
A tomada de Ormuz pelos Persas, com a ajuda dos Ingleses, funcionou como uma espécie de despertador para o rei do Achém, lembrando-lhe que não tinha tempo a perder se quisesse apoderar-se de Malaca. Era evidente que o poder dos Portugueses estava francamente em declínio e que o dos Holandeses era cada vez maior. Se não se apressasse, era inevitável que estes, mais dia menos dia, tomassem aquela praça.
Começou, por isso, o rei do Achém a reunir navios, armas e homens para esse fim. No ano de 1628, estando os preparativos para a conquista de Malaca já bastante adiantados, mandou para lá uma armada de cerca de cem navios com a incumbência de a ir enfraquecendo através do ataque sistemático aos navios que lhe levavam abastecimentos. Porém, como já referimos, essa armada foi aniquilada pelos Portugueses.
Apesar deste duro revés, o rei do Achém não desistiu dos seus intentos e, em Maio de 1629, considerando dispor já do potencial necessário para a conquista de Malaca, promoveu uma reunião dos principais capitães do seu reino em que lhes deu conta da sua intenção de não adiar por mais tempo a dita conquista e lhes pediu os seus pareceres. As opiniões dividiram-se. Lançamane, experimentado capitão que já por diversas vezes tinha terçado armas com os Portugueses, mostrou-se contrário à operação, alegando que Malaca se encontrava poderosamente fortificada e que os Portugueses, apesar das dificuldades por que estavam passando, continuavam a ser combatentes de respeito, sobretudo no mar, conforme havia ficado provado na batalha travada no ano anterior.
De opinião contrária era Marraja, outro experimentado e valoroso capitão que tinha queimado o galeão de D. João da Silveira, ao largo do rio Formoso, em 1615. Entendia ele que os Portugueses se encontravam muito enfraquecidos e que Malaca, apesar das suas fortificações, não poderia resistir a um cerco demorado, a não ser que lhe fossem enviados da Índia reforços consideráveis, o que, de momento, não parecia possível. Em sua opinião o que mais importava era actuar depressa e com decisão. Era isto mesmo que o Rei queria ouvir e, naturalmente, foi esta a linha de acção que perfilhou.

Entretanto, em Malaca, desde que o rei do Achém derrotara decisivamente o de Jor (1623), receava-se que viesse em força atacar a cidade. Por isso, em 1626 fora enviado ao Achém, na qualidade de embaixador, Pêro de Abreu, cidadão de Malaca, para sondar o ânimo do Rei e tentar confirmar um tratado de paz celebrado com ele um ou dois anos antes. Mas a reacção daquele a esta embaixada foi nada menos do que mandar prender o nosso embaixador, o que só por si esclarecia definitivamente quais eram as suas intenções. A partir daí só faltava saber quando é que teria lugar o ataque a Malaca, o que levou António Pinto da Fonseca, capitão-geral da guerra no Sul, e Gaspar de Melo de Sampaio, capitão da praça, a acelerar os trabalhos de defesa em que estavam empenhados e a pedir ao Vice-Rei que lhes mandasse reforços. Após a batalha do rio Langat tornou-se claro que o ataque dos Achéns não devia tardar.
Possivelmente depois da reunião do rei do Achém com os seus capitães, Pero de Abreu conseguiu fazer chegar a Malaca uma carta dando conta dos preparativos daquele. Sem perda de tempo, António Pinto da Fonseca mandou seguir para a Índia uma galeota a avisar o Vice-Rei, mandou pedir auxílio ao rei de Pão e enviou para a costa do Achém Francisco Lopes, capitão-mor do mar de Malaca, com algumas jáleas em missão de reconhecimento.
Não sendo tempo de navegar na costa ocidental da Índia, a galeota que levava as cartas para o Vice-Rei dirigiu-se a São Tomé de Meliapor, donde aquelas foram mandadas por terra para Goa. O rei de Pão ofereceu grande quantidade de mantimentos e prometeu enviar um exército e uma armada em socorro de Malaca se o ataque do Achém se chegasse a concretizar. Francisco Lopes, poucos dias depois de ter chegado à costa do Achém, teve a sorte de capturar um navio que transportava o próprio genro do rei, acompanhado por outros príncipes que vinham fugindo à tirania daquele. Por eles ficou António Pinto da Fonseca a saber tudo quanto lhe interessava acerca das intenções e da força do inimigo.
Por esta altura já o vice-rei D. Francisco da Gama tinha deixado a Índia, depois de ter entregue o governo, conforme ordens recebidas de Lisboa, a D. Frei Luís de Brito, bispo de Cochim, homem muito respeitado pela sua integridade mas velho e doente. Recebendo este as cartas de Malaca em Junho (?), o que não lhe permitia de imediato enviar socorros da Índia, mandou ordem a Miguel Pereira Borralho, que se encontrava a patrulhar a costa do Coromandel com cinco fustas, para que se dirigisse imediatamente para lá e dissesse a António Pinto da Fonseca que em Setembro iria novo socorro de Goa. No entanto, o tempo ia passando e o bispo nada fazia para organizar esse socorro, o que já estava provocando certa celeuma.
Providencialmente, segundo o cronista, D. Frei Luís de Brito faleceu a 29 de Junho de 1629. Abertas as vias de sucessão, verificou-se que o governo da Índia devia caber a D. Nuno Álvares Pereira ... que não se sabia quem fosse! Para ser Nuno Álvares Pereira, capitão de Sofala, faltava-lhe o «dom»; para ser Nuno Álvares Botelho, capitão-mor da armada de alto bordo, aparecia o apelido «Pereira» em vez de «Botelho», se bem que ele também fosse «Pereira» por parte da mãe e tivesse em tempos usado esse apelido. Apesar de toda a gente estar convencia de que a sucessão se referia de facto a Nuno Álvares Botelho, a situação era em extremo melindrosa, prestando-se a dúvidas e a polémicas. E Malaca não podia esperar!
Fazendo mais uma vez prova da sua habitual isenção, Nuno Álvares Botelho não teve dificuldade em resolver o problema. Como as vias de sucessão estipulavam que, no caso de Nuno Álvares Pereira se encontrar ausente de Goa, governasse interinamente uma junta formada pelo bispo, pelo capitão da cidade e pelo conselheiro de Estado mais velho, e como ele próprio era o conselheiro de Estado mais velho, propôs que essa junta entrasse imediatamente em funções a fim de não atrasar o socorro a Malaca, oferecendo-se de imediato para capitanear esse socorro, embora sem abdicar dos direitos que lhe viessem a caber relativamente ao governo da Índia. Concordaram os restantes membros do Conselho de Estado e o governo da Índia passou a ser exercido interinamente por um triunvirato constituído por D. Lourenço da Cunha, capitão de Goa, Gonçalo Pinto da Fonseca, chanceler-mor (em substituição do bispo que não quis aceitar o cargo) e Nuno Álvares Botelho.
A partir desse instante não desperdiçou este último um só minuto no aprontamento da armada destinada a Malaca. E graças à sua capacidade de organização, à sua extrema afabilidade e ao enorme prestígio de que gozava, tudo correu sobre esferas, aparecendo como que por encanto o dinheiro, as armas e os homens sem que fosse necessário tomar qualquer medida coercitiva. O mesmo patriotismo que haviam manifestado os Portugueses da Metrópole quando se tratara de recuperar a Baía, manifestavam-no agora os Portugueses da Índia, tanto europeus como nativos, para socorrer Malaca.
Durante a preparação da armada foi tal a liberalidade de Nuno Álvares Botelho, que ficou sem um tostão de seu. Por último, para ajudar dois capitães nos seus aprestos, deu-lhes dois cavalos que tinha, únicos bens que lhe restavam, e passou a andar a pé! Como seria de esperar, tal procedimento, pouco habitual na Índia, encheu de pasmo toda a gente e tornou-o adorado pelos seus homens.
Finalmente, a 8 de Setembro, a armada, muito bem provida e guarnecida, encontrava-se pronta para largar. Compunham-na, provavelmente, um patacho, cinco galeotas e vinte e três fustas, em que iam embarcados cerca de novecentos portugueses, o que fazia dela a mais poderosa que os Portugueses tinham enviado para o Sueste Asiático desde 1615.
Por essa altura já Malaca suportava, havia dois meses, os rigores de mais um cerco.
Em meados de Junho de 1629 o rei do Achém fizera-se ao mar com uma armada de duzentos e trinta e seis navios, dos quais trinta e oito eram grandes galés, armadas com canhões de quarenta libras (capazes de disparar pelouros de cerca de vinte quilos) e com três mastros, dois deles com gáveas, o que fazia delas verdadeiras galeaças. Na armada iam embarcados dezanove mil e quatrocentos homens dispondo de abundante artilharia e material de expugnação.
Era intenção do rei comandar ele próprio a expedição. Porém, passados poucos dias de viagem, possivelmente por pensar que na sua ausência alguém se poderia apoderar do trono, decidiu regressar à cidade de Achém, entregando o comando geral das forças a Lançamane e o da armada a Marraja.
Nos primeiros dias de Julho de 1629 apareceu a armada do Achém diante de Malaca, enchendo de terror os seus habitantes, que não viam como seria possível resistir a tão grande poder. A guarnição de Malaca era então constituída apenas por duzentos e sessenta soldados, cento e vinte «casados» capazes de pegar em armas e quatrocentos naturais. Mas poucos dias depois do início do cerco chegaram cerca de dois mil soldados, enviados, conforme havia prometido, pelo rei de Jor. De resto, a cidade encontrava-se bem fortificada e não faltavam armas, nem munições, nem mantimentos, graças à previdência de António Pinto da Fonseca.
Foi então que Lançamane cometeu um erro que viria a revelar-se fatal. Receando que os seus navios, após o desembarque das tropas, pudessem ser tomados por uma armada de socorro vinda da Índia, resolveu metê-los num rio situado cerca de uma légua sul de Malaca, que António Pinto da Fonseca diz ser o rio Duyon e o padre Manuel Xavier diz ser o rio Pongor. Ao contrário do que dissemos na 1ª edição desta obra, estamos em crer que devia, de facto, ser o rio Duyon, uma vez que será lógico admitir que a informação de António Pinto da Fonseca seja mais correcta do que a informação do padre Xavier. Além disso o rio Duyon está mais perto de Malaca e é mais largo que o rio Pongor, o que logicamente o teria levado a ser preferido pelos achéns. Por último a distância de uma légua entre Malaca e o rio onde os achéns meteram os seus navios, indicada pelo padre Xavier, aproxima-se mais da distância a que está daquela cidade o rio Duyon.
Encontrando-se a barra do dito rio muito assoreada, foi preciso fazer grandes escavações para que as galés pudessem entrar em águas vivas, o que as deixou prisioneiras até às marés vivas seguintes. (Como se sabe, as marés vivas ocorrem aproximadamente de duas em duas semanas.) Apenas sete galés, com as guarnições completas, acompanhadas por outros navios mais pequenos, ficaram do lado de fora a fim de interceptar todos os navios que se dirigissem para Malaca. Ao que parece não tiveram os chefes achéns o elementar cuidado de destacar algumas fustas para o cabo Rachado a fim de serem prevenidos a tempo da chegada da armada da Índia, o que lhe teria permitido reembarcar as suas tropas antes de lhe ir dar combate, tal como tinha feito Matelief em 1606.
Diga-se desde já que o bloqueio marítimo à cidade teve um sucesso muito limitado. Na altura havia somente em Malaca seis jáleas, dado que nos últimos anos tinha sido adoptada a política de fazer regressar a Goa todos os navios que de lá chegavam com socorros a fim de evitar que as respectivas guarnições se dispersassem, que era o que geralmente acontecia quando ficavam na cidade. Por isso, António Pinto, após a chegada dos achéns, nada mais pôde fazer do que mandar alguns bantins e balões para Pulo Butum e para o estreito de Singapura a fim de avisar os navios que vinham respectivamente do Norte e do Sul para que ali se conservassem à espera de escolta. E, quando era avisado de que havia algum nessas condições, mandava lá as seis jáleas, sob o comando de Francisco Lopes, capitão-mor do mar, para o trazer para Malaca durante a noite, cosido com a costa e durante as horas de baixa-mar, por forma que as galés inimigas não lhe pudessem chegar. Graças a esta judiciosa estratégia, nunca deixaram de chegar a Malaca, durante todo o tempo que durou o cerco, numerosos pequenos navios e embarcações com mantimentos. Não obstante, dezassete deles foram tomados pelas galés do Achém.

A 6 de Julho, considerando Lançamane e Marraja que os seus navios se encontravam em segurança, começaram a desembarcar as tropas que, cortando o mato que cobria o terreno, logo se puseram em marcha em direcção a Malaca. Saíram ao seu encontro António Pinto da Fonseca e Gaspar Melo de Sampaio com cerca de duzentos soldados, entre portugueses e malaios, e numa batalha que durou perto de seis horas mataram mais de trezentos homens ao inimigo sem perder nenhum. No entanto, dada a esmagadora superioridade dos achéns, acabaram por ser forçados a retirar para as tranqueiras do outeiro de São João e da igreja de Nossa Senhora da Piedade.
Construiu o inimigo outras tranqueiras fronteiras a estas, onde montou poderosa artilharia, e durante vários dias não cessou o canhoneio entre umas e outras, entrecortado por surtidas de parte a parte. Quando a pressão inimiga se tornou insustentável, os portugueses abandonaram as tranqueiras e recolheram à praça. Isso permitiu aos achéns instalar as suas baterias no outeiro de São João e na igreja de Nossa Senhora da Piedade, donde começaram a bater as muralhas e os baluartes daquela. E durante mais duas semanas prosseguiu o gigantesco duelo de artilharia entre sitiados e sitiantes, com pesadas perdas para estes últimos. A dada altura, é também provável que os achéns tenham começado a perder muita gente por motivo de qualquer epidemia que terá começado a grassar nas suas hostes.
Não obstante, a 4 de Agosto lançaram um forte ataque contra o convento da Madre de Deus, posição chave para a defesa de Malaca por se encontrar situado numa colina donde se podia bater a praça com tiro mergulhante. Repelido o ataque, começou o inimigo a rodear o convento com tranqueiras e a bombardeá-lo intensamente com artilharia. A 20 de Agosto, para não ficarem isolados, os defensores do convento puseram-lhe fogo e retiraram também para a praça, deixando todo o arrabalde da banda de Ilher nas mãos dos achéns.
Ocupada a colina da Madre de Deus, avançaram aqueles até ao rio de Malaca e começaram a construir grandes jangadas para passarem para o outro lado e fecharem o cerco à cidade por terra.
Pela mesma altura resolveram Lançamane e Marraja mandar seguir para o Achém duas das sete galés que tinham deixado de fora a fim de darem conta ao Rei da conquista do convento e de o informarem de que estavam esperançados que dentro de trinta dias seriam senhores de Malaca. Porém, pouco depois daquelas terem largado, apareceu uma armada de sessenta navios do rei de Pão que, possivelmente, tendo-as apanhado encalmadas, as tomou. As outras cinco, receando vir a ter a mesma sorte, meteram-se no rio Duyon logo que chegou o preia-mar. Desta forma as comunicações de Malaca com o exterior ficaram completamente livres, o que afastou definitivamente a hipótese de a cidade poder vir a render-se pela fome.
Pela armada que em tão boa hora chegou a Malaca mandou o rei de Pão aviso a António Pinto da Fonseca de que ficava aprestando uma maior, composta por navios seus e de sua tia rainha de Patane, com que muito em breve viria em pessoa socorrer a cidade. De notar que, curiosamente, nesta época a influência dos Holandeses na península Malaia era praticamente nula e todos os reis dela, com receio de virem a ser subjugados pelo tirânico rei do Achém e seduzidos pela política de boa vizinhança de António Pinto da Fonseca, procuravam afanosamente a aliança com os Portugueses como nos tempos antigos!
Logo que surgiu a armada de Pão, teria sido lógico que Lançamane e Marraja tivessem passado à defensiva em terra e tivessem reactivado a sua a fim de lhe dar combate e restabelecer o bloqueio à cidade. Não o tendo feito, só lhes restava agora a hipótese de tomarem a praça por meio de um assalto à viva força, o que era bastante duvidoso. Mas nem mesmo isso tentaram. Aparentemente indecisos quanto à estratégia a adoptar, deixaram passar todo o mês de Setembro sem tomar qualquer decisão, limitando as operações de assédio à continuação do duelo de artilharia.
Mas o tempo acaba sempre por favorecer aquele que desfruta do domínio do mar. A 30 de Setembro chegaram a Malaca as cinco fustas de Miguel Pereira Borralho com uma centena de soldados, o que provocou grande regozijo entre os sitiados. Mas também os achéns ficaram contentes, pois pensaram que a essas cinco fustas se resumia todo o socorro que nesse ano viria da Índia.
Por esta altura ainda a armada de Nuno Álvares Botelho estava navegando a sul de Ceilão, lutando contra violentos temporais que fizeram desgarrar uma das fustas. Não obstante, embora com os navios muito maltratados e as guarnições extenuadas, conseguiu aquele chegar a salvamento a Pulo Butum a 14 de Outubro, onde encontrou à sua espera um bantim com informações acerca da situação em Malaca. Detendo-se somente um dia para fazer aguada, Nuno Álvares Botelho retomou de imediato a viagem, levando em sua companhia três patachos portugueses, um de Cochim e dois de Negapatão, que estavam em Pulo Butum à espera da armada da Índia.
Cerca de seis dias terá gasto para alcançar o cabo Rachado, onde encontrou outro bantim com cartas de António Pinto da Fonseca ordenando ao capitão que viesse com o socorro da Índia para não passar avante sem ordem sua, provavelmente por recear que, entretanto, a poderosa armada do Achém se fizesse ao mar e que a nossa lhe fosse muito inferior.
Embora não tendo que obedecer a ninguém, uma vez que levava poderes de Governador da Índia, Nuno Álvares Botelho resolveu reunir conselho, no qual foi deliberado que, dada a força da nossa armada, a única coisa que havia a fazer era seguir o mais rapidamente possível para Malaca. Em resultado desta decisão tomou aquela o rumo de Malaca, onde chegou ao alvorecer do dia 21 de Outubro de 1629, de bandeiras desfraldadas e atroando os ares com o disparo da artilharia e mosquetaria, o toque das trombetas, dos tambores e dos pífaros e a vozearia das guarnições. Os defensores da cidade, que não esperavam um socorro daquela envergadura, deram largas ao seu entusiasmo; os sitiantes, igualmente surpreendidos, logo perceberam que estavam perdidos. Instalados no convento da Madre de Deus, Lançamane e Marraja, perante o imponente espectáculo que a nossa armada oferecia, maldiziam a hora em que tinham metido as suas galés dentro do rio Duyon, de onde só poderiam sair em águas vivas. No seu desespero terá dito o primeiro: «Ditoso capitão, ditosa armada que tomas o teu inimigo com a espada na baínha, e mofino de mim Lançamane!» A verdade é que a estratégia adoptada por Lançamane e Marraja durante toda a campanha deixou muito a desejar.
Logo que a nossa armada fundeou, vieram a bordo da capitânia de Nuno Álvares Botelho, António Pinto da Fonseca, Gaspar de Melo de Sampaio e João Soares Vivas que estava desempenhando as funções de capitão-mor do campo. Posto ao corrente da situação e assente a estratégia a adoptar para a completa derrota dos achéns, Nuno Álvares desembarcou para visitar a cidade, enquanto a armada, sob o comando de João Soares Vivas, se ia postar na boca do rio Duyon por forma a engarrafar definitivamente a inimiga. Ao fim da tarde, seguro de que a situação em terra se encontrava perfeitamente controlada, Nuno Álvares Botelho reassumiu o comando da armada, voltando o Vivas para terra.
Compunha-se aquela, neste momento, de quatro patachos, cinco galeotas e doze fustas, além das seis jáleas de Malaca, de numerosos balões e bantins e dos sessenta navios da armada do rei de Jor. Segundo parece, onze das fustas vindas da Índia terão sido temporariamente desarmadas, possivelmente para reforçar as guarnições das jáleas, bantins e balões, embarcações particularmente úteis nas circunstâncias devido ao seu pequeno calado.
No rio Duyon encontravam-se trinta e seis galés do Achém e cerca de uma centena de navios mais pequenos, já que muitos outros tinham sido desfeitos para com a sua madeira construir tranqueiras. Na boca do rio tinham os achéns construído, numa e outra margem, baluartes fortemente artilhados, prolongados para montante por valos e trincheiras.
No dia seguinte ao da chegada da armada de Nuno Álvares Botelho, receando que este lhes tomasse as galés, Lançamane e Marraja apressaram-se a abandonar todas as posições que à custa de tantos sacrifícios tinham conquistado em redor de Malaca e a retirar para os navios. Exemplo bem elucidativo da forma como funciona o poder naval.
![]() Rio Duyon - 1629 |
No entanto, apesar de se encontrar engarrafada, a armada do Achém encontrava-se relativamente segura, pelo menos a curto prazo. Os nossos patachos e galeotas não podiam entrar no rio porque calavam bastante mais do que as galés achéns. Também não era fácil aos portugueses desembarcar e atacar a armada inimiga pelo lado de terra por causa das poderosas fortificações que a protegiam e do grande número de soldados que as guarneciam. Por isso, Nuno Alvares Botelho começou por tomar as disposições necessárias para que em caso algum as galés inimigas se pudessem fazer ao mar mandando afundar um navio carregado com pedras na foz do rio e cravar à sua volta grossas estacas pelos intervalos das quais só as jáleas, os bantins e os balões podiam passar. Depois, mandou vir de Malaca duas grandes barcaças em que montou duas peças grossas, muito bem protegidas com arrombadas, paveses e mantas. E com elas começou a bombardear intensamente os navios inimigos que se encontravam amontoados dentro do rio. Duas galés foram afundadas e todas as outras gravemente avariadas. |
A 29 de Outubro Nuno Álvares intimou os achéns a renderem-se. Respondeu o Marraja desafiando-o a que o deixasse sair para poderem combater no mar como bons cavaleiros. Claro que aquele não aceitou o desafio e o bombardeamento continuou. Era evidente que nesta altura a
única coisa em que Lançamane e Marraja pensavam era na forma de se escaparem da ratoeira em que por si próprios se tinham metido. Em resultado das baixas sofridas em combate, das doenças e das deserções, o exército do Achém encontrava-se, por essa altura, reduzido a pouco mais de quatro mil homens capazes de pegar em armas.
Nos primeiros dias de Novembro um certo número de embarcações inimigas fizeram uma surtida durante a noite para tentar arrancar as estacas e afastar o navio carregado com pedras com que tínhamos obstruído a boca do rio a fim de abrirem caminho para a saída das galés. Mas as nossas jáleas, bantins e balões acorreram de pronto e, após um breve combate no meio das trevas, obrigaram-nas a bater em retirada sem terem conseguido os seus intentos. Não obstante, a 8 de Novembro, aproveitando uma maré viva, a armada do Achém fez uma tentativa para sair para o mar. À frente vinha o Marraja numa enorme galé chamada Espanto do Mundo, equipada com numerosas bombardas e guarnecida com perto de setecentos homens entre remadores e soldados!
Dado o alarme, Nuno Álvares Botelho mandou logo contra ela Francisco Lopes com as suas jáleas, bantins e balões que, atracando-se a ela, lhe começaram a lançar para dentro grande quantidade de panelas de pólvora. Ao mesmo tempo, as nossas quatro galeotas aproximaram-se e submeteram-na a um intenso bombardeamento. Embaraçada nas estacas e no navio afundado, a Espanto do Mundo ficou imobilizada, tendo de suportar sozinha o peso de toda a nossa armada, uma vez que as galés que vinham atrás de si, tendo o caminho obstruído, nada mais podiam fazer do que fornecer-lhe gente para substituir a que ia caindo. Vendo o seu navio em chamas, com um dos mastros partidos, pejado de mortos e feridos e sem possibilidade de avançar, Marraja deu ordem às outras galés para o puxarem novamente para dentro do rio.
A partir desse dia acentuou-se a desintegração das forças do Achém debaixo do bombardeamento impiedoso das nossas barcaças e dos nossos patachos. Na manhã de 25 de Novembro o inimigo arvorou uma bandeira branca e propôs a abertura de negociações para se entregar. Mas Nuno Álvares Botelho impôs como condição prévia a libertação imediata de Pêro de Abreu que os achéns tinham trazido consigo. Não se tendo chegado a acordo, continuaram os nossos canhões a disparar furiosamente sobre os baluartes e os navios inimigos a fim de demonstrar a Lançamane e ao Marraja que não tinham outra alternativa senão renderem-se sem condições. Só nessse dia fizeram-se para cima de quinhentos tiros!
A 30 de Novembro morreu o Marraja, não se sabe se por doença se por ter sido atingido por algum pelouro perdido. Para esconder a sua morte os achéns simularam grandes festejos, o que deve ter deixado os portugueses um tanto desconcertados.
Nesse mesmo dia chegou à ilha Grande, que fica um pouco a sul do rio Pongor, o rei de Pão com uma armada de cento e sessenta velas, sessenta suas e cem da rainha de Patane, guarnecias com nove mil homens. Entre os navios que compunham a referida armada contavam-se quinze galés. Nuno Alvares Botelho ainda pensou em mandar-lhe recado para que não passasse para norte da ilha Grande a fim de que não se dissesse depois que a rendição dos achéns, esperada a todo o momento, se ficaria a dever à sua vinda. Porém, receando que isso o pudesse ofender, acabou por lhe enviar um emissário convidando-o a vir com a sua armada para junto da portuguesa.
Apesar de tudo, é natural que a chegada da armada de Pão tenha sido o factor que fez decidir Lançamane a não protelar por mais tempo a rendição, uma vez que isso, até certo ponto, lhe permitia salvar a face. A 3 de Dezembro os achéns dispararam continuamente a sua artilharia durante todo o dia como quem já só pretende gastar munições. Ao amanhecer do dia 4, estando Nuno Álvares Botelho a ultimar os preparativos para desembarcar e ir atacar as fortificações inimigas que protegiam os navios, os achéns enviaram Pêro de Abreu com as suas propostas de rendição. A única coisa que Lançamane pretendia era que o deixassem sair com três galés e outros navios mais pequenos a fim de retirar para o Achém com os quatro mil homens válidos que lhe restavam. Respondeu Nuno Álvares Botelho exigindo a rendição imediata e incondicional, comprometendo-se somente a poupar as vidas aos vencidos. Durante todo o dia 5 prosseguiram as negociações sem que se tenha conseguido chegar a qualquer acordo.
No dia 6, sem que os portugueses se tivessem apercebido disso, Lançamane abandonou os navios e as fortificações e meteu-se pela terra dentro na intenção de se dirigir a Pão e aí entregar-se. Naqueles e naquelas ficaram muitos soldados doentes que não estavam em condições de marchar. Já noite fechada, não sentindo qualquer movimento no campo inimigo e tendo cessado por completo o seu fogo, Nuno Álvares Botelho meteu-se num balão com cinco homens e foi atracar a um dos baluartes que defendiam a entrada da barra. Apercebendo-se então que estava vazio, mandou tocar as trombetas ordenando o assalto geral! Num ápice acorreram todas as nossas jáleas, bantins e balões carregados de soldados. Mas ninguém lhes resistiu, limitando-se os achéns, quase todos doentes que tinham ficado nos navios, a pôr-lhes fogo. Por isso, o único trabalho que os nossos soldados tiveram foi apagar os incêndios, tendo conseguido ainda salvar trinta galés e muitos outros navios mais pequenos, embora em muito mau estado devido ao tiro da nossa artilharia. Juntamente com eles foram capturadas cento e setenta peças grossas de fabrico inglês, português, holandês e turco, centenas de outras peças de menor calibre e milhares de mosquetes, arcabuzes e outras armas.
Consumada a vitória, Nuno Álvares Botelho concedeu aos seus soldados, que tão fielmente o haviam servido durante toda a campanha, vinte e quatro horas de saque, sendo de considerável valor o espólio de que se apoderaram. Para si escolheu apenas uma cacatua por ter sido informado que era uma ave de estimação de Lançamane.
A 8 de Dezembro, acompanhado pela armada do rei de Pão, Nuno Álvares Botelho regressou a Malaca, onde foi recebido triunfalmente.
A 9, para dar ainda maior sabor ao triunfo, apresentou-se naquela cidade um embaixador do rei de Perak declarando que o seu soberano havia repudiado a vassalagem ao rei do Achém, que desejava voltar a ser vassalo do rei de Portugal e que estava pronto a pagar o respectivo tributo e a entregar muita fazenda que Lançamane lá deixara quando ia a caminho de Malaca!
A 10, estando Nuno Álvares Botelho já de novo embarcado, recebeu a visita do rei de Pão, que o foi felicitar pela grande vitória que alcançara, ao qual ofereceu as galés e a artilharia que quisesse levar. Recusou aquele polidamente, pedindo somente autorização para visitar Malaca. Ao outro dia, com pompa e circunstância, teve lugar a visita do rei. Depois das agruras da guerra era um nunca mais acabar de festas, tanto mais que a população e a guarnição da cidade pouco haviam sofrido com o cerco. Bastará dizer que tanto em terra como no mar tinham morrido, por junto, poucos mais de sessenta portugueses.
A 12 de Dezembro retirou o rei de Pão, sendo acompanhado até seis léguas de Malaca pela nossa armada.
Resta acrescentar que em Janeiro de 1630 Lançamane se entregou ao rei de Pão que, por sua vez, o entregou a Nuno Álvares Botelho. Enviado para a Índia a fim de seguir para Portugal, acabou por morrer em Colombo. A galé Espanto do Mundo foi também mandada para Goa a fim de que na Índia se pudesse avaliar melhor a extensão da estrondosa vitória que acabava de ser conseguia sobre os Achéns.
Na realidade, a batalha do rio Duyon de 1629 constituiu um dos maiores feitos de armas dos Portugueses no Oriente. Dos duzentos e trinta e seis navios e dos dezanove mil homens que foram à conquista de Malaca nem um só regressou ao seu país! Em consequência da vitória alcançada sobre os Achéns, voltou aquela cidade, embora por pouco tempo, ao seu antigo esplendor e o nome de Portugal a ser novamente temido e respeitado em toda a península Malaia.
Saturnino Monteiro
em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa» (Vol.VI)
Bibliografia:
Biblioteca da Ajuda, Lisboa, Diário do Conde de Linhares, 51-VII-12, fl.6 (Informação do Comandante Encarnação Gomes)
Livro das Monções nº 14, fls. 357
Queiroz, Padre Fernão de, Vida do Venerável Irmão Pedro de Basto, Oficina de Miguel Deslandes, Lisboa, 1689, pp. 325, 361
Xavier, Padre Manuel, Vitórias do Governador da Índia Nuno Álvares Botelho, Agência Geral das Colónias, Lisboa, 1940, p.123 (Na página 165 é claramente referido que o rei que auxiliou Malaca era o de Pão, como é lógico, e não o de Jor)
Sousa, Faria e, Ásia Portuguesa, Livraria Civilização, Lisboa, 1947, Volume VI, pp. 293, 334, 338
Sousa, Alfredo Botelho de, Subsídios para a História Militar Marítima da Índia, Ministério da Marinha, Lisboa, 1953, Volume III, pp.405, 407
Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa
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