A.N.C. - Histórias / Mensagem em Garrafa


Associação Nacional de Cruzeiros



Mensagem em Garrafa

Cumpri o serviço militar entre 1968 / 71.
Fui mobilizado para Timor. Quando tive conhecimento da notícia, fiquei maravilhado. Nunca tinha pensado na hipótese de ir ao Oriente. Essa seria a oportunidade de ficar a conhecer todo o território português. Uma vez em Timor, teria de arranjar processo de dar uma saltada a Macau. Não foi exactamente assim. Acabei por conhecer Macau na viagem de regresso.
Não me surpreendeu ser mobilizado para Timor. Tinha ficado classificado em primeiro lugar no COM em Santarém, na Escola Prática de Cavalaria. Não foi muito difícil obter essa classificação. Como costumo dizer, não era coxo; quer da cabeça quer do corpo. Era desportista, possuía boa compleição física, alguma formação académica e queria ter uma boa classificação. Era isso: tinha motivação. O meu objectivo era integrar um Esquadrão de Cavalaria que se tinha criado nos Dragões, em Silva Porto, Angola. Desviei o meu espírito de aventura.
Essa, seria passada em Timor.
A viagem era feita por mar, claro está. O canal Suez estava intransitável devido à recente Guerra do Sinai.
Foram dois meses embarcados no ronceiro Navio Índia, com escalas em Luanda e Lourenço Marques, hoje Maputo. A velocidade de cruzeiro, não passava de 11 nós.

Índia
Navio Índia da C.Nacional de Navegação

O Navio Índia tinha piada. O seu estado de equilíbrio normal era adornado cerca de cinco graus para Bombordo. Este facto reflectia-se interessantemente no balanço lateral da embarcação. Para EB, o balanço era rápido e muito optimista. Para BB, o balanço era apreensivamente interminável. Não bastando este adornar preocupante, era acompanhado na sua fase final por uma vibração, proveniente do mau alinhamento das linhas de veios, que fazia tremer o barco todo. As garrafas de vidro, quando encostadas umas às outras, tilintavam.
Um dos meus companheiros de cabina, que dormia de boca aberta, batiam-lhe os dentes quando, durante o sono, a cabeça tombava e se encostava à estrutura metálica do beliche. Dei voltas e voltas, até descobrir de onde vinha aquele ruído de castanholas. Só descobri a proveniência daquele estranho bater de castanholas quando, após análise profunda, me apercebi que surgia, invariavelmente, após um ressonar. Teria de haver uma ligação entre estes dois barulhos. Por fim, descobri. No dia seguinte contei, com ar muito sério, ao Veloso o que estava a acontecer. Num breve cálculo, com papel e caneta, dei-lhe a conhecer quantas vezes batia os dentes involuntariamente. Eram milhares de batidelas. Claro que exagerei na violência das batidas. Lembrei-lhe que água mole em pedra dura tanto dá que até que fura. Pela certa, partiria um dente até chegarmos ao destino. O rapaz ficou preocupado. Era um jovem muito simples, vindo do Seminário. Rezava o terço e lia o breviário. Não mostrava grande pressa de se integrar na sociedade civil, ao contrário de muitos outros com a mesma proveniência estudantil, que acabavam por asneirar. Um pouco duro de cabeça, muito desconfiado e inseguro, acreditava em tudo o que eu lhe dizia. Isso fez com que lhe desse a alcunha de S. Tomás de Aquino. Tenho boas histórias das enrascadas em que se meteu. Uma boa alma.
Passada que foi a escala de Luanda, o tédio já se tinha apoderado de muitos de nós. Tudo servia para passar o tempo.
Um dos passatempos à noite, após o jantar, eu e cerca de quinze ilustres companheiros de viagem, adquirimos o hábito de nos juntarmos, sentados em círculo nas poltronas do salão da primeira classe. Contávamos anedotas, fazíamos ordem unida com movimentos ritmados das pernas e braços com espírito de competição, numa subtil provocação aos oficiais de patente respeitavelmente mais elevada. Proveniente de quem perdia os jogos, aparecia uma garrafa de whisky que era bebida por todos os da roda.
Lembrei-me que poderíamos lançar essas garrafas ao mar com mensagens no seu interior. Escorria a garrafa à noite. Pela manhã indagava qual a posição do Navio, escrevia a mensagem, rolhava-a, colocava um pouco de cera na rolha e lançava-a ao mar.
Consegui convencer dois companheiros de cabina a subscreverem algumas mensagens. Invariavelmente, eram escritas num tipo de papel muito bem conhecido da rapaziada do meu tempo: um “aerograma”. Curiosamente, o meu “Tomás” nunca quis participar.

Foram várias as mensagens enviadas. Porventura, algumas ainda andarão à deriva por esses mares.
Os dizeres das mensagens, sempre escritas em português, consistiam em local, data, posição geográfica e o porquê da nossa existência no meio do Oceano. Fornecia os nomes, e moradas solicitando, a quem as recolhesse, de contactar com o remetente.
Ainda estava mobilizado, no meu aquartelamento de Nuno Tali, Ermera, quando, em Fevereiro de 1971, recebi uma carta do meu Pai, onde incluía uma fotocópia de um papel manuscrito, com ares de pergaminho ratado da Idade Média. Apercebi-me de que era, nem mais nem menos, uma cópia de uma das mensagens lançadas ao mar.
Fiquei histérico com o acontecimento.


a fotocópia da mensagem

A cópia, um pouco maior que formato A4, mostrava o que restava da mensagem. Em rodapé, mostrava uma escrita à maquina. Com alguma dificuldade, era possível decifrar os dizeres pois, como eu a redigira o “auto”, tinha a noção do que estava escrito.
Ao tentar reconstituir a escrita, recordei-me das leituras de aventuras ainda recentes, nomeadamente de Alexandre Dumas no seu livro O Conde de Monte Cristo. Recordei o episódio em que o velho abade, companheiro de cela de Edmundo Dantés, lhe explica como decifrou a escrita e o mapa que revelava onde se encontrava o tesouro que fez a fortuna imensa do Conde de Monte Cristo.
Quem encontrou a garrafa, ao deparar com a mensagem lá dentro, deve ter sentido uma grande alegria. Teve, talvez, uma desilusão por não se tratar da localização de um tesouro. Mas sem dúvida alguma, deve ter rejubilado. Gostaria ter estado na sua posição.
Quem me enviou a fotocópia da mensagem esclarece que, “quando um técnico se encontrava junto ao mar, nas Ilhas Snares, fazendo parte de uma expedição de investigação do Departamento de Zoologia da Universidade de Canterbury, Christchurch, Nova Zelândia por altura do Natal (1970/71) tinha encontrado a mensagem dentro de uma garrafa partida”. Assinava a escrita.
Foi simpático da parte deste Senhor responder ao pedido exarado na mensagem.
Enviei um agradecimento ao signatário. Não tive feed back. Fiquei sem saber se tinha recebido os meus agradecimentos.
Após o serviço militar, iniciei a minha vida de trabalho que foi, durante vários anos, muito absorvente e conturbada. Pouco mexi no assunto.
Sempre falei da “minha mensagem deitada ao mar e recebida” como tema de conversa com pessoas que mostravam curiosidade. Informei a Sociedade de Geografia e a National Geographic Society.
Uma tentativa recente de contacto com a Universidade de Canterbury, via Internet, resultou infrutífera. Já passou tanto tempo que, possivelmente, as pessoas já não estão presentes.

Analisando os aspectos interessantes deste evento:


Rota da garrafa
Considerações

A localização do Navio, quando do lançamento, pode considerar-se correcta. Apesar da rota ser considerada secreta e não haver informação pública da posição, esta era obtida através do 2º Piloto, com o qual estabeleci relacionamento de amizade e me iniciou nos mistérios da Navegação Astronómica.
Pela informação recebida, a garrafa estava partida e à beira mar, naturalmente. Não custa a crer que esta ter-se-ia partido quando deu à Costa. Aceitando esta premissa, conclui-se que ela não estaria há muito tempo em terra. Com a garrafa partida, a mensagem, escrita em papel de carta (aerograma), estaria completamente deteriorada pelo efeito da água e da exposição solar.
A corrente marítima que passa mais ao largo da África do Sul, no sentido Nascente, arrastou a garrafa pelo Oceano Índico. Passou a Sul da Austrália, Tasmânia e deu à Costa nas Ilhas Snares, no extremo Sul do território Neozelandês. Foi uma boa viagem!
Que hipótese existe de o povo Aborígene Australiano derivar de uma migração de Gentes Africanas, navegando com a força da corrente e do vento, fazendo um trajecto semelhante, se bem que mais curto? Talvez alguém com o espirito aventureiro, daquele que inspirou a expedição Kon Tiki se decida a fazer prova... Foi uma ideia que me despertou interesse. Fui pesquisar o assunto. Cheguei à conclusão que, por análise de ADN, essa hipótese é eliminada.
Perante esta antiga experiência bem sucedida, ficou um hábito comigo que me faz perder o sentido ecológico de pessoa civilizada: nas minhas navegações, após despejar uma garrafa de tinto, pois são as melhores por, normalmente, serem de vidro fumado e não necessitarem de frio para se beber o conteúdo, lá vai uma mensagem borda fora...


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Última actualização: 3 de Junho de 2003
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