
Francisco Maria Bordalo (1821-1861), capitão-tenente, foi o introdutor do romance marítimo
na nossa literatura. Amigo íntimo de Herculano, de Garrett e de outros intelectuais da época,
deixou páginas de muito interesse para o conhecimento da vivência a bordo dos navios do seu
tempo. Marinheiro aos 12 anos, estudou Matemáticas na Academia de Marinha. Como guarda-marinha
fez numerosas viagens a partir de 1837. As suas impressões de viagens foram
traduzidas pelo Times.
De algumas descrições de passagens da linha de autores portugueses reproduzimos aqui uma que nos dá uma ideia da praxe e dos personagens que entram na peça desta tradição. Noutro livro do mesmo autor, "Eugénio - Romance Marítimo", podemos comparar outro relato da passagem com o que se descreve a seguir:
(...)
Eis-nos cortando o Equador no estreito de Macassar. Bornéu já fica longe pela alheta de
estibordo; e por bombordo da proa aparece-nos a ilha de Celébes (...).
Vamos passar a linha pela última vez, nesta viagem, e faremos a festa que é de uso executar-se
quando saímos da pátria, e que cortamos o equinocial em direcção ao Sul. É um inocente brinquedo,
que, todavia, já tem acabado em tragédia. Expliquemos em poucas palavras este fenómeno, enquanto
se preparam as figuras do auto de bordo do «Proteu».
A festa da passagem da linha tem por fim arrancar àqueles que nunca sairam do hemifério em
que nasceram alguma pitança em proveito dos velhos navegadores de aquém e de além Equador; é
uma espécie de «patente», como pagam os caloiros da escola. Ora como sucede, às vezes, que um
dos novatos não quer exibir os «conquibus», ou não tenha real de seu, é então martirizado
pelos veteranos; segue-se a resistência, e brilham as facas à luz do sol, entre as fracas
tábuas do navio, que se balouça naquele abismo incomensurável. A bordo, porém, do «Proteu»,
não há que recear desgraça, porque toda a tripulação passou já nesta viagem a linha equinocial,
como o leitor se lembrará. Faz-se a festa, simplesmente pela festa, e pela a alegria de estar
próximo o regresso à Pátria.
A um apito do contramestre carregam-se todas as velas, e aparecem na proa os actores desta
comédia marítima. Um membrudo grumete de cor amulatada, com metade do corpo nu, e tocando uma
trombeta, precede o cortejo de Neptuno. Segue-se a guarda de corpo do mesmo deus, composta de
marinheiros armados, e que, por um costume imemorial, traja sempre à maometana; depois vem um
juiz escrivão, um barbeiro e o seu aprendiz, um padre e o respectivo sacristão, quatro
meirinhos, e o diabo com a sua grande cauda e vestuário de peles de carneiro. Todos estes
personagens, inúteis no caso especial do «Proteu», têm graves obrigações a desempenhar no
comum dos casos da passagem da linha; são eles os encarregados de prender, sentenciar, barbear,
confessar, e atazanar os novatos. Fecha o cortejo o próprio deus dos mares, acompanhado de
seus filhos, sobre um carro triunfal. Chegados à tolda, Neptuno ocupa o lugar de comando, e
começa a dar vozes de manobras disparatadas; um dos seus guardas vai tomar conta do timão;
outros postam-se de sentinela aos oficiais do navio; e o sacristão apresenta uma bandeja aos
passageiros, sobre a qual caiem voluntárias esmolas. Depois como não há ninguém a sentenciar,
o juiz e o sacerdote largam a beca e a batina, e ficando em trajes de mulher dão as mãos ao
barbeiro e ao aprendiz, e começam uma dança extravagante, ao som de vários instrumentos
discordes, que surgem da escotilha grande, tangidos por inexperientes tocadores
(...)
Francisco Maria Bordalo
in «Romances Marítimos» vol. II (Porto-Braga 1880)
Outro relato do mesmo autor.
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