Associação Nacional de Cruzeiros



BATALHAS E COMBATES
da Marinha Portuguesa

Bloqueio de Goa - Setembro de 1657 a Maio de 1658

Pela nau Bom Jesus da Vidigueira, chegada a Lisboa a 30 de Outubro de 1656, ficaram os governantes portugueses a saber que o conde de Sarzedas tinha morrido e que os Holandeses tinham posto cerco a Colombo mas que haviam sido estrondosamente derrotados, sendo forçados a retirar (o que não era verdade).
Para fazer frente à ofensiva holandesa contra o Estado Português da Índia, decidiram a Regente e os seus ministros tomar a medida que se impunha: a reconstituição da nossa armada de alto bordo da Índia. Para o cargo de Vice-Rei foi nomeado António Teles de Meneses, um dos raros chefes de mar que havia em Portugal, e para capitão-mor da armada de alto bordo Luís de Mendonça Furtado de Albuquerque.
A armada que os levou para a Índia, que deixou Lisboa a 4 de Abril de 1657, era constituída por uma nau, dois galeões e uma caravela de particulares. Durante a viagem faleceu António Teles de Meneses. A armada toda junta, o que era caso raro, chegou a salvamento a Mormugão a 5 de Setembro e à barra do Mandovi dois dias mais tarde.
Entretanto, em Batávia, haviam sido gizados grandes planos para assestar novo golpe no Estado Português da Índia. Considerando que era muito arriscado atacar Goa, cuja posição era particularmente forte e onde os Portugueses ainda tinham muita gente, o governador-geral das Índias Holandesas optou pela conquista de Diu. Pensava ele que, uma vez senhores de Diu, os Holandeses não só ficariam dispondo de uma excelente base que lhes permitiria controlar o comércio marítimo do golfo de Cambaia e as linhas de navegação para a Pérsia como também poderiam transferir para lá a feitoria que tinham em Surrate, libertando-a da dependência dos Mogores. Era na realidade um excelente plano sob o ponto de vista estratégico, tanto mais que, após a conquista de Colombo, os Portugueses tinham as suas atenções voltadas para o Sul.
Para comandante-em-chefe da operação foi escolhido Van Goens, o mesmo que em 1654 havia aniquilado a nossa armada de alto bordo na costa do Canará. No comando da armada, que constituía a peça fundamental do plano, continuou Adriaan Roothaas.
Largando de Batávia bastante mais cedo do que era habitual, conseguiu este chegar a Goa com as suas nove naus e alguns brulotes a 9 de Setembro de 1657 na intenção de, em primeiro lugar, capturar todos os navios vindos do Reino, seguidamente, aguardar a chegada de Van Goens, que partira de Batávia mais tarde, e, por último, ir com ele à conquista de Diu, deixando apenas quatro ou cinco naus a bloquear Goa. Para não espantar a caça, conservou a armada fora da vista de terra, ao mesmo tempo que mandava De Bieter a Vingurla, com três naus, a fim de colher informações. A 15 de Setembro regressou aquele com a desagradável notícia de que três naus do Reino, aliás uma nau, dois galeões e uma caravela, tinham chegado a 7! Foi na verdade uma sorte incrível para os Portugueses. Se tivessem chegado dois dias mais tarde, o que não é nada numa viagem de cinco meses, teriam sido apanhadas por Roothaas!
Tendo falhado no seu primeiro objectivo, resolveu aquele continuar fora da vista de terra com o grosso da armada, para melhor iludir os Portugueses, enquanto aguardava a chegada de Van Goens. Para perto da costa mandou apenas duas ou três naus que por diversas vezes escaramuçaram com as nossas armadas de remo sem resultados significativos. Pouco depois, por informações recebidas de Vingurla, ficou a saber que os Portugueses estavam a organizar em Goa, sob a supervisão de Furtado de Albuquerque, uma nova armada de alto bordo constituída por dez navios.
Esses navios seriam, possivelmente: o galeão São Tomé, ido do Reino em 1654; a nau Santíssimo Sacramento da Trindade, ida do Reino em 1655 com o conde de Sarzedas; a nau Bom Jesus do Carmo, ida do Reino em 1656; a nau Bom Jesus da Vidigueira, o galeão Santa Maria de Ajenga e o galeão São Lourenço da armada de António Teles de Meneses, acabados de chegar; o galeão São João e São Jacinto, a nau Santo António da Esperança, a nau São Francisco e o patacho Nª Sª dos Remédios, construidos na Índia ou idos para lá em anos que não conseguimos apurar.
A 17 de Novembro, depois de uma viagem tormentosa, chegou Van Goens com mais três naus, três patachos e uma galeota, transportando um pequeno exército de seiscentos soldados holandeses e oitenta amboínos. Posto ao corrente da situação, viu-se obrigado a desistir da ida a Diu, uma vez que para isso teria que desfalcar a armada de Roothaas, o que não era aceitável dada a força da armada de alto bordo portuguesa que se estava organizando em Goa. Ao contrário do que havia sido planeado, não só não recebeu qualquer auxílio de Roothaas mas, muito pelo contrário, se viu na necessidade de ter de lhe deixar uma centena de soldados para reforçar as guarnições dos seus navios. Foi então decidido que a armada holandesa se aproximasse de terra e bloqueasse estreitamente Goa a curta distância. Feito isto, Van Goens despachou duas naus para a Pérsia e com os restantes navios voltou a Ceilão, a fim de combinar com Van der Meyden a melhor forma de aproveitar as tropas de que dispunha.
Tal como acontecera em bloqueios anteriores, a presença dos navios holandeses ao largo de Goa não impediu que várias «cáfilas» de navios de remo tivessem entrado e saído a salvamento, cosidas com a terra.
A 5 de Janeiro de 1658 preparou-se a armada de alto bordo portuguesa para sair para o mar, o que não chegou a acontecer por Bartolomeu de Vasconcelos, comandante da Bom Jesus do Carmo, se ter recusado a fazê-lo, ao saber que as funções de almirante seriam desempenhadas por António Pereira, que era apenas um capitão-de-mar-e-guerra, ou seja, um homem do mar a quem, não sendo fidalgo, havia sido confiado o comando de uma nau ou galeão de guerra, neste caso a Santo António da Esperança. Também D.Manuel Lobo da Silveira, comandante do galeão São João e São Jacinto, se demitiu do cargo, ao que parece, pelo mesmo motivo. Era, mais uma vez, a arrogância, a vaidade e a estupidez dos nossos fidalgos a comprometer todo o trabalho e a enorme despesa que haviam sido consagrados à organização da armada. Em resultado dos incidentes referidos, a saída desta teve de ser adiada.
Finalmente, a 13 de Janeiro, depois de substituídos à última hora os dois comandantes recalcitrantes, os navios portugueses fizeram-se ao mar, ao romper do dia e a favor do terral, em demanda dos holandeses. Estes suspenderam, parecendo a todos que a batalha estava iminente. Mas, no último instante, sobreveio um forte temporal que obrigou ambas as armadas a regressarem aos seus fundeadouros anteriores. Em resultado do mau tempo afundaram-se os dois ou três brulotes que os holandeses tinham consigo.
Reparadas as avarias produzidas pelo temporal, a armada portuguesa voltou a sair ao amanhecer do dia 20 de Janeiro, novamente a favor do terral. Quando se aperceberam da situação, os holandeses suspenderam e principiaram a fugir à sua frente para oeste.
As naus holandesas, à excepção da capitânia (Phenix), eram bastante mais pequenas que as nossas, mas, em contrapartida, eram mais andejas, bolinavam melhor e estavam mais bem artilhadas. Em conjunto, os navios holandeses dispunham de 335 canhões, ao passo que os portugueses dispunham somente de 322 e, ainda por cima, de menor calibre. Nestas condições é evidente que convinha aos holandeses evitar a todo o custo o combate à abordagem, em que os navios portugueses teriam vantagem, por terem castelos mais altos e guarnições mais numerosas, e procurar dirimir a contenda através de um duelo de artilharia travado à distância mais conveniente. Por isso, encontrando-se a sotavento dos nossos, não hesitaram em correr à sua frente enquanto se manteve o terral.
Durante esta fase do combate a nau Santíssimo Sacramento, que era mais veloz que os restantes navios portugueses quando a navegar de vento em popa, adiantou-se consideravelmente em relação a eles, conseguindo mesmo ganhar terreno em relação às duas naus holandesas mais ronceiras. Vendo isso, Roothaas atravessou a Phenix e ficou à espera dessas naus que passou a acompanhar. Pouco depois a nossa capitânia abria fogo com os canhões das amuras, a que as três naus holandesas responderam com os da popa. Deste duelo de artilharia, travado a grande distância e com um pequeno número de bocas de fogo, nada resultou. Pelas dez horas o vento começou a enfraquecer, o que permitiu aos navios holandeses, mais leves que os portugueses, afastarem-se destes. Pouco depois caía por completo, ficando ambas as arma-das imobilizadas, fora do alcance de tiro.
Durante o período de calma é de supor que as seis galeotas que acompanhavam a nossa tenham sido aproveitadas para rebocar as naus e os galeões que estavam mais atrasados em relação aos outros. Vinda a viração de NW, é provável que os navios portugueses tenham posto a proa a SW. Os holandeses devem ter feito o mesmo e tentado aproximar-se daqueles por barlavento a fim de dar início ao duelo de artilharia. Mas o estado de desorganização em que se encontrava a armada holandesa não deu tempo a que Roothaas levasse por diante este desígnio. Pelas quatro da tarde os navios portugueses viraram de bordo e voltaram para terra, movimento este que foi de imediato imitado pelos holandeses. Entretanto caiu a noite, deixando as duas armadas de se avistarem. Dentro de qualquer delas também os diversos grupos que as constituíam se perderam de vista uns dos outros, o que aumentou ainda mais a confusão, tornando-se muito difícil distinguir os amigos dos inimigos.

Bloqueio de Goa - 1657/1658
Armadas a 20/21 de Janeiro

Continuando a tentar aproximar-se dos navios portugueses para os atacar com a artilharia, Roothaas acabou, provavelmente sem o desejar, por se misturar com eles. O São Tomé teve que se desviar para não abalroar com duas naus holandesas que repentinamente se lhe atravessaram na proa, o que deu lugar a uma fugaz troca de tiros. A Santo António viu passar-lhe à proa outras duas naus, a Phenix e a Zierikzee. Com grande presença de espírito António Ferreira procurou aproveitar a oportunidade para aferrar a segunda, mandando atirar-lhe um arpéu para a alheta de EB. Mas, com a velocidade que a nau holandesa levava, o cabo do arpéu partiu-se enquanto o gurupés da Santo António lhe varria a popa e lhe arrancava a bandeira! No mesmo instante era a nossa nau abalroada por BB pela Weesp, que vinha a navegar nas águas das outras duas e que não teve possibilidade de se desviar. Pelos vistos, não houve tempo de lançar arpéus e com a pancada os dois navios afastaram-se um do outro. Travou-se então um furioso duelo de artilharia às escuras e a curta distância entre a Santo António e as três naus holandesas, de que resultaram estragos e baixas de parte a parte, comportando-se o nosso almirante não só com grande valentia mas dando também mostras de grande perícia na manobra do navio.

Bloqueio de Goa - 1657/1658
Combate com a nau Santo António

Tendo descaído para sotavento, os navios holandeses acabaram por se afastar. A Bom Jesus do Carmo também trocou tiros com uma nau holandesa que passou perto dela. Várias naus holandesas canhonearam-se entre si! Quando, por volta da meia-noite, começou a soprar o terral é de presumir que os navios portugueses tenham fundeado, enquanto os holandeses se afastavam para o mar. Na manhã de 21 devem os nossos, a reboque das galeotas e dos batéis, ter sido levados para mais perto da Aguada. Neste primeiro combate ambas as armadas sofreram danos ligeiros e tiveram meia dúzia de mortos e uma ou duas dezenas de feridos.
Tendo chegado à conclusão que o patacho não tinha qualquer utilidade, Furtado de Albuquerque mandou-o desarmar, distribuindo a sua guarnição pelos restantes navios.
A 27 de Janeiro a armada portuguesa voltou a fazer-se ao mar. Desta vez Furtado de Albuquerque, aproveitando-se inteligentemente da experiência adquirida na saída anterior, deixou o fundeadouro da Aguada ainda de noite e seguiu para norte, junto à costa, a favor do terral. Quando começou a clarear e se apercebeu da situação, é provável que Roothaas tenha tentado também dirigir-se para norte. Mas, nesse dia, o.terral era muito fraco e extinguiu-se pouco depois do nascer do Sol, deixando as duas armadas imobilizadas durante todo o resto da manhã. De tarde, quando começou a soprar a viração, os portugueses, graças à hábil manobra do seu capitão-mor, encontravam-se francamente a barlavento dos holandeses, sobre os quais arribaram em cheio. Tal como acontecera com o terral, também a viração se mostrou fraca e irregular, soprando com mais força na zona onde estavam os navios portugueses do que naquela onde se encontravam os holandeses.

Bloqueio de Goa - 1657/1658
Armadas a 27 de Janeiro

Daí resultou o facto insólito de, ao contrário do que era habitual, os nossos navios estarem a andar mais que os do adversário. Isso obrigou Roothaas, para não ser abordado, a meter a rumo sul. No entanto, os portugueses, vindo a navegar mais a norte e mais ao largo, continuaram a desfrutar de melhor vento e a ganhar terreno. Era evidente que, a manter-se a situação, dentro de pouco tempo os navios holandeses iriam ficar entalados entre os nossos e a costa sem terem possibilidade de evitar um combate generalizado à abordagem em que o mais certo era serem aniquilados. O velho sonho, acalentado pelos Portugueses durante sessenta anos, de um dia serem capazes de obrigar os Holandeses a travar com eles uma batalha naval nos moldes em que a concebiam parecia, enfim, prestes a concretizar-se! Porém, como seria de esperar, à medida que os nossos navios se aproximavam dos do inimigo, passavam a ter menos vento e, consequentemente, a perder velocidade.
Na corrida para sul a nossa capitânia, que fora na dianteira no bordo inicial para norte, ia agora num dos últimos lugares. Parecendo a Furtado de Albuquerque que os navios portugueses mais adiantados já teriam possibilidade de aferrar os holandeses mais atrasados, mandou disparar um tiro de pólvora seca na sua direcção para os incitar a fazê-lo. Mas o sinal foi mal interpretado pelos capitães dos navios em causa. Pensando que se tratava de uma ordem para esperar pela capitania ... atravessaram, isto é, colheram o pano e ficaram parados ou com muito pouco seguimento! Aproveitando a sota que lhes caía do céu, os holandeses orçaram e afastaram-se rapidamente para o mar. Consequências de nesta época não haver ainda, pelo menos na nossa Marinha, um regimento de sinais por meio de bandeiras.
Este incidente viria a dar azo a acerbas recriminações entre o capitão-mor e os capitães dos navios envolvidos, que vieram agravar ainda mais a falta de coesão existente entre os comandos da nossa armada. Durante a noite, com o terral, ambas as armadas devem ter seguido para norte, a portuguesa junto a terra, a holandesa mais ao mar.
Durante o dia 28 não houve vento, o mesmo acontecendo na manhã de 29. Na tarde deste dia apareceu, finalmente, a habitual viração de NW. Desejoso de retomar a iniciativa, Roothaas, que devia encontrar-se ainda a sul da sua posição habitual, foi ao encontro da armada portuguesa com os seus navios formados em coluna, vento largo e amuras a BB. A nossa armada vinha em sentido oposto, possivelmente com os navios numa coluna irregular, navegando à trinca com amuras a EB. As duas cruzaram-se a contra-bordo, a uma distância média, passando os holandeses, como é óbvio, a barlavento. De um e outro lado troaram os canhões mas, em razão da distância, sem qualquer efeito apreciável.

Bloqueio de Goa - 1657/1658
Posições das armadas a 29 de Janeiro

Depois de ter ultrapassado a coluna portuguesa é de supor que Roothaas tenha virado em roda por movimentos sucessivos, preparando-se para se colocar novamente a barlavento dos portugueses e seguir, paralelamente a eles, para o mar. Mas os nossos viraram também de bordo, talvez por movimentos simultâneos, do que deve ter resultado ficarem as duas armadas sensivelmente aproadas uma à outra. Receando, como sempre, o combate à abordagem, Roothaas viu-se forçado a arribar francamente e a fugir para sul. Foram os portugueses no seu encalço mas, ao entardecer, constatando que não conseguiam reduzir a distância aos holandeses, desistiram de os perseguir e voltaram para o seu-fundeadouro habitual.
Entretanto, aproveitando o facto de a armada holandesa se ter afastado para norte e estar empenhada no combate com a nossa, tinha saído um patacho com destino a Moçambique e outro com destino a Macau.
Nos dias que se seguiram o panorama não se alterou: de manhã, quando a armada portuguesa pretendia aproximar-se da holandesa a favor do terral, esta afastava-se para o mar; de tarde, quando vinha a viração, era a holandesa que se aproximava da nossa mas tendo o cuidado de se conservar sempre a barlavento e a uma distância razoável; travava-se então um duelo de artilharia, com os navios bastante afastados uns dos outros, que para pouco mais servia do que para gastar pólvora e dar treino de carregamento aos artilheiros.

Bloqueio de Goa - 1657/1658
Posições das armadas a 3 de Fevereiro

Na manhã de 3 de Fevereiro, ao contrário do que era habitual, o vento começou logo de manhã a soprar de NNW. Vindo a armada portuguesa, como de costume, em busca da holandesa, Roothaas, desta vez a barlavento, resolveu ir ao seu encontro. Mas pouco depois o vento rondou para NE, passando a ficar a favor dos nossos. Tentou o almirante holandês emendar a mão virando em roda no intuito de se afastar para o mar. Mas, nessa altura, a Santíssimo Sacramento e a São Francisco, que já se encontravam relativamente perto, abriram fogo sobre a Phenix e outras duas naus que estavam junto dela, provavelmente a Zierkzee e a Weesp. Travou-se então um furioso duelo de artilharia e mosquetaria a curta distância entre as cinco naus, que se prolongou durante mais de três horas. Tendo caído o vento logo após os primeiros disparos, não foi possível aos restantes navios de qualquer das armadas aproximarem-se do local da acção. Pela uma hora da tarde, quando começou a soprar a viração, já as duas capitânias se encontravam com muitos mortos e feridos e o aparelho destroçado. Procurando reunir-se aos seus navios, Furtado de Albuquerque seguiu no bordo da terra. Roothaas foi após ele mas a uma distância considerável. Ao entardecer ambas as armadas regressaram aos seus fundeadouros.
Em resultado das avarias sofridas pela Santíssimo Sacramento e, em menor escala, pela São Francisco, a armada portuguesa permaneceu inactiva durante cerca de dois meses. Entretanto, foi-lhe retirada a nau Bom Jesus do Carmo, que começou a aprontar para seguir para o Reino logo que surgisse uma oportunidade.
A 1 de Março, com a viração, a armada holandesa, que já se havia recomposto das avarias que sofrera, passou relativamente perto da nossa, disparando alguns tiros de pólvora seca em sinal de desafio. Mas Furtado de Albuquerque não pôde aceitar o repto por não terem ainda terminado as reparações de que a Sacramento carecia.
A 28 de Março de 1658, estando estas concluídas, Furtado de Albuquerque fez nova saída, na disposição de levar o combate até às últimas consequências. Para quem o quis ouvir declarou alto e bom som que se os holandeses continuassem a fugir os havia de perseguir nem que fosse até Batávia e que se quisessem combater os havia de desbaratar! Para compensar a retirada da Carmo, o número de galeotas designadas para acompanhar a armada de alto bordo havia sido aumentado de seis para treze, o que aliás pouco adiantava.
Dando mais uma vez prova de invulgar imaginação e sentido táctico, o nosso capitão-mor voltou a deixar o fundeadouro durante a noite e, a favor do terral, dirigiu-se directamente para o fundeadouro do inimigo na intenção de cair sobre ele ao amanhecer antes que tivesse tempo de se afastar para o largo. A armada holandesa, como de costume, encontrava-se dividida em três esquadras de três navios cada uma: a de Roothaas diante da Aguada, a de Jansen um pouco mais a sul e a de Van Leenen um pouco mais a norte. Quando começou a clarear já a Santíssimo Sacramento, que vinha adiantada em relação aos restantes navios, se encontrava relativamente perto da Phenix. Desta vez Roothaas não fugiu, ficando com as outras duas naus da sua esquadra à espera da nossa capitânia. Continuando esta a avançar, chegava pouco depois à distância de tiro. No entanto, ao contrário do que o almirante holandês esperava, neste combate de três contra um, quem levou a melhor foi a nossa capitânia, que logo à primeira salva provocou estragos consideráveis na Phenix, o que obrigou Roothaas a fazer sinal às outras duas esquadras para que se viessem juntar a ele. Entretanto, aproveitando os últimos sopros do terral, Furtado de Albuquerque esforçava-se por aferrar a Phenix, o que não conseguiu por esta se ter afastado a reboque das lanchas. Durante o período da calma o combate prosseguiu com grande empenhamento, apesar de os navios se encontrarem imobilizados.
Além da Santíssimo Sacramento, só a Bom Jesus da Vidigueira tinha conseguido entrar em acção antes de o vento cair. Porém, quando se preparava para aferrar uma nau holandesa, deixou de o fazer por ter sido disparado pela capitânia, na sua direcção, um tiro de pólvora seca que interpretou como sendo uma ordem para se juntar a ela. Mais uma oportunidade perdida por falta de um regimento de sinais adequado.
Vinda a viração as duas armadas começaram a movimentar-se rumo a SW, embora com grande dificuldade por ambas as capitânias se encontrarem bastante avariadas e já terem perdido muita gente. Não se vislumbrava qualquer espécie de formatura, encontrando-se os navios, tanto de uma como de outra, isolados ou reunidos em pequenos grupos de dois ou três. Como seria de esperar, do lado dos portugueses a desorganização ainda era maior que do lado dos holandeses. Foi nesta altura que o São Tomé, que se encontrava isolado e mais a barlavento, foi em perseguição da Vlieland na intenção de a aferrar. Refugiou-se esta no meio das outras e em pouco tempo o nosso galeão ficou rodeado por naus holandesas sem que os outros navios portugueses lhe pudessem acudir por se encontrarem a sotavento dele. Alvejado furiosamente de todos os quadrantes, o São Tomé teve muitos mortos e feridos e ficou com o aparelho desfeito. A dada altura, um pelouro levou a cabeça do capitão, o valente Francisco Gomes da Silva. Pouco depois, faltando-lhe o apoio da enxárcia, caía o mastro grande, com tanta infelicidade que as respectivas velas se incendiaram em contacto com uma reserva de morrões acesos que estava no convés. Com os pavimentos exteriores a serem varridos pelo fogo da mosquetaria inimiga, não puderam os nossos marinheiros acudir a tempo ao incêndio. As chamas foram alastrando e o São Tomé, transformado num archote, teve de ser abandonado. Uma parte da sua guarnição morreu afogada, outra foi salva pelas lanchas holandesas e somente uma fracção mínima foi salva pelas nossas galeotas, que não se puderam aproximar muito por causa do fogo da artilharia inimiga.
Após a perda do São Tomé a armada portuguesa ficou reduzida a sete unidades, além das galeotas, face às nove holandesas. Nestas condições e, por certo, por ter também o seu navio muito avariado, Furtado de Albuquerque resolveu pôr fim ao combate e, virando de bordo, foi ao encontro dos outros navios da sua armada que tinham ficado para trás, após o que se dirigiu para o fundeadouro da Aguada. Seguiu-o Roothaas com as três naus da sua esquadra para mostrar que tinha sido o vencedor. Mas logo Furtado de Albuquerque, acompanhado pela São Francisco, atravessou e ficou à sua espera. Tendo também sofrido muitos estragos e baixas, não estava o almirante holandês disposto a travar novo combate. Por isso tornou a virar e afastou-se.
Dizem os cronistas que no final da batalha os navios holandeses estavam praticamente sem munições e que se os portugueses tivessem voltado a sair os teriam derrotado facilmente. Não nos parece que isso pudesse ter acontecido, uma vez que, dada a sua maior velocidade e capacidade de bolina, os holandeses, mesmo que não estivessem em condições de travar um duelo de artilharia, poderiam sempre evitar o combate à abordagem.
O certo é que até ao fim do «Verão» a armada portuguesa, por causa das reparações a fazer na Sacramento, não voltou a deixar o fundeadouro. Também não surgiu qualquer oportunidade que permitisse a partida da Bom Jesus do Carmo para Portugal. A 14 de Abril de 1658, estando a «monção» prestes a começar, esta nau desarmou, ao mesmo tempo que a armada de alto bordo iniciava os preparativos para invernar. Quatro navios foram levados para Mormugão; os restantes foram sendo levados a um e um para Panelim. Vendo isso, Roothaas começou também a despachar os seus navios para locais diversos. A 18 seguiu ele próprio para Ceilão, deixando somente quatro naus diante de Goa sob o comando de Van Leenen.
Tentaram os portugueses aproveitar o afrouxamento do bloqueio para fazerem seguir para o Norte uma «cáfila» de vinte navios de mercadores, escoltada pelas treze galeotas que tinham andado com a armada de alto bordo. Mas as naus holandesas acorreram de pronto e com o fogo da sua artilharia obrigaram os nossos navios a refugiarem-se no rio de Chaporá, donde mais tarde regressaram a Goa. A 2 ou 3 de Maio de 1658 as últimas naus holandesas desapareceram, sendo substituídas pela «monção».
Os combates que acabamos de descrever e que ocorreram ao largo da barra de Goa entre 20 de Janeiro e 28 de Março de 1658 constituem, no seu conjunto, a última grande batalha que Portugueses e Holandeses travaram no mar. Nela perdemos um galeão e tivemos cerca de cem mortos e de duzentos feridos. Os Holandeses não perderam nenhum navio mas tiveram, tal como nós, um elevado número de mortos e feridos.
Nas suas linhas gerais, os referidos combates desenrolaram-se sensivelmente nos mesmos moldes de tantos outros que haviam sido anteriormente travados. Dispondo de navios mais lentos e piores de bolina que os dos Holandeses, nunca foi possível aos Portugueses infligir-lhes uma derrota decisiva por intermédio de um combate à abordagem. Por seu turno, os Holandeses também não foram capazes de alcançar uma vitória conclusiva devido à pouca eficácia da artilharia da época. De qualquer forma, a vitória, sob o ponto de vista estratégico, pertenceu-lhes indiscutivelmente, uma vez que conseguiram impedir a saída da nau de torna-viagem, que era um dos principais objectivos do bloqueio de Goa.
Um aspecto que nos parece ser de salientar em relação aos combates da barra de Goa de 1658 é a forma como actuou Furtado de Albuquerque que, ao contrário do que tinham feito os seus antecessores no comando da armada de alto bordo, não se limitou a vituperar o inimigo por fugir sistemáticamente ao combate à abordagem, mas antes procurou, por meio de bem concebidas manobras tácticas, criar as condições para que tal tipo de combate fosse possível. O facto de não o ter conseguido não lhe tira o mérito. A nosso ver, Luís Mendonça Furtado de Albuquerque terá sido um dos mais notáveis chefes de mar que os Portugueses tiveram durante o período das lutas contra os Ingleses e contra os Holandeses.

                Saturnino Monteiro                
em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa» (Vol.VI)

Bibliografia:
Conde da Ericeira, História de Portugal Restaurado, Livraria Civilização, Porto, 1946, Vol. III, p.191
Sousa, Alfredo Botelho de, Subsídios para a História das Guerras da Restauração no Mar e no Além-Mar, Agência Geral das Colónias, Lisboa, 1940, Vol. II, pp.65, 69, 79, 85, 94
Esparteiro, António Marques, Três Séculos no Mar, Ministério da Marinha, Volume 3, 1974, pp.92, 111, 115, 122, 123, Volume 4, 1975, pp. 30, 32
Santos, Nuno Valdez dos, Apontamentos para a História da Marinha Portuguesa, Academia de Marinha, Lisboa, 1991, p.175


Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa

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Última actualização: 23 de Novembro de 2001
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