
Apesar de possuir inúmeras vantagens tanto de ordem geoestratégica como logística, Goa enfermava de uma grave insuficiência como base naval: os baixos fundos da barra do Mandovi, que obrigavam a descarregar completamente as naus e os galeões quando se tornava necessário metê-los no rio para os reparar ou resguardar da «monção». Para tornear esta dificuldade, que atrasava consideravelmente o aprontamento da armada de alto bordo quando chegava o «Verão», resolveu o vice-rei Pedro da Silva, logo que os Holandeses levantaram o bloqueio em Maio de 1637, mandar os galeões invernar em Mormugão, à excepção do São Sebastião e do São Jerónimo, que foram levados para Panelim (próximo de Rebandar) para serem reparados. Os soldados da armada recolheram a Goa; a gente de mar ficou alojada no forte de Mormugão para poder dar assistência aos navios que, entretanto, iriam sendo carenados. Com estas medidas esperava Pedro da Silva ter a armada de alto bordo pronta a navegar logo que terminasse a «monção», a fim de, se necessário, cobrir a chegada das naus do Reino.
Em princípios de Setembro foram levados para a barra o Bom Jesus, um galeão novo de 60 peças, acabado de construir em Goa, e o São Jerónimo, aos quais se juntaram pouco depois os navios que haviam invernado em Mormugão. Uma vez reconstituída, a primeira missão da armada de alto bordo parece ter sido ir a Baçaim buscar um outro galeão, de menores dimensões, que ali havia sido construído e que deve ter vindo a reboque para ser aparelhado em Goa. De qualquer forma, esse galeão não ficou pronto a tempo de tomar parte nos combates desse ano. Dá mesmo a impressão que terá permanecido desarmado durante muito tempo por falta de gente para o guarnecer.
Possivelmente em finais de Setembro ou princípios de Outubro chegou uma nau do Reino, a Nª Sª de Oliveira Guimarães. Uma naveta que largara do Tejo juntamente com ela só chegaria a Cochim a 11 de Dezembro. De notar que as armadas do Reino que durante os reinados de Filipe II e Filipe III eram constituídas por três, quatro ou cinco naus estavam agora reduzidas a uma ou duas em consequência da necessidade de organizar com frequência armadas para socorrer o Brasil que se tornara o centro de gravidade da grande estratégia portuguesa.
A 26 de Outubro fundeou cerca de três milhas ao mar da fortaleza da Aguada uma poderosa armada holandesa, sob o comando de Adam Westerwolt, constituída por dez naus e cinco patachos. No dia seguinte, duas naus e dois patachos foram destacados para Surrate e para a Pérsia, ficando consequentemente a armada de bloqueio reduzida a oito naus e dois patachos.
Tentou então Westerwolt convencer o Idalcão a atacar Goa pelo lado de terra, conforme havia sido acordado no ano anterior. Mas aquele escusou-se invocando pretextos vários, entre os quais a antiga amizade com os Portugueses.
Logo que os holandeses chegaram o Vice-Rei pensou em mandar sair a armada de alto bordo para lhes dar combate, mas não o pôde fazer por grande parte dos seus soldados terem sido utilizados para guarnecer a armada de remo que fora ao cabo Comorim buscar os navios vindos do Sul.
A 26 de Novembro, inesperadamente, a armada holandesa levantou ferro e seguiu para Surrate a fim de se reabastecer, deixar mercadorias que para lá trazia e embarcar outras. Procurou Pedro da Silva aproveitar a sua ausência para dar saída à São João de Deus, que desde o «Verão» anterior estava aguardando uma oportunidade para iniciar a torna-viagem. Mas como tinha sido obrigada a descarregar durante a «monção» para se poder abrigar no Mandovi não foi possível aprontá-la antes do regresso dos holandeses, que teve lugar a 11 de Dezembro.
Em finais desse mês chegou a «cáfila» que a armada do cabo Comorim fora buscar, constituída por numerosos navios de remo vindos da China, de Malaca, de Ceilão e do Coromandel. Entrou à vista da armada holandesa sem que esta tenha feito qualquer tentativa, por intermédio dos seus patachos ou lanchas, para a interceptar. Conforme já tivemos ocasião de fazer notar, a falta de navios de remo não permitia que os Holandeses exercessem de uma forma absoluta o domínio do mar de que desfrutavam.
Tendo a armada de alto bordo recuperado os soldados que cedera à armada do cabo Comorim, resolveu o Vice-Rei fazê-la sair para dar combate ao inimigo nos primeiros dias do novo ano de 1638. A 3 de Janeiro, Westerwolt recebeu mais um patacho de reforço, o que elevou os efectivos da sua armada para oito naus e três patachos. A 4, ainda antes do romper do dia, fez-se ao mar a nossa, com os cinco galeões e a naveta, acompanhados por trinta e oito galeotas e fustas.
As instruções dadas por Pedro da Silva a António Teles de Meneses para esta saída são extremamente interessantes, porque revelam da sua parte uma notável percepção dos problemas da táctica naval, coisa muito rara entre os chefes políticos e militares portugueses ou espanhóis da época. Do combate de artilharia não se deveria esperar mais do que desaparelhar algumas naus inimigas e causar-lhe um número limitado de mortos e feridos; o combate à abordagem devia ser evitado pelos galeões maiores, uma vez que a mosquetaria dava grande vantagem aos defensores e, por outro lado, os navios, depois de aferrados, perdiam a liberdade de manobra e corriam o risco de se queimarem juntamente com os do inimigo; por isso, o que interessava acima de tudo era que cada um dos nossos galeões pequenos e velhos conseguisse aferrar uma nau inimiga e depois se queimasse juntamente com ela; lá estavam os navios de remo para tentar salvar as suas guarnições. No seu conjunto, uma doutrina drástica e onerosa mas que constituía a única alternativa que podia conduzir a resultados decisivos.
![]() Bloqueio de Goa - 1637/1638 |
Ainda escuro, a armada portuguesa, aproveitando o terral, dirigiu-se de vento em popa para o local onde se encontrava fundeada a holandesa. Logo que principiou a clarear, vendo os navios portugueses a avançar em direcção a si, os holandeses suspenderam de emergência e, numa coluna bastante desorganizada, puseram as proas a SW, com pano reduzido, ficando à espera dos nossos. |
Após o ataque com os brulotes, as duas armadas continuaram a navegar para SW, tal como haviam feito de manhã, mas agora com vento de través, amuras a EB e os holandeses de um modo geral a barlavento. Dizemos «de um modo geral» porque alguns dos navios portugueses tinham-se misturado com os do inimigo. Um deles era o Bom Jesus, a capitânia portuguesa, que se aproximou da popa da Utrecht, a capitânia holandesa, começando a bombardeá-la com os doze canhões que tinha montados nas amuras. Respondeu Westerwolt, mandando largar mais pano para se afastar. Mas nessa altura, talvez porque tivesse sido atingido o pessoal que manobrava o leme, a Utrecht desgovernou e deu uma guinada para cima do São Jerónimo, que tinha por sotavento, metendo o gurupés numa das enxárcias deste. Para impedir o combate à abordagem, conforme as ordens do Vice-Rei, o capitão daquele mandou cortar a machado parte da enxárcia, o que permitiu aos dois navios separarem-se. Viu-se então a Utrecht rodeada pelo Bom Jesus, pelo São Jerónimo e, possivelmente, pelo Madre de Deus, que a bombardeavam impiedosamente, provocando-lhe grandes avarias na mastreação, no aparelho e no próprio casco, bem como, por certo, um número considerável de mortos e feridos. Acorreram de pronto outras naus holandesas em auxílio da sua capitânia, talvez a Harder e a Rotterdam, e foi a vez do nosso Bom Jesus se ver alvejado simultaneamente por vários adversários.

Mas não era só na testa da coluna que a batalha se desenrolava com grande empenhamento de parte a parte. Muito pelo contrário. O São Bartolomeu, que seguia um pouco afastado dos galeões maiores, estava-se batendo galhardamente com a Gravenhage e a Veer. Tendo conseguido passar para barlavento da primeira, aferrou-a e começou a lançar-lhe para dentro grande quantidade de panelas de pólvora e lanças de fogo. Nessa altura entrou em cena a Vlissingen, que, encontrando-se ainda mais a barlavento, arribou sobre o São Bartolomeu e o aferrou pelo outro bordo. Sem hesitar, o capitão deste, D. Luís de Castelo Branco, mandou pôr fogo ao navio, ao mesmo tempo que a respectiva guarnição saltava para a água.
Apercebendo-se do perigo que corria, a Vlissingen tentou desaferrar, mas, antes que o conseguisse, pegou fogo e explodiu. O São Bartolomeu e a Gravenhage arderam até à linha de água. Infelizmente, os soldados e marinheiros do primeiro que se lançaram ao mar não puderam ser recolhidos pelos nossos navios de remo, que se encontravam muito sotaventeados, sendo capturados pelas lanchas holandesas.
Na cauda da coluna os combates assumiram uma feição menos dramática, tendo-se limitado, possivelmente, a um duelo de artilharia entre os navios mais pequenos das duas armadas.
Ao cair da noite os portugueses viraram em roda e dirigiram-se para terra, fundeando junto aos ilhéus situados a sul de Mormugão. Os holandeses seguiram-nos à distância e a meio da noite, quando começou a soprar o terral, guinaram para norte, rumo ao seu fundeadouro habitual. Na manhã de 5 de Janeiro, aproveitando o terral e com o auxílio de reboques dos navios de remo, a nossa armada regressou à barra do Mandovi.
Nesta encarniçada batalha os Holandeses perderam duas boas naus, uma de trinta e oito e outra de trinta e quatro peças, bem como dois patachos, e tiveram um número indeterminado de mortos e feridos; os Portugueses perderam somente um pequeno e velho galeão de vinte e quatro peças, embora tenham tido para cima de uma centena de mortos e oitenta prisioneiros que, posteriormente, foram resgatados.
Como é evidente, desta vez a vitória, sob o ponto de vista táctico, pertenceu-nos. Mas sob o ponto de vista estratégico continuou tudo como dantes. Poucos dias depois da batalha Westerwolt recebeu mais duas naus, uma vinda de Surrate e outra do Coromandel, com que colmatou as perdas que sofrera.
Apesar disso o Vice-Rei estava disposto a mandar sair novamente a armada de alto bordo para dar uma segunda batalha aos holandeses. Porém na noite de 8 de Março deflagrou subitamente no galeão Madre de Deus um pavoroso incêndio que provocou a morte de mais de cem portugueses e, provavelmente, de maior número de nativos. Em Goa correu o boato de que o incêndio tinha sido obra de um bombardeiro flamengo da guarnição do galeão que fora visto ir por várias vezes ao porão e depois pedira licença, que lhe foi concedida, para ir visitar um amigo que estava na fortaleza da Aguada. Tenha sido sabotagem ou acidente, o certo é que o galeão ficou inutilizado, o que impediu que a armada de alto bordo pudesse tornar a sair nesse «Verão».
Westerwolt conservou-se na sua posição de bloqueio até 20 de Abril de 1638. Nesta data, estando a «monção» já a fazer-se sentir e sendo evidente que as naus de torna-viagem já não poderiam partir, iniciou a viagem de regresso a Batávia.
Saturnino Monteiro
em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa» (Vol.VI)
Bibliografia:
Queiroz, Padre Fernão de, Vida do Venerável Irmão Pedro de Basto, Oficina de Miguel Deslandes, Lisboa, 1689, p. 315
Sousa, Alfredo Botelho de, Subsídios para a História Militar Marítima da Índia, Ministério da Marinha, Lisboa, 1956, Volume IV, p. 64
Esparteiro, António Marques, Três Séculos no Mar, Ministério da Marinha, Volume IV, 1975, p.8
Boxer, Charles Ralph, Revista «Ethnos», Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia, Lisboa, 1942, Volume II, p.33
Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa
Página principal da A.N.C.
Coloque aqui o seu correio, sugestões, ou informações.