
Apesar dos sucessivos êxitos militares que a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais vinha alcançando no Brasil desde 1633 e do grande número de caravelas carregadas de açúcar que todos os anos conseguia capturar, os seus directores não estavam satisfeitos. As despesas que eram obrigados a fazer com a guerra eram muito superiores às receitas resultantes do comércio e do corso e, a manter-se a situação, a Companhia seria levada em poucos anos à falência. Para resolverem o problema, a solução que lhes pareceu melhor foi fazer um esforço militar supremo no sentido de conquistar a Baía e expulsar definitivamente os Portugueses do Brasil.
No âmbito dessa estratégia escolheram para governador-geral do Brasil Holandês o príncipe João Maurício de Nassau, pessoa excepcionalmente culta, inteligente e dotada de apreciáveis capacidades administrativas e militares, que chegou ao Recife em Janeiro de 1637.
Com as forças que levou e com as que lhe foram sendo enviadas da Holanda, Maurício de Nassau deu imediatamente início a uma série de operações por terra e por mar, em resultado das quais os Portugueses foram decisivamente derrotados e empurrados para sul do rio São Francisco. Isso permitiu-lhe restabelecer a ordem e reactivar a produção de açúcar na capitania de Pernambuco. Para resolver o problema da falta de escravos negros que se fazia sentir organizou uma segunda expedição destinada à conquista da nossa fortaleza de São Jorge da Mina, com base na qual controlávamos o comércio de escravos no golfo da Guiné. Desta vez os Holandeses foram melhor sucedidos. A 28 de Agosto de 1637, após uma defesa frouxa, a fortaleza rendeu-se. Em Dezembro do mesmo ano, uma outra expedição ida do Recife ocupou a cidade de Fortaleza, o que colocou também a capitania do Ceará sob o controlo dos Holandeses.
Animado por todos estes êxitos preliminares, em Abril de 1638 Maurício de Nassau decidiu-se a ir atacar a Baía na convicção de que a sua conquista seria o golpe de misericórdia no domínio português no Brasil. Mas desta vez os Fados não lhe foram propícios. Após um mês de cerco, que culminou com um assalto desesperado na noite de 17 para 18 de Maio, os holandeses foram repelidos, deixando no terreno duzentos e trinta e sete homens mortos de um efectivo total de três mil e seiscentos.
Regressado ao Recife, Maurício de Nassau viu-se obrigado a confinar a sua acção aos problemas administrativos enquanto aguardava a chegada de novos reforços vindos da Holanda. Diga-se de passagem que durante o seu governo o Brasil Holandês conheceu um surto de desenvolvimento económico, social e cultural notável.
Ao ter conhecimento dos progressos que os Holandeses estavam fazendo na conquista do Brasil e da concentração de tropas e de navios que estava a ter lugar no Recife com vista a um ataque à Baía, o conde-duque de Olivares, logo na Primavera de 1637, portanto um ano antes de o referido ataque se ter materializado, ordenou que fosse organizada novamente uma grande armada destinada a ir expulsar definitivamente os Holandeses do Brasil e, de uma vez por todas, acabar com uma guerra que estava arruinando Portugal e obrigando a Espanha a dispersar as suas forças. Curiosamente, desta vez, a estratégia operacional espanhola apresenta a novidade de incluir uma significativa componente naval. A projectada armada de socorro ao Brasil não se destinava unicamente, como as anteriores, a transportar tropas mas também a ficar lá, disputando o domínio do mar aos Holandeses até à sua expulsão definitiva.
Só que a sua organização não foi fácil. Tanto em Portugal como em Espanha faltava o dinheiro, o nervo da guerra, e sem ele não era possível arranjar capitães e soldados experientes nem obter os inúmeros artigos indispensáveis para aprovisionar os navios. Para acelerar o aprontamento da armada a esquadra de Castela foi mandada para Lisboa, onde se juntou à de Portugal. Mas, apesar da pressa dada por Olivares, aquele foi-se arrastando, só ficando concluído em finais de 1638, mesmo assim com grandes deficiências. Uma parte apreciável dos mantimentos embarcados, sobretudo nos navios portugueses, encontravam-se deteriorados, as armas e munições eram em número insuficiente e os soldados que lhes foram metidos a bordo, na sua maioria, só de soldados tinham o nome, já que eram simplesmente camponeses arrebanhados à força ou malfeitores retirados das cadeias.
Felizmente, como foi dito atrás, mesmo sem socorros do Reino a guarnição e os moradores da Baía haviam sido capazes de repelir o ataque holandês à cidade, fazendo voltar a situação militar ao ponto morto anterior.
Para comandar a armada do Brasil começou por ser inicialmente escolhido o conde de Linhares. Porém, tendo caído em desgraça na sequência dos motins de Évora, foi substituído por D. Fernando Mascarenhas, conde da Torre e antigo governador de Ceuta e Tânger. De notar que foi esta a primeira vez que o comando de uma grande armada luso-espanhola foi entregue a um fidalgo português, o que aliás se justificava plenamente por ter sido também esta a primeira vez em que a participação portuguesa era maior que a espanhola.
Tendo desde logo constatado as enormes carências que afectavam todos os navios, tanto portugueses como espanhóis, procurou o conde da Torre remediá-las, dirigindo sucessivas exposições não só à Vice-Rainha de Portugal, mas também directamente à Corte de Madrid. Tal atitude não agradou a nenhuma delas, que a tomaram como uma manifestação de resistência passiva destinada a protelar indefinidamente a saída da armada. E para cortar o mal pela raiz deram-lhe ordens categóricas para se fazer imediatamente ao mar com a esquadra portuguesa e deixar em Lisboa a esquadra espanhola que, uma vez concluído o seu aprontamento, se lhe iria juntar em Cabo Verde. Bem protestou D. Fernando, argumentando que uma prolongada estadia em Cabo Verde faria adoecer muita gente e que dividir logo de início as suas forças era uma medida estratégica incorrecta. Mas de nada lhe valeram os seus protestos. Compreendendo que se continuasse a opor-se às ordens reais acabaria por ser demitido do cargo e preso, largou do Tejo a 7 de Setembro de 1638 com a esquadra portuguesa, rumo a Cabo Verde.
Era esta composta por 3 galeões grandes, 5 pequenos e 1 patacho, acompanhados por 14 navios mercantes, entre naus, urcas e caravelas, em que ia embarcada parte da tropa destinada ao Brasil. As guarnições de todos estes navios totalizavam cerca de 1200 marinheiros e artilheiros e 3300 soldados. A esquadra espanhola, que só viria a largar de Lisboa a 29 de Setembro, era composta por 2 galeões grandes, 4 galeões pequenos e 2 urcas, além de outras 6 urcas e 1 patacho de particulares. As suas guarnições ascendiam, aproximadamente, a 950 homens de mar e 1900 de guerra. No conjunto das duas esquadras, a armada do conde da Torre compreendia 14 galeões e 3 urcas de guerra e 21 transportes, ao todo 38 navios, em que iam embarcados cerca de 7500 homens. Sem dúvida a maior armada que até então tinha sido enviada para o Brasil.
A esquadra portuguesa chegou a Cabo Verde a 16 de Outubro. Como D.Fernando previra, durante o tempo que ali permaneceu morreu-lhe e adoeceu-lhe muita gente. A esquadra espanhola chegou a 5 de Novembro. A 29 partiram juntas para o Recife, onde chegaram a 10 de Janeiro de 1639 com falta de alguns navios que se tinham desgarrado durante a travessia das calmas equatoriais e a maior parte dos marinheiros e soldados muito depauperados pelas doenças e pela má qualidade da água e dos alimentos que lhes eram fornecidos.
A intenção do conde da Torre era, logo à chegada, travar uma batalha naval com os holandeses, se a sua armada saísse a defrontá-lo, e, seguidamente, desembarcar as tropas que levava e pôr cerco à cidade do Recife por terra e por mar.
Mas, ao contrário do que esperava, a armada holandesa não saiu a dar-lhe combate pela simples razão de que nessa altura tinha os seus melhores navios a bloquear a Baía. No Recife encontravam-se apenas 13 naus, duas delas já carregadas e prontas para regressar à Europa e as outras praticamente desguarnecidas.
Tendo em conta a falta de água e de mantimentos e o estado geral das suas guarnições, entendeu D. Fernando que não seria prudente desembarcar as tropas nem iniciar o bloqueio do Recife antes de ter ido primeiro à Baía a fim de se recompor do desgaste da viagem e colmatar as falhas do aprontamento efectuado em Lisboa. E, sem mais detença, dirigiu-se para a cidade do Salvador, onde fundeou a 17 de Janeiro, à vista da esquadra holandesa que a estava bloqueando e que se afastou para o largo quando a luso-espanhola apareceu.
![]() Paraíba 1640 |
De acordo com as ordens que levava, o conde da Torre entregou o comando da armada a outro fidalgo, desembarcou e assumiu o cargo de governador-geral do Brasil, começando logo a trabalhar afincadamente na reorganização da armada que levara e do exército do Brasil com vista à expulsão dos Holandeses de Pernambuco no mais curto prazo possível. Mas, apesar de todos os seus esforços, a dita reorganização avançava a passo de caracol. Como é evidente, a cidade da Baía não podia estar preparada para, de um momento para o outro, alimentar mais sete mil bocas nem carenar, reparar e reabastecer ao mesmo tempo trinta e oito navios. Além disso, era do conhecimento público que a armada tinha levado muito pouco dinheiro e, por isso, ninguém estava disposto a fornecer-lhe fosse o que fosse a crédito. |
Compunha-se agora a armada de nada menos de 82 navios: 13 galeões, 7 urcas e 1 patacho, todos de guerra, 27 transportes e 34 navios ligeiros, estes últimos mobilizados no próprio Brasil. As tropas de desembarque ascendiam a 5000 homens.
Tendo encontrado à saída da Baía vento NE a armada viu-se forçada a efectuar um longo bordo para o mar, rumo a SE,que a fez descair até à latitude de 18º 30' S. A 1 de Dezembro, tendo apanhado o alísio de SE, pôde navegar com vento largo para norte. Mas, ao que parece, ao chegar à latitude dos 12º 00' voltou a apanhar a monção de NE, o que a obrigou a fazer um bordo para terra, rumo a NW. No dia 16 foi avistada a costa pela proa nas proximidades de Alagoas. Continuando o vento a soprar de NE os pilotos aconselharam o conde da Torre a fundear para não ter que fazer novo bordo para o mar e, consequentemente, voltar a descair para sul. Concordou aquele e mandou fazer os sinais necessários para o efeito. Mas os capitães de alguns dos galeões fizeram de conta que não os viram e viraram no bordo do mar, possivelmente convencidos de que em vez de fundear seria possível progredir para norte fazendo bordos curtos junto a terra. Afinal verificou-se que não tinham razão, porque durante a noite descaíram muito para sul e acabaram por ter de fundear junto a terra mas já fora da vista do grosso da armada.
Tendo ficado subitamente com a sua força de galeões reduzida a pouco mais de metade, devido à indisciplina dos respectivos capitães, viu-se o conde da Torre na necessidade de continuar fundeado durante oito dias à espera que aparecessem. Por fim resolveu ir procurá-los, começando a navegar para sul com todos os navios que tinham ficado consigo. Alguns daqueles apareceram e retomaram os seus lugares na armada; outros foram encontrados mas voltaram a desgarrar-se, não sabemos se por falta de qualidades náuticas se por má vontade dos seus capitães. E com tudo isso se perdeu outra semana.
Não podendo esperar mais, D. Fernando, depois de ouvido o conselho dos principais capitães, decidiu prosseguir viagem para o Recife. Continuando a fazer-se sentir o vento de NE, viu-se obrigado a efectuar um segundo bordo para SE até encontrar novamente o alísio que lhe permitiu navegar para norte até às alturas da Paraíba. Voltou então para sul, navegando ao longo da costa, na intenção de desembarcar as tropas a norte de Olinda.
A 12 de Janeiro de 1640, cerca de um ano depois de ter chegado ao Brasil, encontrava-se finalmente a armada luso-espanhola, ao amanhecer, um pouco a norte de Olinda, começando as tropas a passar para as embarcações e para os navios, ligeiros que as haviam de levar até à praia de Pau Amarelo, local escolhido para o desembarque. Inesperadamente o vento saltou para SE, o que tornou a operação impraticável. Essa mesma mudança de vento permitiu que uma armada holandesa de 30 naus, que saíra do Recife na véspera, sob o comando do almirante Loos, pudesse aproximar-se rapidamente da nossa.
Pelas três da tarde os navios holandeses chegaram ao alcance de tiro dos luso-espanhóis, começando a artilharia a laborar com todo o vigor de parte a parte, com os primeiros mais ao mar e a barlavento dos segundos. Possivelmente por se recordar da sorte que tivera Pater na batalha que travara com Oquendo, em 1631, ao largo dos Abrolhos, Loos dera ordens aos capitães dos seus navios para evitarem o combate à abordagem e procurarem obter a decisão exclusivamente através do uso da artilharia. Por seu lado, o conde da Torre, encontrando-se a sotavento do adversário e não dispondo de navios que lhe permitissem alterar essa situação, nada mais podia fazer do que aceitar a forma de combater por ele escolhida.
No mais aceso da luta o almirante holandês foi atingido por um pelouro que lhe levou a cabeça. Mas a sua morte foi ocultada a fim de não desmoralizar as guarnições dos outros navios. Como de costume neste tipo de acção, todos os navios das duas armadas mais directamente empenhados no duelo de artilharia sofreram avarias mais ou menos graves no aparelho e na mastreação e tiveram um número maior ou menor de mortos e feridos, conforme a sorte de cada um. De positivo sabe-se que uma das naus holandesas, talvez por ser velha e se ter aproximado demais dos navios luso-espanhóis, foi metida no fundo pelo fogo destes. Ao cair da noite os holandeses devem ter-se afastado para o mar e o combate cessou.
Ao outro dia de manhã, 13 de Janeiro, teve lugar um conselho na capitânia holandesa, no qual foi decidido que o vice-almirante Jacob Huyghensz assumisse o comando da armada na vaga deixada pela morte de Loos. Arrumado este ponto, a armada holandesa voltou a aproximar-se da luso-espanhola, dando início a um segundo combate, que nas suas linhas gerais não foi mais que uma repetição do do dia anterior: um demorado duelo de artilharia ou, melhor dizendo, uma série de demorados duelos de artilharia entre os navios que se encontravam mais perto uns dos outros, sempre com os holandeses a barlavento e manobrando por forma a não se deixarem aferrar por qualquer contrário. A armada holandesa perdeu mais uma nau e a luso-espanhola dois navios mercantes, todos eles afundados a tiro de canhão, o que parece demonstrar que pelo menos uma parte dos duelos de artilharia terão sido travados a curta distância.
![]() Mapa das zonas de combate |
Na manhã do dia 14, ao largo da Paraíba, a armada holandesa, que durante a noite fora reforçada com mais cinco naus vindas do Recife, voltou pela terceira vez ao ataque. E mais uma vez teve lugar um prolongado combate de artilharia que durou até ao pôr-do-Sol. A dada altura a vice-almiranta da armada holandesa, tendo ficado com o mastro grande partido, viu-se obrigada a ir fundear perto de terra. No seu encalço foram logo vários navios luso-espanhóis que a aferraram, metendo-lhe dentro para cima de duzentos homens que travaram um terrível combate a tiro de mosquete e à arma branca com a sua guarnição. Vendo-se perdido, o capitão da nau holandesa mandou picar a amarra, começando aquela a descair com o vento e a corrente para cima dos recifes. Temendo encalhar, os capitães dos navios luso-espanhóis que a tinham aferrado mandaram cortar os cabos dos arpéus e afastaram-se antes mesmo de terem recolhido todos os soldados que tinham saltado para o navio inimigo. Vendo isso, António da Cunha de Andrada, capitão da nau portuguesa Chagas, por recear que a nau holandesa se escapasse, resolveu, impensadamente, ir atrás dela. Como seria de esperar, a dita nau encalhou pouco depois nos recifes, começando a desfazer-se e, logo a seguir, a Chagas. As guarnições dos dois navios foram salvas pelos navios ligeiros holandeses que, mais lestos que os nossos, chegaram primeiro ao local. |
No dia 15 não se combateu, sendo o compasso de espera aproveitado por ambas as armadas para tratar dos feridos e reparar as principais avarias sofridas nos combates anteriores. No dia 16, quando os holandeses começaram a aproximar-se dos luso-espanhóis, no intuito de renovar o combate, o vento caiu por completo, ficando as duas armadas encalmadas, ainda fora do alcance de tiro uma da outra.
Tendo feito todos os seus planos para um combate à abordagem no qual pensava vencer definitivamente os holandeses e ganhar o domínio do mar, o que lhe permitiria atacar o Recife quando e como quisesse, via-se agora o conde da Torre manietado por um vento que continuava teimosamente a soprar do sul, empurrando-o, contra sua vontade, para norte, e por um interminável duelo de artilharia que não resolvia coisa nenhuma. Mas muito mais preocupantes que os problemas de ordem estratégica ou táctica eram os problemas de ordem logística. A presença das tropas a bordo durante muito mais tempo do que aquele que havia sido inicialmente previsto estava provocando o rápido esgotamento da água e dos mantimentos dos navios em que se encontravam embarcadas. Daí que a principal preocupação do conde, nesta altura, fosse pô-las em terra o mais depressa possível.
Neste estado de espírito teve lugar mais um conselho a bordo da capitânia luso-espanhola, no qual ficou decidido que o desembarque seria feito no dia seguinte, 17 de Janeiro, de manhã, na baía da Traição e que daí as tropas marchariam por terra para sul, através do território controlado pelos Holandeses, abrindo caminho à força até alcançarem território sob controlo dos Portugueses. Como se vê, uma solução desesperada para uma situação desesperada, resultante sobretudo da incapacidade da armada luso-espanhola para, por falta de velocidade e capacidade de bolina dos seus navios, obrigar a holandesa a um combate à abordagem em que a pudesse se não aniquilar pelo menos obrigá-la a afastar-se.
Mas, mais uma vez, o desembarque previsto não chegou a realizar-se devido à presença de numerosos navios ligeiros holandeses, que os nossos não foram capazes de afugentar e à aproximação da armada de Huyghensz claramente disposta a encetar novo combate.
Cerca das nove horas da manhã do dia 17 de Janeiro os canhões começaram novamente a troar, mantendo-se o panorama geral semelhante aos dos combates anteriores. Arrastadas pelo vento, as duas armadas iam descaindo lentamente para norte, com os navios holandeses sempre a barlavento dos luso-espanhóis, nunca dando azo a que estes os abordassem conforme pretendiam. E, mais uma vez, a armada holandesa perdeu uma nau. Com todos os navios muito destroçados, o combate cessou ao fim da tarde.
No dia 18 os holandeses, provavelmente ainda ocupados em remediar as avarias que haviam sofrido, conservaram-se fora do alcance de tiro dos luso-espanhóis. Durante a noite de 18 para 19, receando ser atirado para cima dos recifes da costa, o conde da Torre meteu à orça e fez um bordo para o mar, rumo a NE ou NNE. Pensou Huyghensz que aquele tinha desistido da luta e que optara por regressar à Europa ou seguir para as Caraíbas. E, como estava também a precisar de fazer aguada, dirigiu-se para o Rio Grande do Norte, onde se conservou até 25 de Janeiro. Nessa data, aproveitando uma oportuna mudança do vento para NE, regressou ao Recife. Aliás, dá a impressão de que durante toda a campanha Eolo esteve sempre, de uma forma escandalosa, do lado dos Holandeses!
Na realidade, o conde da Torre não tinha qualquer intenção de abandonar o Brasil. No dia 20 de Janeiro, tendo conseguido, melhor ou pior, reagrupar a sua armada, fez um bordo para terra e foi fundear na foz do rio de Ceará-Mirim com a intenção de, no dia imediato, deixar ali as tropas. Mas, mais uma vez, as coisas não correram como havia planeado. Durante a noite, provavelmente devido à existência de forte ondulação, alguns galeões partiram as amarras e afastaram-se para o largo, onde ficaram a pairar sob vela, naturalmente descaindo para norte por acção do vento e da corrente. Ao outro dia, quando começou a clarear, D. Fernando fez-lhes sinal para que voltassem para o fundeadouro anterior, o que, provavelmente, mesmo que o quisessem não teriam possibilidade de fazer. A partir daí a armada desagregou-se rapidamente, apesar dos esforços do conde que, tendo passado para um patacho, procurou convencer os navios desgarrados a voltarem para a costa. Os espanhóis recusaram-se abertamente a aceitar as suas ordens, sob pretexto de que a campanha tinha terminado, e seguiram para as Caraíbas, acompanhados por três galeões portugueses, cujos capitães terão achado ser essa a solução mais correcta. Os restantes galeões portugueses e os navios mercantes tomaram o rumo dos Açores. A campanha tinha de facto acabado e o sonho de manter permanentemente uma poderosa armada luso-espanhola no Brasil desfizera-se em fumo.
Entretanto, os navios ligeiros que haviam permanecido junto à foz do rio de Ceará-Mirim tinham posto em terra cerca de 1300 soldados que, sob o comando do mestre-de-campo Luís Barbalho, iniciaram uma portentosa marcha de cerca de mil e quinhentos quilómetros, através do território ocupado pelos holandeses, com os quais travaram numerosos combates, acabando por chegar à Baía, famintos e andrajosos, quatro meses mais tarde! Uma epopeia que nada fica a dever à famosa «Retirada dos dez mil.».
Quanto ao conde da Torre, após a desagregação da armada, seguiu no patacho até perto do equador e daí voltou à Baía, reassumindo as funções de Governador-Geral. E logo em Abril teve de enfrentar um novo ataque holandês contra a cidade, que conseguiu repelir. Em Junho foi substituído pelo marquês de Montalvão e mandado regressar a Portugal para prestar contas do seu governo. Em finais de Setembro desembarcou em Peniche, sendo de imediato preso e encerrado na fortaleza de São Julião da Barra, onde permaneceu até à Restauração.
De toda esta infeliz campanha se poderão tirar, a nosso ver, as conclusões seguintes: a monarquia espanhola, nesta época, já não dispunha dos meios financeiros necessários para manter, com carácter permanente, uma grande armada no Brasil; não existia no Brasil nenhuma base naval capaz de apoiar uma grande armada; mais uma vez ficou demonstrada a pior qualidade dos navios, marinheiros e chefes de mar peninsulares em relação aos seus homólogos holandeses; mais uma vez ficou demonstrado que o combate de artilharia, só por si, não era capaz de conduzir a um resultado decisivo; mais uma vez ficou provado que na Guerra, como em tudo na vida, a Sorte é um factor essencial.
Se o conde da Torre tivesse podido dispor de mais dinheiro, se tivesse encontrado na Baía uma capacidade de apoio logístico semelhante à de Lisboa ou de Goa; se tivesse tido navios capazes de forçarem os holandeses a um combate à abordagem; se, finalmente, tivesse tido um pouco mais de Sorte, é bem possível que acabasse por conseguir fazer melhor do que aquilo que fez.
Saturnino Monteiro
em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa» (Vol.VI)
Bibliografia:
Guedes, Max Justo, História Naval Brasileira, Ministério da Marinha, Rio de Janeiro, Segundo Volume, Tomo IA, 1990, p.228
Duro, Fernández Cesáreo, Armada Española, Museo Naval, Madrid, 1972, Tomo IV, p.132
Quintella, Ignacio da Costa, Annaes da Marinha Portugueza, Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1840, Tomo II, p.332
Revista Trimestral do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro, Rio de Janeiro, 1895, Tomo LVIII, p. 1 (Informação do Comandante Encarnação Gomes)
Boxer, Charles Ralph, The Dutch in Brazil, At the Clarendon Press, Oxford, 1975, pp.89, 93
Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa
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