
A cerimónia da Passagem da Linha, que ocorre quando os navios cruzam o equador no
sentido norte-sul, tem origens documentais pouco concretizadas.
Sabe-se que a passagem do estreito de Gibraltar, do Mediterraneo para o Atlântico, dava lugar,
no passado longínquo, a comemorações especiais. Os Cartagineses faziam sacrifícios aos deuses
quando por lá passavam. Era a entrada nesse grande oceano, então desconhecido, com todos os
mistérios e perigos a atormentar a alma dos marinheiros. Daí as cerimónias religiosas que se
praticavam, num apelo à protecção divina.
É de aceitar que também os Portugueses, ao atravessarem o equador, promovessem actos religiosos,
no temor das ameaças que pressentiam nesse oceano desconhecido. Com o decorrer dos tempos e
desvanecido o medo pelo conhecimento mais exacto dos caminhos do mar, é natural que as
cerimónias religiosas sobrevivessem sob a forma divertida que neste tempo assumem.
A primeira referência conhecida da cerimónia é um relato dos navegadores franceses João e
Raúl Parmentier, relativa a uma viagem à Sumatra, em 1529. Aí se diz que, ao cruzar o equador,
foi cantada a bordo uma missa dada a solenidade do dia.
A primeira notícia sobre o assunto relativa a navios portugueses, refere-se a 1666. Nesse ano,
os frades capuchinhos italianos Miguel Ângelo e Dinis Carlos embarcaram em Lisboa num navio
português com destino ao Congo, fazendo escala no Brasil. O relato dessa viagem, da autoria
daqueles religiosos foi publicada em italiano e, mais tarde, traduzido para inglês:
" Os Portugueses costumam ter certos divertimentos na "Passagem da Linha" e fazer feriado para
pedir a Deus o feliz sucesso de uma viagem tão perigosa. Cumprem também esta tradição antiga e
aqueles que nunca cruzaram a Linha são obrigados a dar aos marinheiros dinheiro ou alguma coisa
para comer ou beber, ou pelo menos algo que tenha algum valor, do que ninguém é excluído, nem
mesmo os "Capuchinhos", dos quais eles se tomaram rosários, santinhos e coisas semelhantes, as
quais postas à venda, deram dinheiro para dizer missas pelas almas do Purgatório.
Se qualquer um se revela avarento, e não paga tributo, os marinheiros, vestidos como oficiais,
levam-no preso a um tribunal, onde um marujo sentado, de capa comprida, fazendo parte de juiz, o
interroga, o escuta e o sentencia a ser mergulhado três vezes no mar do seguinte modo: o
condenado é atado fortemente com um cabo que passa numa polé presa a um lais de verga e, içado
deste modo, é deixado mergulhar três vezes no mar. E, assim, raro não há um ou outro que não
dê ocasião para os restantes se divertirem."
De assinalar a afirmação de que se trata de um antigo costume e, portanto, de uma tradição
que já em 1666 vinha de longe.
Descrições de autores portugueses não são muitas mas Francisco Maria Bordalo tem alguns relatos
de como eram as "Passagens da Linha" no século XIX. O Conde Von Lückner
também nos relata uma passagem na mesma época, mas na marinha mercante.
Nos nossos dias esta tradição continua com algumas variantes, mas sempre de modo festivo e bem
disposto. Enquanto que na Marinha se mantém a velha tradição, nos paquetes toma um aspecto
carnavalesco com ambiente de grande festa com música e dança. Nos veleiros de cruzeiro, o hábito
também não se perdeu e a tradição de um julgamento e baptismo forçado é a comemoração mais comum.
Este hábito pode parecer um pouco estranho, pois na realidade a linha por onde passa o equador
é mesmo imaginária e não acontece nada de diferente. É apenas um sentimento de uma barreira que
se venceu.

Uma pequena experiência pode no entanto ser efectuada neste momento. Arranje um recipiente de
boca larga com um furo no centro por onde possa escoar água. Repare que a água ao escoar forma
um remoínho que gira, no hemisfério norte, no sentido dos ponteiros do relógio (para se verificar
melhor o sentido coloca-se uma palhinha a flutuar sobre o remoínho). Ao passar pelo Equador
deixa de haver um sentido de rotação e à medida que se avança para sul o sentido inverte-se.
É sinal que já estamos no hemisfério Sul e podemos iniciar a cerimónia da passagem da linha.
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