
A Revolução Industrial, como não podia deixar de ser, provocou profundas alterações na construção dos navios de guerra, no seu armamento e na táctica naval. No entanto, todas essas alterações só muito lentamente é que foram sendo introduzidas, sobretudo devido à tradicional relutância dos generais e dos almirantes para romper com a tradição e aceitar a inovação. De resto, compreende-se perfeitamente como teria sido doloroso para os oficiais e marinheiros ver substituir essas maravilhosas máquinas que eram as naus e as fragatas do século XVIII pelos horrorosos couraçados e cruzadores do século XIX, monstros de ferro que vomitavam fumo, que davam um balanço desencontrado, mesmo com pequena vaga, cujo convés estava constantemente a ser enxovalhado pelo mar e no interior dos quais o calor e o ar saturado de pó de carvão e de humidade faziam lembrar as profundas do Inferno.
Só a partr de 1860 é que começam a surgir os primeiros grandes navios de guerra protegidos com grossas couraças de ferro e dispondo de máquinas a vapor. Mas todos eles continuam a ter mastros e velas, que só virão a desaparecer por completo por volta de 1880. No que toca ao armamento, os progressos são um pouco mais rápidos. A partir de 1845 começam a ser utilizados canhões estriados, de carregar pela culatra e que utilizam projécteis oblongos contendo alto explosivo. A artilharia naval ganha assim o poder destruidor que até então lhe tinha faltado. No entanto, tal tipo de canhões só viria a ter completa aceitação a partir de 1880.
As minas começam a ser usadas em 1860; os torpedos aparecem por volta de 1870; os torpedeiros em 1873; os destróieres em 1884. Os submarinos, que tão grandes alterações vieram provocar na estratégia naval, tornam-se operacionais a partir de 1904.
Durante a Grande Guerra (1914-1918), na qual os submarinos desempenharam um papel preponderante, teve lugar ao largo da península da Jutlândia, a 31 de Maio de 1916, a última grande batalha puramente naval da História, um gigantesco duelo de artilharia travado a quinze quilómetros de distância com os navios ingleses e alemães ainda formados em duas longas colunas. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foi dominada pelo avião, embora os submarinos tenham continuado a desempenhar um papel de relevo. As batalhas navais foram substituídas pelas batalhas aeronavais, com os navios intervenientes fora do alcance visual uns dos outros. A formatura em coluna foi abandonada, sendo substituída pelas formaturas circulares. No período compreendido entre 1945 e 1975 aparecem os primeiros navios de guerra propulsionados por energia atómica e os mísseis substituem gradualmente os canhões de grosso calibre.
Em resultado da separação do Brasil de Portugal, a Marinha de Guerra Portuguesa vê desaparecer a sua tarefa principal, que consistia em escoltar as frotas que asseguravam a ligação entre os dois países. Com a ocupação da Argélia pela França, em 1830, que põe fim à actividade dos corsários berberescos, desaparece também a tarefa não menos importante de proteger as nossas costas e a nossa navegação contra as depredações daqueles. Fica assim a nossa Armada reduzida a pouco mais que uma mera guarda costeira, a quem cabe especialmente assegurar a fiscalização da pesca, efectuar os transportes para as colónias, reprimir nestas o tráfico de escravos e colaborar com o Exército na sua ocupação efectiva, transportando pessoal ou material e, por vezes, fornecendo apoio de fogo. Foi a época das canhoneiras e dos transportes.
Em Portugal, os primeiros navios a vapor aparecem em 1833 e os primeiros navios de ferro em 1860. Em 1880 são lançados os primeiros torpedos. O nosso primeiro torpedeiro surge em 1882, o primeiro cruzador em 1903, o primeiro submarino em 1913 e a aviação naval em 1917.
Em resultado das dificuldades de ordem financeira que afligem o Pais de uma forma endémica, sobretudo a partir do Ultimatum, a nossa Marinha de Guerra vai-se degradando progressivamente, até que por volta de 1926 está prestes a atingir o «zero naval». Verdade seja que por essa época, com a pirataria e o tráfico de escravos extintos e as colónias praticamente ocupadas e pacificadas, as tarefas que lhe competiam executar eram reduzidíssimas.
Durante os primeiros anos do governo de Salazar são adquiridos na Inglaterra ou construidos em Portugal dois pequenos cruzadores (classificados de avisos de 1ª classe), cinco destróieres, três submarinos e quatro avisos (de 2ª classe), os chamados «navios novos», que marcam o ressurgimento da nossa Marinha de Guerra e lhe permitem, para além das tarefas tradicionais de representação e de manutenção da soberania nas colónias, contribuir para a defesa dos direitos e dos interesses de Portugal durante a Guerra de Espanha e a Segunda Guerra Mundial.
Após o ingresso de Portugal na NATO, em 1949, a Marinha de Guerra Portuguesa continuou a crescer, tendo recebido dos Estados Unidos e de outros países quatro fragatas, catorze patrulhas anti-submarinos e dezasseis draga-minas. Mas a entrada na NATO teve o grave inconveniente de desviar a atenção dos nossos chefes militares da tarefa fundamental das Forças Armadas, que era a defesa do Ultramar. E quando teve lugar a invasão de Goa e começaram as guerras subversivas em Angola, Moçambique e Guiné a nossa Marinha não estava minimamente preparada, nem material nem psicologicamente, para as enfrentar. Já durante a Guerra do Ultramar foram adquiridas em França quatro novas fragatas e quatro novos submarinos, construídas na Alemanha e na Espanha, segundo projecto português, dez corvetas, e construídas em Portugal numerosas lanchas de fiscalização e de desembarque de diversos tamanhos.
Segue-se a descrição de algumas das principais batalhas e combates navais ocorridos nos cento e sessenta e oito anos que decorrem entre1807, ano da primeira invasão francesa, e 1975, ano em que termina praticamente a chamada «descolonização».
Boca do Tigre - 1809/1810 (Alcoforado de Azevedo e Sousa)
Baía - 1823 (João Félix Pereira de Campos)
Cabo de S.Vicente - 1833 (Charles Napier)
Conakry - 1970 (Alpoim Calvão)
Saturnino Monteiro
em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa»
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