
A partir de 1578, graças à clarividência de John Hawkins, os Ingleses passaram a construir galeões que, embora na aparência fossem semelhantes aos dos Portugueses e dos Espanhóis, eram mais rápidos e melhores de bolina, além de melhor artilhados, que os deles.
Desde então, em qualquer confronto com os navios das nações ibéricas, os Ingleses passaram a desfrutar da inestimável vantagem de poderem aceitar ou recusar o combate conforme mais lhes conviesse. Se estavam em franca superioridade, combatiam; se estavam em inferioridade, retiravam com a maior das facilidades, graças à sua maior velocidade. Por outro lado, no caso de optarem por combater, a sua maior capacidade de bolina permitia-lhes colocarern-se a barlavento dos navios portugueses e espanhóis e impor o combate de artilharia, à distância que mais lhes convinha, evitando sistematicamente o combate à abordagem desesperadamente procurado por aqueles.
Felizmente para os Portugueses e Espanhóis a artilharia da época não era suficientemente potente para afundar à distância navios solidamente construidos como eram os seus, caso contrário as marinhas de Portugal e da Espanha teriam sido varridas dos mares em poucos anos. Durante os séculos XVII e XVIII as batalhas navais raramente alcançavam resultados decisivos, terminando a maior parte delas por empates. No entanto sempre se iam registando algumas vitórias que, pelas razões atrás apontadas, só podiam pertencer aos Ingleses, ao passo que as derrotas só podiam registar-se do lado português ou espanhol. Nestas circunstâncias é evidente que, com o rodar do tempo, a marinha inglesa se iria tornando cada vez mais forte e as marinhas das nações ibéricas cada vez mais fracas, que foi o que efectivamente aconteceu.
Com a marinha holandesa passou-se um fenómeno semelhante. Dispondo igualmente de navios mais rápidos e melhores de bolina que os nossos, os Holandeses só combatiam connosco quando lhes convinha e faziam-no sempre a barlavento, usando a artilharia em vez da abordagem. Apesar de essa táctica nunca lhes ter permitido obter resultados decisivos, foram desgastando paulatinamente o nosso poder naval até que por volta de 1636 nos superaram definitivamente.
Por mais estranho que isso hoje nos possa parecer, os Portugueses, que nos séculos XV e XVI haviam sido mestres na arte da construção naval, nunca conseguiram durante o século XVII construir navios tão rápidos e tão bons de bolina como os dos Ingleses e dos Holandeses. Mais estranho ainda é que não tenham recorrido ao expediente simples de os comprar a estes! A explicação para este facto, aparentemente insólito, não se deverá atribuir, quanto a nós, a uma hipotética falta de técnicos qualificados, mas sim à mentalidade da classe dirigente da época.
No combate de artilharia os nobres não tinham qualquer papel a desempenhar. Por isso desdenhavam tal tipo de combate, considerando-o como próprio de cobardes, e exigiam navios de grandes dimensões, com altos castelos, pejados de soldados, capazes de garantir o sucesso no combate à abordagem. O pior era que para satisfazer a tais especificações os construtores viam-se obrigados a sacrificar a velocidade e a capacidade de bolina dos navios que produziam. E sem estas não era possível impor ao adversário o combate à abordagem! Era um verdadeiro círculo vicioso que nunca fomos capazes de quebrar.
Outro factor negativo com que se debateu a nossa Marinha durante o período que estamos considerando foi a falta de pessoal qualificado, debilidade que, aliás, vinha de longe. Os capitães dos navios de guerra portugueses, ao contrário do que sucedia com os dos Ingleses e Holandeses, eram nobres sem qualquer espécie de conhecimentos náuticos; os pilotos e os mestres eram em número reduzido; a falta de marinheiros era colmatada, no Oriente, recorrendo a árabes, malabares, canarins e malaios, que, embora excelentes profissionais do mar, se retraíam durante os combates de artilharia entre europeus; no Atlântico recorria-se à utilização de escravos negros e ao recrutamento forçado de vadios e de criminosos que se iam buscar às prisões.
Não foi, portanto, devido à perfidia ou ao desinteresse dos reis de Espanha que se verificou a decadência da nossa Marinha e com ela a decadência de Portugal como grande potência. Também não foi pelo facto de termos menos navios nem navios pior artilhados que os dos Ingleses e dos Holandeses que isso aconteceu. Nem mesmo foi consequência dos numerosos erros cometidos pelos dirigentes espanhóis e portugueses no domínio da grande estratégia. A causa fundamental da decadência da nossa Marinha e, por arrastamento, da nossa decadência como grande potência, que se começa a verificar a partir de 1578, deveu-se fundamentalmente, quanto a nós, à pior qualidade dos nossos navios e dos nossos marinheiros em relação aos dos países do Norte da Europa. O mesmo se poderá dizer em relação à Espanha.
Se Portugueses e Espanhóis, nesse momento crucial da História da Humanidade, tivessem tido navios tão rápidos, tão bons de bolina e tão bem guarnecidos como os dos Ingleses e dos Holandeses, é muito provável que as coisas se tivessem passado de modo bem diferente.
Nessa hipótese não custa a acreditar que a campanha da Invencível Armada, nos precisos termos em que foi conduzida, se tivesse saldado pela derrota da Inglaterra. Por outro lado, é bastante provável que as pequenas armadas que tanto as Companhias inglesas como as holandesas começaram por mandar à Índia tivessem sido por nós destruídas. Sendo assim, as ditas Companhias teriam sido levadas inevitavelmente à falência e, pelo menos a Holanda, dificilmente poderia transformar-se em tão poucos anos na formidável potência naval em que se transformou.
Segue-se a descrição de algumas das principais batalhas e combates navais ocorridos nos cento e sessenta e cinco anos que decorrem entre1580, data da perda da independência, e 1668, fim das guerras da Restauração.
Tejo - 1580 (Prior do Crato)
Ponta Delgada - 1582 (Filipe Strozzi/Pedro Peixoto)
Vila Franca do Campo - 1582 (Filipe Strozzi)
Malaca - 1582 (Luís Monteiro)
Jor - 1587 (Paulo de Lima)
Invencível Armada - 1588 (Duque de Medina Sidónia)
Mombaça - 1589 (Tomé de Sousa Coutinho)
Rio de Cardiva - 1591 (André Furtado de Mendonça)
Bloqueio de Lisboa - 1598
Bantam - 1601 (André Furtado de Mendonça)
Sundiva - 1603 (Domingues de Carvalho)
Sirião - 1603? (Rodrigues Álvares de Sequeira)
Bloqueio de Goa - 1604
Sirião - 1605 (Paulo Rêgo)
Bloqueio de Lisboa - 1606
Estreito de Malaca - 1606 (D.Martim Afonso de Castro)
Ilha das Naus - 1606 (D.Martim Afonso de Castro)
Pulo Butum - 1606 (D.Álvaro de Meneses)
Macau - 1607 (D.Álvaro de Meneses)
Golfo de Cambaia - 1612-1613 (Nuno da Cunha)
Boca do Ganges - 1613? (Sebastião Gonçalves Tibao)
Tenassarim - 1614 (Cristóvão Rebelo)
Surrate - 1615 (D.Jerónimo de Azevedo)
Arracão - 1615 (D.Francisco de Meneses Roxo)
Arracão - 1615 (D.Francisco de Meneses Roxo/Sebastião Gonçalves Tibao)
Rio Formoso - 1615 (Francisco de Miranda Henriques)
Ilha das Naus - 1615 (Francisco de Miranda Henriques)
Jasques - 1620-1621 (Rui Freire de Andrade)
Ormuz - 1621-1622 (Rui Freire de Andrade)
Bloqueio de Goa - 1622-1623
Baía - 1624 (Diogo Mendonça Furtado)
Ormuz - 1625 (Nuno Álvares Botelho)
Rio Duyon? - 1629 (Nuno Álvares Botelho)
Abrolhos - 1631 (Don António Oquendo)
Baía - 1636 (Don Lope de Hoces)
Bloqueio de Goa - 1636/1637 (António Teles de Meneses)
Bloqueio de Goa - 1637/1638 (António Teles de Meneses)
Bloqueio de Goa - 1638/1639
Dunas - 1639 (Don António Oquendo)
Mormugão - 1639 (Álvaro de Sousa)
Paraíba - 1640 (Conde da Torre)
Rio de Lafetá - 1652 (António de Sousa Coutinho)
Bloqueio do Recife - 1653/1654 (Pedro Jaques de Magalhães)
Bloqueio de Goa - 1657/1658 (Luís de Mendonça Furtado de Albuquerque)
Saturnino Monteiro
em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa»
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