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Não entre em pânico...
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A bordo dos navios, muito especialmente em manobras, impõe-se a prática de uma linguagem precisa e clara.
O conto que se segue, adaptação de um original inserido no "West of England Annual Review 1986", retracta uma situação extrema resultante de um mal entendido na ponte de comando de um navio em manobras.
Os acontecimentos são apresentados pelo Comandante em relatório enviado ao Armador.

«É com bastante pesar que me apresso a redigir e enviar-lhe este relatório, lamentando que, um pequeno erro de interpretação, tivesse dado origem à confusão que abaixo descrevo, dando-lhe assim a oportunidade de conhecer a realidade dos factos antes de formar o seu próprio juízo e opinião ao ler os jornais, pois não tenho dúvidas de que a imprensa vai dramatizar o assunto.
Acabado de embarcar o piloto da barra, o Praticante chegou à ponte depois de ter trocado o G pelo H; era a sua primeira viagem e estava a ter dificuldade em dobrar a bandeira, daí eu ter-me chegado junto dele para lhe mostrar como se fazia; vendo que o rapaz não dava conta do recado disse-lhe "larga", repetindo a ordem em tom ríspido por ele não se ter apercebido à primeira. Neste preciso momento, entrou na casa do leme o Imediato vindo da casa de navegação, onde teria ido confirmar à carta a posição do navio, e, pensando que eu estaria a referir-me ao ferro, repetiu a ordem para o 3º Piloto, na manobra no castelo da proa "LARGA". A ordem foi cumprida de pronto, e o ferro de bombordo, de atenção e pronto a largar, imediatamente começou a correr no escovém. Logo que me apercebi da confusão mandei aguentar mas, com a velocidade que o navio levava a vante, a breca não aguentou, a amarra correu até à paixão, partiu e perdeu-se. No paiol da amarra verificaram-se sérias avarias.
O efeito de largar o ferro de bombordo e de tentar aguentar a amarra de seguida, causou, naturalmente, uma guinada do navio para aquele bordo, e em direcção à ponte móvel do rio onde íamos entrar. O operador da ponte, atento ao incidente, acto continuo abriu a ponte para deixar passar o navio, mas, com a precipitação, esqueceu-se de parar o trânsito, resultando daí ter vindo parar ao convés um Volkswagen, dois ciclistas e uma camioneta com gado, presumo eu, pelo barulho e pelo cheiro, tratar-se de porcos.
Numa tentativa de parar o seguimento do navio, o terceiro piloto largou o ferro de estibordo, porém demasiado tarde para o efeito desejado, pois a âncora caiu em cima do controlo da ponte. Depois de ter sido largada a amarra e de o navio ter começado a guinar, dei ordem para a casa das máquinas; informaram-me que a temperatura da água era de 33 graus, pelo que perguntei se havia cinema esta noite - é verdade que a minha resposta não ajudou nada.
Até agora tenho limitado este relatório aos acontecimentos na ponte de comando e no castelo de proa porém na popa existiam outros problemas; no momento em que foi largado o ferro de bombordo, o 2º piloto estava a passar o cabo ao rebocador; o repentino efeito do ferro fez com que o rebocador se enfiasse por debaixo da popa do navio, no preciso momento em que as máquinas arrancavam "toda a força a ré". A imediata actuação do 2º piloto ao fazer fixe ao cabo de reboque impediu que este se afundasse e a respectiva tripulação se perdesse.
Estranhamente, no momento em que se largou o primeiro ferro, houve um black out em terra. O facto de estarmos a passar sobre uma área de cabos levou-nos a pensar que tivesse sido o ferro o responsável por qualquer rotura num dos cabos eléctricos, no fundo.
Tivemos, ainda assim, muita sorte por estar desligado (talvez a ser substituído pelo cabo submarino) o cabo de alta tensão atirado abaixo pelo mastro de vante; devido à escuridão foi impossível saber ao certo o que se passou. Foi impressionante a acção e acompanhamento do piloto da barra que corria de um bordo para o outro, gritando e chorando alternadamente, e bebendo uma garrafa de Gin com tal rapidez que merecia entrar no "Guiness Book". O mestre do rebocador reagiu tão violentamente que teve de ser agarrado por dois dos meus tripulantes e algemado no hospital do navio, ameaçando de coisas impossíveis o navio e a tripulação.
Incluo os nomes e identificação dos condutores, e das respectivas seguradoras, das viaturas que caíram no convés, a vante, que o 3º piloto conseguiu compilar após uma evacuação apressada do convés. Tenciono também lavrar uma reclamação pela avaria provocada, na borda falsa e na braçola do portão n.º 1, pelos carros ao precipitarem-se para dentro do navio.
Enviarei mais tarde um relatório circunstanciado dos acontecimentos, pois neste momento está a ser muito difícil concentrar-me, com tanto barulho das sirenes e confusão dos projectores rotativos dos carros da polícia.
Só mais uma nota, antes de terminar: se o meu praticante soubesse que não é necessário içar bandeiras depois do pôr-do-sol, nada disto teria acontecido.»

O comandante,


Nota: O G e o H referidos, são as bandeiras do Código Internacional de Sinais que representam as letras referidas: A bandeira G, içada numa adriça, significa que o navio pede um piloto do porto; a bandeira H indica que o navio tem piloto a bordo. Daí que, quando o piloto da barra embarca, se arrie uma bandeira e ice a outra. Na prática, hoje em dia, com o uso de radiotelefone e de VHF, as bandeiras são já pouco utilizadas.

... em cima do controle da ponte!
... em cima do controle da ponte!



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Última actualização: 26 de Setembro de 2001
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