
Quase a terminar o século XIX, em 1897, largou de Hamburgo o lugre russo «Niobe» rumo a
Freemantle na Austrália. A bordo ia um rapaz, fugido de casa e atraído pelo mar.
Viajou durante anos incógnito quanto às suas origens.
Este excerto faz parte do relato do Conde Von Lückner onde descreve a sua iniciação no
mar e posterior acção durante a primeira grande guerra:
(...)
O Baptismo da Linha constitui um passo importante na vida de um marinheiro. Administra-se a
todos que passam pela primeira vez, de um hemisfério para o outro. Desde a véspera à noite
grandes preparativos anunciavam a solenidade do acontecimento. Sobre uma plataforma, à proa,
apareciam espectros acinzentados, gritando: «Olá do navio? Como se chama o navio?» O
capitão respondia : «Venham por aqui». As aparições acabam de subir para bordo, por meio
de cordas, como se saíssem do mar. Era Neptuno com o seu cortejo de embaixadores e
batedores; perguntavam o nome do barco, o dos catecúmenos, que, manchados ainda da mácula
dos mares setentrionais, chegavam, pela primeira vez, às águas do Rei da Linha. Era-lhe
fornecida a respectiva lista.
Ele agradecia e, acompanhado do seu séquito, tornava a mergulhar no oceano até ao dia
seguinte. Ei-lo que regressa, para presidir ao baptismo, a barba branca, imponente no seu
ceptro e no seu manto ornamentado de algas marinhas. Atrás dele, a mulher, magníficamente
ataviada, depois o «pastor» e o barbeiro.
Este, era para barbear os catecúmenos, limpando-lhes assim, do pó da terra. Segue-se o grande
ensaboador, com o pincel e o pote de alcatrão. Finalmente, a polícia, formada por pretos.
O capitão saúda Neptuno, com a maior solenidade. Os catecúmenos desfilam pela sua frente;
verifica se não falta nenhum, e a polícia preta procede ainda a uma minuciosa busca por todos
os cantos do barco. Na ponte coloca-se uma grande celha cheia de água, o baptistério, sobre o
qual se atravessa uma comprida prancha. Os catecúmenos vão chegando um a um. Sentam-se.
O «pastor» lê-lhes uam epístola adequada à circunstâncias e pergunta-lhes se querem formular
os seus votos de baptismo. A cada «Sim» passam-lhes pela cara o pincel molhado em alcatrão, que
é a seguir tirado com as navalhas de pau. Depois, puxam bruscamente pela prancha; a vítima cai,
de cabeça para baixo da água, e sofre sete imersões seguidas. Está terminado o baptismo. O
neófito recebe um certificado e novo catecúmeno se dispõe a receber o mesmo tratamento.
Aos mais ingénuos dá-se-lhes um binóculo, com uma das lentes atravessada por um cabelo, que
eles tomam pela Linha.
Outrora as cerimónias do baptismo eram ainda muito mais severas; uma das partes, era dar a
volta ao casco. Os pés do catecúmeno eram atados por um cabo, passavam-lhe outro debaixo dos
braços, atirando com uma das pontas por sob o navio; obrigavam assim o desgraçado a efectuar
três passagens de uma borda à outra.
Os tubarões aproveitavam-se, às vezes, desta iniciação cruel.
A mim, Neptuno julgou conveniente infligir-me um baptismo bastante sério.
(...)
Conde Von Lückner
in «O Último Corsário» (Seeadler)
Outro relato de Francisco Maria Bordalo
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