
Vou relatar esta «pequena» história, não apenas por ser uma descrição diferente de todas outras que possamos viver, mas pelo facto dela servir de lição para todos aqueles, que como eu, navegam pelos mares.
Quantas vezes já ouvi falar por esses portos, sobretudo em marinheiros com alguns anos de experiência, que os coletes servem apenas para a legalização dos barcos e que após a inspecção se arrumam num qualquer buraco da embarcação. Ou então que os sinais luminosos são apenas para serem utilizados em noites de festa com fogo de artifício...
Bem não vos vou maçar mais e passemos então à história:
O barco, com 8 anos, tratava-se de um Bénéteau Oceanis 400, com o nome HERIUS IV, com 12.00m de comprimento e 3.80m de boca, construído em fibra de vidro. Foi um barco de ocasião comprado do norte de França por uns amigos franceses. Tinha um quarto com casa de banho privativa à proa e dois quartos à popa, casa de banho para o «povo», salão, cozinha, etc. Enfim, o habitual do conhecimento de todos aqueles que têm barco, ou têm um amigo com barco, ou frequentam as exposições internacionais.
O ponto de partida para esta aventura era o porto de Noirmoutier, pequena povoação localizada no norte de França a cerca de 100km de Nantes. A travessia da Biscaia, a maior perna desta viagem, era uma aventura atraente e emocionante. Assim telefonei a um amigo português, também apaixonado por estas coisas dos mares, e aí vamos nós rumo a França, onde marcámos encontro com os nossos amigos franceses: dois homens e uma senhora.
Mas algo parecia dizer que não deveriamos de embarcar. A nossa querida TAP, esquecera-se da minha mala da roupa e de alguns equipamentos de segurança em Lisboa. Isso obrigou-nos a permanecer mais 2 dias em Noirmoutier esperando pela mala. Fizemos durante este período de espera algumas pequenas navegações para nos habituarmos ao barco. Finalmente a mala chegou e de imediato começamos a preparar a nossa viagem. Observámos a localização de todos os equipamentos de segurança do barco, testámos os equipamentos electrónicos, marcámos os pontos nas cartas e nos GPS auxiliares, claro que não nos esquecemos das comidinhas e das bebidas tão importantes a bordo. No dia seguinte de manhã escutámos a previsão meteorológica da nossa zona de navegação. Ficámos de um momento para o outro desapontados, pois a nossa travessia que no total demoraria entre dois dias e meio a três dias iria colidir com ventos de força 9 perto de Finisterra. Dado que a navegação para todos nós é um prazer da vida e não uma aventura inconsciente resolvemos adiar a travessia e voltar a Portugal.
Entretanto, uma semana mais tarde, durante o passeio da ANC a Valada, no período da Páscoa, subi o rio com o meu barco. Recebi um telefonema dos meus amigos franceses que o tempo estava óptimo para a travessia, mas dada a nossa impossibilidade eles partiriam os três. Assim combinámos voltar ao HERIUS IV já em Espanha na povoação de La Coruña. Assim fizemos. Na terça feira 17 de Abril alugámos um carro de matrícula espanhola e partimos ao fim do dia, com as coordenadas do Porto marcadas no GPS. Chegámos ao Porto cerca da meia noite, partindo no dia seguinte cerca das 13:00h locais.
Para além de todo o equipamento de segurança existente na própria embarcação semelhante àquela que temos em Portugal para navegação costeira, levei uma tonelada de equipamento adicional, do qual destaco o mais importante para a segurança: VHF portátil, dois GPS portáteis um dos quais com écran gráfico, coletes pilot II, lanternas, previsão do tempo que obtive da internet, rádio baliza 121.50Mhz, cartas de navegação, até o fato de mergulho. Como não poderia deixar de ser coloquei todo este equipamento num lugar de fácil acesso, no topo de uma bancada aberta, pois não vá o diabo tecê-las e mais vale prevenir do que remediar.
Após escutar a meteorologia no rádio de ondas curtas, verificá-la na capitania do porto e igualmente nas folhas que tinha trazido da internet, enchemos o depósito de gasóleo com os reservatórios de 20 litros, uma vez que não tinhamos profundidade suficiente para chegar à bomba de combustíveis. Eram 13:00h pontuais quando partimos do porto de La Coruña rumo a Baiona. O mar apresentava ondas de cerca de 2.00m por vezes 3.00m e um vento do quadrante Norte com cerca de 23 nós, o que não constituía nenhum problema para a embarcação em questão.
Assim deixámos para trás o farol romano, a Torre de Hércules.
Toda a navegação, corria bem, sempre com a costa à vista e observando o grandioso espectáculo dos albatrozes a mergulhar, alguns mesmo perto do nosso barco. Assim navegávamos com as velas rizadas a uma velocidade média de cerca de 6 nós, observando na costa os moinhos de vento utilizados na produção de energia.
Os faróis sucediam-se uns aos outros, o mar cada vez estava mais calmo e o vento caía um pouco. A noite aproximava-se e às 21:00h começamos os quartos. O primeiro quarto foi feito por mim em conjunto com o meu amigo português. Entre as 21:00h e as 24:00h a responsabilidade da navegação era nossa. As luzes de navegação estavam ligadas, por uma questão de segurança recolhemos a vela grande e ligámos o motor a 1400rpm para carregar as baterias, pois para além do equipamento electrónico ligámos o radar. Tudo corria bem, cerca das 23:00h passávamos o cabo de Finisterra, chegando a um ponto de rota alterando o rumo directo ao ponto de aterragem perto de Baiona. Navegávamos com o piloto em modo automático sendo as alterações de rumo efectuadas manualmente, pois assim éramos obrigados a uma atenção redobrada. De repente ao olhar para a sonda verifiquei que a profundidade diminuia fortemente. Após comparar com a carta electrónica que nos dava 100m de profundidade, verifiquei que provavelmente se trataria de um denso cardume de peixes. Alguns segundos depois ela voltou à normalidade coincidindo com as cartas electrónicas. No entanto chamei o comandante, que prontamente constatou a ocorrência, prosseguindo a viagem sem problemas. A meia noite aproximava-se, o quarto seguinte seria feito pelos dois franceses. O comandante da embarcação, como é hábito, não fazia quartos, estando no entanto sempre alerta para qualquer eventualidade.
O cansaço já era mais forte do que a vontade de navegar enfrentando todo aquele frio.
Marquei no livro de bordo os últimos dados antes de me deitar, verificando que a pressão atmosférica se tinha mantido exactamente constante durante toda a viagem, assim como o vento que tinha neste momento força 3 a 4 na Escala de Beaufort.
Assim após a entrega do comando da embarcação fomos descansar pois o próximo quarto seria das 3:00h às 6:00h da manhã.
Como é hábito nestas andanças à noite deixei a porta da cabine aberta e rápidamente adormeci.
Tudo estava a correr bem até que às 2:30 da manhã, ouvi do exterior merde! Merde!. Sem saber se estava a dormir ou acordado continuei a repousar. Alguns segundos depois um barulho intenso acompanhado de uma vibração enorme fez-me acordar sobressaltado, sem saber se estava a ter um pesadelo ou não. Mal me levantei fiquei com os pés dentro de água. Rápidamente subi ao poço, quando deparei com um monstro de ferro com três pisos de altura, que tinha acabado de partir o nosso barco em dois. Após o embate a vaga fez subir o barco de pesca caindo sobre o veleiro à vante do mastro partindo-o em dois e fazendo com que o mastro caísse. Os tripulantes do veleiro gritavam para chamar a atenção dos pescadores que pelos vistos não se tinham apercebido da colisão. De imediato entrei de novo no veleiro procurando se o meu amigo estava dentro da cabine, mas afinal já tinha saido. Retirei a baliza de localização. Foi impossível ir buscar o restante equipamento de segurança pessoal, que se encontrava num local super acessível, pois a água já estava meio metro acima da mesa de navegação e de um momento para o outro o barco seria arrastado para o fundo. Saí para o exterior estando neste momento os pescadores a mandar cabos. De um momento para o outro fiquei dentro de água, tendo o HERIUS IV descido até 100m para a sua morada final. Tudo isto se passou em cerca de um minuto. Nem sequer a balsa que se encontrava à popa colocada num local bem acessível foi possível retirar. Estávamos os cinco dentro de água quando os pescadores nos atiraram uma balsa, que após se encher começou a esvaziar-se tantos eram os furos que tinha tapados com fita isoladora. Com alguma dificuldade subi para a balsa ajudando os meus amigos franceses. Entretanto o meu amigo português já tinha igualmente subido. Ficámos bem melhor, pois enquanto no exterior a profundidade era de 100m de profundidade, dentro da balsa tínhamos apenas 0.50m, o que por si só já constituía um grande conforto. Faltava subir para o barco. Lançaram-nos umas escadas que infelizmente não chegavam à balsa. Tivemos que nos apoiar nos pneus presos a cabos. Dado que nós os dois portugueses éramos os mais novos, comandámos as operações permanecendo na balsa, subindo primeiro a senhora e os dois franceses, um dos quais tinha 71 anos. As vagas que no máximo tinham 1.50 a 2.00m não facilitavam as operações. Por fim eram cerca das 3:00h da manhã e estávamos todos a bordo do pesqueiro rumo ao porto de Sta Uxia de Ribeira.
Após o acidente, onde nos partiram a embarcação em dois, os pescadores foram impecáveis na assistência prestada, para além de imediato nos colocarem à disposição roupa seca e café quente. Pois naquela hora da madrugada, 30 minutos dentro de água é o suficiente para tremermos mais do que o barco que foi ao fundo. De imediato transportaram-nos para o porto, sendo estranho que o comandante não tivesse dirigido nenhuma palavra à nossa tripulação. Na verdade nem cheguei a conhecê-lo.
Foi no trajecto até ao porto que me contaram o que tinha sucedido. Navegávamos rumo a Baiona, com óptima visibilidade quando a 4 milhas a Oeste do farol de Corrubedo foram avistados 5 barcos de pesca com cerca de 250ton cada que saíam para a faina.
De imediato chamaram o comandante que se encontrava na cabine da proa para verificar a manobra. Foi desligado o piloto para se poder manobrar o leme da embarcação. Foi iluminada a genoa e tomou-se um rumo de forma a passar entre dois pesqueiros que não se encontravam em faina. Foi avistada a luz de navegação vermelha do barco de pesca que colidiu com o nosso. Tudo estava a correr bem, até que no momento que dávamos o través à outra embarcação a cerca de 200 a 300m de distância, ela mudou repentinamente de rumo rodando 90 graus e entrando em rota de colisão. Não foram necessários muitos segundos até à colisão.
O importante é estarmos todos vivos sem nenhum ferimento importante.

Escrevi o relato deste acidente para que sirva de apoio a todos os navegadores de embarcações à vela no que diz respeito à segurança.
Para além de todas as medidas de segurança que todos conhecem e que são obrigatórias numa embarcação, aconselho (sobretudo após a ocorrência deste tipo de acidentes) a existência de uma bolsa de segurança estanque no exterior contendo:
VHF portátil, GPS, Sinais de localização, lanterna, elementos de localização, baliza, documentos e dinheiro. Caso, como nós, não durmam com os coletes podem colocá-los na referida mala. Podem ainda colocar alguma roupa seca. É claro que o restante equipamento de segurança se encontra na balsa, caso haja tempo…
Apenas por uma questão de curiosidade o náufragio deu-se na latitude 42° 32,8' N e longitude 009° 11,5' W.
Jorge Duarte
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