
Um dos diversos instrumentos que o homem concebeu para medir o tempo foi a ampulheta. Também
conhecido por relógio de areia a sua invenção é atribuida a um monge de Chartres, de nome
Luitprand que viveu no séc.VIII. No entanto as primeiras referências deste tipo de objecto
aparecem apenas no séc.XIV. Pela descrição de então admite-se que a ampulheta já era usada
a bordo.
É constituída por duas âmbulas de vidro unidas pelo gargalo e de modo a deixar passar a areia de
uma para outra num determinado intervalo de tempo através de um orifício. Até meados do
séc.XVIII as duas âmbulas eram fabricadas separadamente colocando-se entre os gargalos de ambas
uma pequena peça metálica com um orifício devidamente calibrado para a passagem da areia. A
ligação era feita com cabedal ou uma pinha - um entrelançado feito com cabo. Para proteger
o conjunto era usada uma armação em madeira ou latão.
Mais tarde as ampulhetas foram feitas de uma só peça de vidro com um orifício para a
passagem da areia.

A areia usada nas ampulhetas podia ser branca ou vermelha, desde que fosse fina, seca e homogénea.
A proveniente de Veneza tinha grande reputação. Além de areia também se podia usar cascas de ovo
moídas, pó de mármore, pó de prata e pó de estanho calcinado misturado com um pouco de chumbo.
Este último aconselhado para as ampulhetas de 24 horas.
A vida a bordo era regulada por este instrumento. Existiam ampulhetas para tempos de
uma, duas ou mais horas mas as mais usadas eram as de meia-hora também conhecidas por
relógio.
De boa precisão a ampulheta era no entanto afectada pelos balanços, temperatura - por isso
devia ser colocada à sombra - e o alargamento do orifício desgastado pela passagem da areia.
Mas quem a manejava era ainda o maior culpado. Um esquecimento, um atraso ao virar ou ainda,
e a mais frequente, motivada pela pressa em encurtar a duração de um quarto fazia que quem
estivesse de turno, a virasse antes de esgotar toda areia. Este facto era conhecido entre os
marinheiros por comer a areia. Ao virar a ampulheta, o marinheiro tocava o sino;
uma badalada às meias horas e pares de badaladas correspondentes à hora de quarto. Um par à primeira,
dois à segunda, etc. Falta dizer que cada quarto era, e ainda hoje é assim, de quatro horas.
Aos quartos da noite também se davam nomes. Das oito da noite à meia-noite era chamado de prima,
seguia-se a modorra da meia-noite às quatro e por fim, a alva das quatro às oito
da manhã.
O acerto era necessário e fazia-se com o astrolábio ao
meio-dia através do sol, quando o tempo o permitisse.
Para a obtenção da latitude bastavam as tabelas de declinação e a medição da altura do sol.
A longitude, até ao séc.XVIII, era obtida por estimativa a partir da distância/rumo percorrida
pelo barco. A velocidade necessária para o cálculo era obtida com uma barquinha
e uma ampulheta de 30 segundos. Este método era pouco rigoroso para a obtenção daquela coordenada
geográfica.
Até à invenção do cronómetro no séc.XVIII, para obtenção da longitude, foram pensados vários métodos. Um deles, proposto pelo padre italiano Bruno Cristóvão, professor de astronomia em Coimbra e em Lisboa no início do séc.XVII, usava uma ampulheta de longa duração, marcada com linhas indicando as diversas horas. Acertava-se à saída de um porto e calculava-se a diferença entre as horas do meridiano do local e do meridiano de referência, transformando depois o tempo em arco, tal como se faz hoje. A ideia era perfeitamente correcta mas técnicamente impossível, pois a ampulheta não tinha uma tal precisão.
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