa, apenas cinco regressaram a salvamento. Das restantes onze, seis arribaram, três naufragaram, uma perdeu-se em combate e outra ficou na Índia. É claro que não vindo do Oriente mercadorias em quantidade não era possível ao governo da metrópole obter os meios financeiros necessários para a organização de grandes armadas de transporte ou de guerra. No entanto, apesar de todas as dificuldades de ordem financeira, essas armadas fizeram-se. No mesmo período, além das naus da carreira e de diversos patachos de aviso, foram mandados para a Índia onze galeões ou urcas, destinados exclusivamente à guerra, o que representa um esforço considerável e um interesse notório da parte da Metrópole, pelo império do Oriente.
Tudo isto é indispensável ter em conta para se poder entender o desenrolar das importantes acções navais que tiveram lugar após a chegada da armada de Rui Freire de Andrada a Ormuz e que tão grande influência viriam a exercer no futuro do Estado da Índia.
Uma das coisas que mais preocupava os governantes do Reino era a segurança da fortaleza de Ormuz, um dos pilares da economia do nosso império do Oriente. O principal ponto fraco dessa fortaleza era a ausência total de água doce na ilha onde se situava, a qual se ia buscar ao bandel do Comorão ou à ilha de Queixome, bem como a lenha e os mantimentos necessários à vida da sua guarnição e da população da cidade.
É certo que na ilha de Lareca, a sul de Ormuz, também havia água, mas aquela ficava relativamente longe e durante uma grande parte do ano o vento não dava para fazer a viagem de ida e volta à vela.
Como é evidente, desde que os Persas se tinham apoderado do bandel do Comorão (1614) e se tinham começado a instalar na ilha de Queixome (1618), Ormuz ficara à sua mercê. A solução que os governantes de Lisboa encontraram para resolver o problema foi a construção de uma fortaleza em Queixome, abrangendo alguns dos poços de água, o que garantiria em definitivo a segurança de Ormuz... desde que continuássemos a conservar o domínio do mar na zona. Na realidade, era a única coisa a fazer, a menos que se optasse por arrasar a fortaleza e a cidade e transferir as respectivas guarnição e população para Mascate, solução que teoricamente talvez fosse mais vantajosa, mas que na altura não podia passar pela cabeça de ninguém.
Pelas razões que acabam de ser referidas, havia sido dada ordem a Rui Freire, quando partira de Lisboa, para construir uma fortaleza em Queixome, desde que não houvesse objecção por parte do Vice-Rei. Por isso, logo que chegou a Ormuz, preparou-se aquele para dar início à sua edificação, no que foi contrariado pelo capitão da praça, receoso de que isso pudesse servir de pretexto ao Xá para romper a guerra contra nós. Os Persas estavam continuando a fornecer água a Ormuz e mais valia não mexer com eles. Por fim, foi decidido submeter o assunto à decisão do Vice-Rei.
Entretanto, a armada de Rui Freire, depois de reorganizada, iria dar combate às naus inglesas que todos os anos, em finais de Dezembro, costumavam ir a Jasques, onde os Ingleses tinham uma feitoria, embarcar sedas.
Para a ida a Jasques, resolveu Rui Freire trocar a urca Santo António por um patacho (o São Lourenço) que se encontrava em Ormuz, por ser um navio maior e de construção mais robusta. A nosso ver, tratou-se de uma decisão infeliz, que demonstra a falta de sensibilidade de Rui Freire de Andrada para a problemática da guerra naval. O que lhe devia interessar não eram navios fortes, já que dispunha de dois fortíssimos galeões, mas sim de navios rápidos que pudessem alcançar as naus inglesas e causar-lhes avarias no aparelho capazes de lhes reduzir a velocidade e assim permitir que fossem aferradas pelos galeões. Ao fazer a troca da urca pelo patacho, Rui Freire, em vez de dois navios mais rápidos que as naus inglesas ficou com um, o que reduziu consideravelmente as opções tácticas de que ficou dispondo.
Depois da troca que acabamos de referir, a armada portuguesa ficou constituída pelo galeão São Pedro, armado com sessenta e quatro canhões, pelo galeão São Martinho, armado com quarenta e oito, pelo patacho São Lourenço, armado com vinte e quatro, e pela urca Conceição, armada com vinte e dois. Aos navios de alto bordo foram ainda agregadas três galeotas e cinco terranquins. O número de portugueses embarcados na armada rondava os mil.
Conforme já tivemos ocasião de dizer, havia por essa altura em Goa quatro galeões, provavelmente quatro urcas, e um patacho, mas faltavam os artilheiros e marinheiros europeus necessários para os guarnecer. De qualquer forma, deveria o conde de Redondo ter feito os possíveis e os impossíveis para, no fim da «monção» de 1620, ter enviado a Rui Freire de Andrada, pelo menos, uma urca e o galeão Todos os Santos, que em 1615, ao largo de Damão, havia provado ser mais rápido que as naus inglesas. Mas não o fez, nem ele, que faleceu a 10 de Novembro de 1620, nem o seu sucessor Fernão de Albuquerque. O facto de, no momento crucial da campanha, a armada de Rui Freire de Andrada não ter sido reforçada com dois ou três navios rápidos enviados de Goa, constitui, quanto a nós, o primeiro de uma longa série de erros clamorosos dos nossos chefes políticos e militares que haveriam de levar ao desmoronamento do império português do Oriente.

Não se deve estranhar que Rui Freire não tenha atacado a feitoria inglesa. Encontrava-se esta em território persa e no local devia haver tropas persas. Um desembarque em Jasques equivaleria a uma declaração de guerra à Pérsia, que era o que menos convinha aos Portugueses antes de terem conseguido erguer uma fortaleza em Queixome. Aliás, Rui Freire trazia ordens taxativas de Lisboa para não fazer guerra aos Persas mas somente aos Ingleses.
Rezam as crónicas que durante o tempo que esteve fundeado em Jasques mandou aquele alguns soldados a terra para, a pretexto de comprar mantimentos, colher informações sobre a vinda das naus da Companhia inglesa. Por esses soldados, enviou-lhe o feitor desta um valioso barrete persa acompanhado por uma carta em que dizia: «Este barrete peço a Vossa Senhoria seja servido trazer o dia em que se encontrar com a nossa armada porque conheça o meu geral o valoroso capitão com quem peleja!» Agradeceu Rui Freire a oferta, que retribuiu enviando ao feitor inglês um chapéu de Ceilão de muito preço acompanhado da seguinte missiva: «Estimo a mercê que Vossa Senhoria me fez e aceito o barrete com a condição que o general por quem espero neste porto, quando nos encontrarmos, venha com esse chapéu!»
A 16 de Dezembro (1620), ao amanhecer, foram avistadas, muito ao largo, três velas. Tratava-se de duas naus inglesas que vinham a Jasques embarcar seda, trazendo em sua companhia um patacho português que ia de Diu para Ormuz com roupas e que, no caminho, haviam capturado.
Pertenciam as ditas naus a uma armada de quatro com que o almirante inglês Andrew Shilling tinha aparecido em Outubro na costa do Canará em busca de pimenta. Não tendo conseguido que alguém lha vendesse, com receio de represálias dos Portugueses, fora depois cruzar para as proximidades de Goa, na intenção de capturar algumas naus do Reino que costumavam chegar à costa indiana desgarradas umas das outras. Mas, nesse ano, como já foi dito, não chegou nenhuma à Índia. Desiludido, Shilling resolvera destacar duas das suas para Jasques, a fim de trazerem de lá a seda, e seguir com as outras duas para Surrate, onde se encontrava instalada a feitoria principal da Companhia das Índias.
Logo que foram avistados os navios ingleses, Rui Freire mandou suspender e foi ao seu encontro.
Será importante dizer que em Dezembro e Janeiro, naquela região, o vento sopra geralmente de SE desde o meio da tarde até meio da noite e de NW desde a madrugada até cerca do meio-dia.
Logo que se aperceberam de que em Jasques se encontrava uma armada portuguesa, as duas naus inglesas inverteram o rumo e, aproveitando o terral, puseram-se a caminho de Surrate a fim de se juntarem ao resto da armada. É natural que os nossos navios tenham levado cerca de uma hora a suspender e a largar o pano pelo que, ao iniciar-se a perseguição, deviam aquelas desfrutar de um avanço de dez a doze milhas.

Dos quatro navios de alto bordo de Rui Freire só a urca Conceição tinha maior velocidade que as naus inglesas. O patacho São Lourenço andaria, provavelmente, tanto como elas. Os dois galeões andariam seguramente menos. Por isso, as distâncias entre eles iam progressivamente aumentando, sendo a urca o único que conseguia ir ganhando terreno aos fugitivos.
Pouco depois do meio-dia o vento deve ter caído por completo, ficando todos os navios encalmados, a pairar, até meio da tarde. Por volta das três horas, tendo começado a viração de SE, fizeram-se todos no bordo do mar com amuras a BB. Durante a noite é natural que os portugueses tenham conservado os faróis acesos com o fim de mostrar a sua posição uns aos outros. Um pouco antes da meia-noite deve-se ter extinguido a viração, voltando todos os navios a ficar imobilizados.
Dado que na escuridão é muito difícil avaliar distâncias, deve ter parecido aos ingleses que um dos nossos navios (a urca) já se encontrava muito perto deles, pelo que resolveram, para ficarem com maior liberdade de acção, recolher a tripulação de presa que tinham posto no patacho português, que haviam capturado, e abandoná-lo.
Pelas três horas da madrugada, começando a soprar o terral, ingleses e portugueses puseram-se de novo em movimento rumo a leste. Cerca das cinco, a Conceição avistou um vulto, sobre o qual, de imediato, abriu fogo. Responderam-lhe de lá com gritos em português! Era o patacho que os ingleses tinham abandonado!
Ao que parece, a urca conservou-se junto dele até ao romper do dia, aguardando pela chegada dos restantes navios da armada. Quando começou a clarear, as naus inglesas já não se avistavam. Nessa tarde, com a viração, os portugueses regressaram a Jasques, satisfeitos por terem conseguido recuperar o patacho e posto em fuga os ingleses.
A verdade é que tinham perdido uma oportunidade única para obter uma vitória decisiva sobre aqueles e recuperar o domínio do mar da Índia. Se a nossa armada incluísse o galeão Todos os Santos e três urcas, como poderia muito bem ter acontecido se o conde de Redondo e Rui Freire tivessem agido com um pouco mais de discernimento, e se esses navios tivessem continuado a perseguir as naus inglesas durante a manhã de 17 de Dezembro, acabariam inevitavelmente por alcançá-las. E, sendo quatro contra dois, é muito provável que as tivessem tomado ou destruído. Mas, mesmo que o não tivessem conseguido nesse dia, tê-lo-iam fatalmente conseguido no dia seguinte, após a chegada dos outros dois galeões. Se, em seguida, a nossa armada se tivesse dirigido para Surrate, como era lógico, teria tido a sorte de encontrar as outras duas naus da armada de Shilling que vinham em sentido oposto, as quais, pelas razões atrás apontadas, também não podiam deixar de ser tomadas ou destruídas. Desde que tivessem conseguido capturar uma
nau inglesa, os Portugueses poderiam, tomando-a como modelo, passar a construir na Índia naus iguais às dos Ingleses, isto é, tão rápidas e bolineiras como elas e com um calado que lhes permitisse entrar no «poço» de Surrate. A partir daí, uma vez que a Companhia das Índias, apesar de tudo, era francamente inferior ao Estado da Índia tanto em potencial económico como militar, a sua ruína seria apenas uma questão de tempo.
Ao fazer estas considerações, pretendemos apenas chamar a atenção do leitor para o facto de que a queda do nosso império do Oriente não era, na época, uma fatalidade inevitável, como a maior parte das pessoas pensa, e que não teve lugar nem pelo desinteresse do governo da Metrópole, nem por escassez de meios financeiros, nem por falta de meios navais, mas sim pela má utilização destes últimos, especialmente por parte do conde de Redondo e de Rui Freire de Andrada.
Oito dias depois do primeiro encontro com os ingleses, portanto a 25 de Dezembro de 1620, chegou a Jasques o terranquim que havia sido destacado para Goadel com a informação de que atrás dele vinham quatro naus inglesas acompanhadas por uma portuguesa que tinham capturado. O capitão do terranquim, envergando trajes árabes, passara muito perto dos navios ingleses e pudera contar os seus canhões: o maior (London), 66; os três restantes (Hort, Eagle e Roebuck), respectivamente, 58, 46 e 36. No total, a armada inglesa dispunha de 206 canhões contra 158 da portuguesa.
Ao chegar a Surrate, Shilling fora informado pelo feitor inglês ali residente de que em Ormuz se encontrava uma armada portuguesa constituída por quatro navios de alto bordo e que constava que o seu destino era Jasques. Receando pela sorte das duas naus que Shilling havia destacado para lá, o mesmo feitor ordenara-lhe que fosse imediatamente em seu socorro. Assim fez aquele e, depois de ter capturado uma pequena nau portuguesa com cavalos, teve a satisfação de encontrar, ao largo de Goadel, as naus que tinha destacado, as quais vinham a navegar em sentido oposto.
Tendo a sua armada novamente reunida e estando convencido de que, sendo igual o número de navios, não teria dificuldade de maior em vencer os portugueses, Shilling decidiu continuar a caminho de Jasques a fim de lhes dar combate.
Quando a armada inglesa ali chegou, em 25 de Dezembro, deviam ser cinco ou seis horas da tarde. Ao serem avistados os navios ingleses, Rui Freire de Andrada suspendeu e foi imediatamente ao seu encontro, à bolina cerrada com amuras a BB. À frente seguia o São Pedro; nas águas deste, o patacho São Lourenço; depois, a urca Conceição; por fim, o galeão São Martinho.
Estando ambas as armadas na disposição de combater, é natural que ao anoitecer tenham acendido faróis, o que permitiu que continuassem a aproximar-se uma da outra até cerca das nove da noite. Nessa altura é provável que a armada inglesa tenha cortado a proa à nossa, passando para sotavento. Trocaram-se então entre ambas alguns tiros à distância sem consequências.
A intenção de Shilling ao efectuar esta manobra seria, por certo, garantir o barlavento quando, a partir da madrugada, começasse a soprar o terral.
Vendo afastar-se os ingleses, os portugueses arribaram e foram no seu encalço, mas, como tinham menor velocidade, aqueles foram-se distanciando. Quando se extinguiu a viração Rui Freire deu ordens para fundear. Pela sua parte, os ingleses devem ter preferido ficar sob vela, a pairar durante o resto da noite, para evitar fundear em cerca de vinte braças, o que tornaria muito morosa a faina de suspender no dia seguinte ou em caso de ataque, durante a noite, por parte dos navios de remo portugueses.

No dia 26 de Dezembro, logo que começou a clarear, a nossa armada suspendeu e começou a navegar à bolina cerrada no bordo do mar, desta vez com amuras de EB. E logo vieram sobre ela os ingleses, a rumo convergente e à bolina folgada, igualmente com amuras a EB.
Pelas sete da manhã, estando as duas capitânias ao lado uma da outra, prontas para iniciar o combate, o capitão-mor português e o almirante inglês cumprimentaram-se. Passemos a palavra ao cronista: «Estando assim a menos de tiro de mosquete as capitânias à vista, ferradas as velas grandes e estingadas as mezenas e cevadeiras, fazendo sua grandeza no mar (como) duas grandes ilhas, apareceu o capitão-mor Rui Freire no meio do convés, vestido de chamalote encarnado, com o barrete na cabeça que o feitor dos ingleses lhe mandou; trazia-lhe um pajem a espada e (a) rodela e outro um frasco de vinho e uma taça. Chegou logo o general inglês a meio da xareta da sua capitânia, vestido de grã vermelha, com o chapéu que o capitão-mor lhe tinha mandado, o qual (lhe) mandou aquela noite o seu feitor. E estando ambos à vista se falaram ambos de chapéu (tiraram o chapéu um ao outro) e tomando o inglês um frasco, lançou vinho em uma taça e, acenando para o capitão-mor, lhe disse que brindava à sua saúde; respondeu-lhe o capitão-mor do mesmo modo e com a taça na mão lhe disse que amainasse por el-Rei de Portugal; tornou o inglês que amainasse por el-Rei de Inglaterra, e dando ambos com as taças no mar, um para a banda do outro!»
Terminadas as cortesias iniciou-se o combate, com o ribombar medonho de mais de uma centena de canhões disparando ao mesmo tempo. Por sugestão do condestável do São Pedro, os navios portugueses, de início, utilizaram somente as peças de menor calibre a fim de induzirem os ingleses a reduzir a distância, o que eles realmente fizeram. Nessa altura entraram em acção as nossas peças grossas carregadas com pelouros enramados de grilhas e de picão, isto é, pelouros duplos ligados entre si por meio de barras articuladas ou cadeias, especialmente destinados a provocar avarias na mastreação e no aparelho, e pelouros com pontas aceradas, especialmente destinados a abalar o costado do inimigo. Os ingleses, por seu lado, aproveitando a circunstância de se encontrarem a barlavento, utilizaram grande quantidade de lanças de fogo e balas incendiárias com o propósito de provocar incêndios nos nossos navios.
Durante cerca de quatro horas prosseguiu o combate com grande determinação de parte a parte, com avarias e baixas repartidas por ambos os contendores.
Por volta das onze horas, começando o vento a enfraquecer, é provável que Shilling tenha mandado largar mais pano e se tenha adiantado à nossa armada, cortando-lhe novamente a proa e passando para sotavento, antes de o vento ter caído por completo.
Durante o período em que estiveram encalmadas e fora do alcance de tiro uma da outra, devem as duas armadas ter aproveitado para reparar as avarias e tratar dos feridos. Vinda a viração, recomeçou o combate nos moldes anteriores, desta vez no bordo de terra, com amuras a EB, e os navios ingleses, como sempre, a barlavento dos nossos.
Por fim, ao que parece, o maior calibre dos seus canhões e a melhor qualidade dos pelouros usados pelos portugueses acabou por preponderar. Pelas sete da tarde, encontrando-se os navios ingleses muito destroçados, meteram à trinca (bolina cerrada) e começaram a aumentar gradualmente a distância em relação aos nossos, pondo termo ao combate. Pela sua parte, os portugueses, que também deviam ter a mastreação e o aparelho em muito mau estado, continuaram ao mesmo rumo, acabando por fundear logo que acharam fundo de vinte braças. Pouco depois os ingleses fizeram o mesmo, ficando a cerca de uma milha e exactamente a barlavento dos portugueses.
Ao que parece, sem ter recebido qualquer ordem de Shilling nesse sentido, o capitão inglês que tinha à sua guarda a nau portuguesa capturada deu ordem para que fosse levada para mais perto da nossa armada, incendiada e largada ao sabor do vento, em direcção a ela. Mas a manobra não resultou. Acorrendo prontamente, as nossas galeotas e terranquins, embora com alguma dificuldade, conseguiram evitar que aquela chegasse ao contacto com qualquer dos navios de alto bordo.
No combate do dia 26 de Dezembro de 1620, ao largo de Jasques, tiveram os portugueses quarenta e nove feridos e vinte e cinco mortos, contando-se entre eles os capitães do São Martinho e da Conceição. Um português que se encontrava a bordo de uma nau inglesa e que durante a noite conseguiu fugir a nado para o São Pedro afirmou que os ingleses tinham tido cento e vinte feridos e setenta mortos.
Independentemente destes números, poderá deduzir-se que os portugueses terão levado a melhor no combate desse dia, já que os ingleses, nos dias seguintes, não se atreveram a renová-lo.
No dia 27, pela manhã, a armada portuguesa, que se encontrava a barlavento da inglesa, suspendeu e foi ao encontro desta. Suspenderam também os ingleses e meteram à bolina cerrada no bordo do mar a fim de ganhar barlavento, o que devem ter conseguido ao fim de pouco tempo. Mas conservaram-se afastados, recusando o combate que os portugueses lhes ofereciam. É natural que Shilling já tivesse chegado à conclusão de que, afinal e ao contrário do que inicialmente supusera, não lhe seria fácil bater os portugueses. Tendo gasto cerca de 50% das munições de que dispunha, deve ter pensado que outro combate igual ao do dia anterior o deixaria praticamente desarmado. A única coisa que agora o preocupava era arranjar maneira de embarcar as sedas e ir-se embora.
Durante toda a manhã de 27, enquanto durou o terral, as duas armadas continuaram no bordo do mar, fora do alcançe de tiro. De tarde, com a viração, e com os ingleses sempre a barlavento, voltaram ambas para terra, fundeando praticamente nos mesmos locais donde tinham partido.
Estas mesmas manobras repetiram-se nos dias seguintes: a armada portuguesa desafiando insistentemente a inglesa para o combate; esta recusando-se sistematicamente a aceitá-lo, valendo-se para isso da maior velocidade e da maior capacidade para bolinar dos seus navios.
Vendo que nada adiantava sair todos os dias para o mar em perseguição dos ingleses que sempre se escapavam, resolveu Rui Freire permanecer fundeado com os navios de alto bordo na baía de Jasques, ao mesmo tempo que as galeotas e os terranquins patrulhavam a costa adjacente, a fim de impedir que Shilling pudesse estabelecer qualquer contacto com a feitoria. Sob o ponto de vista estratégico, a decisão foi acertada. Mas o plano táctico que o nosso capitão-mor adoptou para a pôr em prática foi desastroso. Contra o parecer do condestável e do mestre, Rui Freire mandou preparar os navios para combaterem fundeados, a malfadada tendência dos fidalgos portugueses para quem a manobra dos grandes navios constituía um bicho-de-sete-cabeças.

De acordo com as suas ordens, foi reforçada a amarração e foram passadas espias de uns navios para os outros por forma a transformá-los numa espécie de muralha flutuante com os canhões voltados para o mar.
Como bom marinheiro que era, Shilling logo se apercebeu do partido que podia tirar do dispositivo que os portugueses tinham ingenuamente adoptado. Mandou transferir alguns canhões e munições das duas naus mais pequenas para as duas maiores, a fim de reforçar o poder de fogo destas e, no dia 7 de Janeiro de 1621, ao amanhecer, com o terral, foi demandar a nossa armada que a si própria se manietara. Pelas dez, a London e a Hart largaram ferro nas amuras do São Pedro por forma a, depois de terem feito cabeça ao vento, ficarem de ambos os bordos e pelo través dele. A Eagle e a Roebuck fundearam bastante mais afastadas, pelo través do São Martinho, unicamente com o intuito de o entreterem se tentasse ir em socorro da capitânia. A ideia de Shilling devia ser ir rendendo os navios portugueses um a um.
Começou então um furioso duelo de artilharia a curta distância entre o São Pedro e as duas naus inglesas maiores. Mas, como aquele podia utilizar simultaneamente as peças de ambos os bordos, o desequilíbrio não era tão grande como à primeira vista poderia parecer.
Cerca de uma hora deverá ter durado o canhoneio, até que um tiro de sorte cortou a amarra do galeão português. Com as últimas aragens do terral e o peso das espias que tinha passadas a ré, descaiu aquele para cima do São Lourenço, ficando atravessado na sua proa. Explorando de imediato a situação, a London e a Hort largaram um pouco mais de amarra e colocaram-se fora do campo de tiro da bateria principal da nossa capitânia. Puderam então massacrá-la à vontade, praticamente sem risco, já que aquela apenas podia utilizar as peças da popa e que tanto o São Lourenço como a Conceição tinham a maioria das suas peças tapadas pelos navios que estavam antes de si. Como nessa altura o vento tinha calado por completo, nenhum dos navios portugueses pôde efectuar qualquer movimento destinado a tirar a armada da penosa situação em que se encontrava.

Como seria de esperar, durante as cerca de duas horas em que esteve a ser bombardeado à queima-roupa pelas duas naus inglesas, praticamente sem poder ripostar, o São Pedro sofreu numerosas avarias e muitas baixas, cento e sessenta mortos e cerca de duzentos feridos. Os ingleses poucas avarias sofreram e tiveram somente sete mortos e um número reduzido de feridos. Mas entre os mortos contava-se Shilling.
Finalmente, cerca das três horas da tarde começou a soprar a viração, o que permitiu ao São Martinho, à Conceição e ao São Lourenço o desenvencilharem-se uns dos outros e irem em socorro da capitânia. Não estando dispostos a continuar o combate em condições de igualdade, os navios ingleses meteram rapidamente os ferros dentro e afastaram-se para sotavento.
Nesta altura, apesar das pesadas baixas sofridas pela guarnição do São Pedro, nada estava ainda perdido sob o ponto de vista estratégico. Apesar da terrível punição que sofrera a nossa capitânia não tinha avarias graves, o que atesta a robustez da sua construção. Por outro lado, os navios ingleses deviam ter o seu stock de munições reduzido a cerca de 20%, o que os impedia de se empenharem a fundo em novo combate de artilharia. Parecia, portanto, que estavam condenados a abandonar Jasques sem levar a seda. Mas, mais uma vez, Rui Freire cometeu um erro crasso que deitou tudo a perder. Em vez de permanecer fundeado a fim de reparar as avarias que sofrera, mandou suspender e lançou-se com toda a armada em perseguição dos ingleses.
Como seria de esperar, os ingleses não tiveram qualquer dificuldade em escapar-se. Pelo contrário, os portugueses, tendo de acompanhar o São Pedro que, dado o estado em que tinha o aparelho, nada mais podia fazer do que deixar-se levar pelo vento, descaíram consideravelmente para oeste.
Na manhã de 8 de Janeiro, não se avistando a nossa armada e estando o porto desimpedido, os ingleses não fizeram cerimónia. Fundearam o mais perto possível de terra e começaram a embarcar rapidamente a seda!
Um ou dois dias deve ter demorado o São Pedro a reparar as avarias sofridas durante o combate de 7 de Janeiro. Depois, no caminho de regresso a Jasques, foi a nossa armada assaltada por um temporal que a obrigou a manter-se de capa durante outros dois dias. Em resultado disso, quando, a 12 de Janeiro, regressou àquele porto já os ingleses iam a caminho de Surrate!
Apesar de dispor de navios mais lentos, Rui Freire poderia ter ido em sua perseguição a fim de os ficar bloqueando naquela cidade enquanto mandava pedir reforços a Goa. Logo que esses reforços chegassem a posição dos ingleses tornar-se-ia crítica, uma vez que, conforme já dissemos por várias vezes, um dos galeões e as urcas que estavam em Goa eram navios mais rápidos que os seus. O menos que lhes poderia acontecer era ficar engarrafados durante largos meses em Surrate com a inevitável quebra de prestígio e os prejuízos de ordem económica daí decorrentes.
Mas, mais uma vez, faltou a Rui Freire a visão estratégica necessária para enfrentar correctamente a situação. Depois de ter andado quase um mês às voltas no mar sem ter conseguido forçar os ingleses a um combate decisivo, sentia-se frustrado e desejoso de se ver novamente com os pés bem assentes em terra diante de um inimigo a que pudesse chegar com a ponta da sua espada. Por isso, ao constatar que os ingleses se tinham ido embora, apressou-se a tomar o caminho de Ormuz com o firme propósito de dar início à construção da fortaleza de Queixome. E assim começou a derrocada do império português do Oriente.
Saturnino Monteiro
em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa» (Vol.V)
Bibliografia:
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Sousa, Alfredo Botelho de, Subsídios para a História Militar Marítima da Índia, Ministério da Marinha, Lisboa, 1953, Vol. III, p.117
Documentos Remetidos da Índia ou Livros das Monções, Imprensa Nacional, Lisboa, 1975, Tomo VII, p.203
Penrose, Boies, Sea Fights in East Indies, Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, 1931, p.208
Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa
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