A.N.C. - Nocturlábio

Associação Nacional de Cruzeiros
NOCTURLÁBIO
O Noturlábio foi um instrumento usado nos primórdios da navegação que servia para se ler
a hora através do movimento das estrelas. Pode assim dizer-se que era um relógio sideral.
O princípio de funcionamento de um Noturlábio assenta na observação e leitura do movimento
que as estrelas realizam em torno da estrela Polar.
Este movimento é, como todos sabemos, um movimento aparente resultante da rotação do nosso
planeta. Em teoria considera-se que a Polar está fixa no enfiamento do eixo de rotação
da Terra, a norte, apesar de um pequeno desvio que era de 3º,5 no séc.XV. As estrelas giram no
sentido contrário aos dos ponteiros dos relógios em torno da Polar (isto no hemisfério
norte!), e é o movimento de uma das guardas da Ursa Menor, a estrela Kochab, que
é observado e usado na leitura do tempo ao longo do ano.

Posição aproximada da Kochab ao longo do ano
No fim do séc.XIII, o maiorquino Raimundo Lúlio, descreveu a chamada Roda Polar
a que chamou de astrolabii nocturni, ficando no entanto conhecida por Noturlábio.
A roda era apontada à Polar, alinhando-se a data de observação a leste do orifício por
onde se fazia pontaria à referida estrela. A zona onde a Kochab tangia o instrumento
indicava a hora.

Roda Polar de Raimundo Lúlio (c. 1272)
- Neste exemplo da Roda Polar, no dia 15 de Abril, a Kochab indica 23 horas (na coroa
exterior em numeração romana), e na 3ª coroa indica ainda a duração média do dia (12 horas)
nesse mês.
Outros tipos de rodas foram surgindo, como as Rodas de D.Duarte. O princípio era o mesmo,
mas o método de contar o tempo diferia um pouco. Esta roda permitia ainda saber a hora aproximada
do nascer do Sol.

Rodas de D.Duarte (c. 1428)
- Com a Roda de D.Duarte fazia-se na mesmo pontaria à Polar através do
orifício central, mas alinhava-se sempre o mês de Janeiro a leste do orifício. O alinhamento
da data de observação indica a posição da Kochab à meia-noite dessa data. O número de intervalos
na segunda coroa entre a data de observação e a Kochab indica o número de horas que
faltam ou passam da meia-noite. Neste exemplo no dia 31 de Maio são cerca das 20 horas (24-2). Para saber
a hora do nascer do sol contamos, na segunda coroa, os intervalos entre a data da observação
na 1ª coroa e a mesma data na 4ª coroa, pelo que assim o Sol nasceria às 4,5 horas.
A Roda do Homem do Polo tinha um método semelhante à anterior, e a sua leitura
era feita consoante o Regimento de Évora. No exemplo que se segue, com a data de
observação em fins de Fevereiro, são cerca das duas horas depois da meia-noite.

Roda do Homem do Polo (c. 1490)
Regras do Regimento de Évora
- Janeiro meado, será meia-noite no braço esquerdo; e no fim do dito mês, será meia-noite uma
hora acima do braço.
- Fevereiro meado, será meia-noite duas horas acima do braço; no fim do mês será meia-noite na
linha do ombro esquerdo.
- Março meado, será meia-noite uma hora acima da linha; e no fim do mês será meia-noite duas
horas acima da linha.
- Abril meado, será meia-noite na cabeça; no fim do dito mês será meia-noite uma hora abaixo
da cabeça.
- Maio meado, será meia-noite duas horas abaixo da cabeça; e no fim do mês será a meia-noite
na linha do ombro direito.
- Junho meado, será meia-noite uma hora abaixo da linha; e no fim do mês será meia-noite duas
horas abaixo da linha.
- Julho meado, será meia-noite no braço direito, e no fim do mês será meia-noite uma hora
abaixo do braço.
- Agosto meado, será meia-noite duas horas abaixo do braço; e no fim do mês será meia-noite
na linha intermédia.
- Setembro meado, será meia-noite uma hora a baixo da linha; no fim do mês será meia-noite
duas horas abaixo da linha.
- Outubro meado, será meia-noite no pé; e no fim do mês será a dita meia-noite uma hora acima
do pé.
- Novembro meado, será meia-noite duas horas acima do pé; e no fim do mês será meia-noite na
linha intermédia.
- Dezembro meado, será meia-noite uma hora acima desta linha; e no fim do mês será meia-noite
duas horas acima da mesma linha.
Deo Gracias
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No séc.XVI a evolução destes instrumentos apresenta-nos o Noturlábio de Ponteiro, mais
preciso e fácil de usar.

Nocturlábio de Ponteiro séc.XVI
- Faz-se coincidir a data da observação com a alidade da roda menor e aponta-se, como de
costume, à Polar segurando o instrumento pela péga. Roda-se o ponteiro maior até este
tangenciar a Kochab. A leitura da hora é directa na zona onde este ponteiro intercepta
a coroa interior; neste caso aproximadamente 7h15 da noite do dia 11 de Fevereiro.

Nocturlábio de Ponteiro do séc.XVII
Os exemplos que descrevemos são todos relacionados com a estrela Polar, mas o Nocturlábio
também foi adaptado pelos nossos navegadores para as navegações no hemisfério sul. Nesses mares
socorriam-se do Cruzeiro do Sul, já que a Polar em latitudes abaixo do Equador já
não é visível.
Ao olhar-se para o polo sul celeste o movimento aparente da esfera celeste é inverso ao do hemisfério
oposto quando se está virado para Norte. Assim o instrumento teve de ser também adaptado, tendo inscrito
nos círculos os meses e as horas em sentido inverso. Como as estrelas a observar com o instrumento tinham
ascenções rectas diferentes, o ponteiro para a data de observação tinha de estar se acordo com as
estrelas pretendidas. Alguns instrumentos tinham mais do que um ponteiro para ser usado com mais do que uma estrela.

Nocturlábio para usar com o Cruzeiro do Sul do séc.XVII
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Última actualização: 14 de Outubro de 2002
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