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Volta ao Mundo em solitário (89 - 91)

Foi no dia 2 de Dezembro de 1989 que Manuel Gomes Martins deixou para trás o sonho e passou a enfrentar a realidade. Partiu sozinho, do mesmo local em que há cinco séculos os navegadores portugueses levantaram ferro à descoberta do Mundo.

Páginas do diário de bordo

"(...) A viagem para a Madeira, que normalmente demora 5 dias, durou sete dias e meio devido ao mau tempo. Ao fim do segundo dia de viagemo tempo deteriorou-se de tal modo que a atitude correcta teria sido abrigar-me na Costa de África, mas isso não aconteceu. Unimos os nossos esforços, misturando a valentia do "CASVIC" com o meu medo e conseguimos chegar ao Funchal (...)"

"(...) Das Canárias a Cabo Verde a viagem foi rápida. Fizemos 900 milhas em cerca de seis dias. No dia 16 de Janeiro de 1990 o "CASVIC" chegava à Ilha do Sal. Depois de muito vento e água, a âncora tocava o fundo da Praia de Santa Maria. Apesar de ter perdido material que ainda hoje não consegui substituir, Cabo Verde instalou-se definitivamente no meu coração. Foi o povo caboverdiano que muito me ajudou. (...) "

"(...) A travessia do Atlântico até Barbados, demorou dezanove dias, três dos quais de completa calmaria, percorrendo 2.200 milhas. O desejo de comida fresca tem a ver com as carências sentidas a bordo. Tive de racionar o tabaco e estive seis dias praticamente sem fumar. Não consegui apanhar peixe, para além dos peixes voadores que aterravam no convés (...)"

"(...) Foram 500 milhas difíceis entre Granada e Aruba, sobretudo à entrada desta, porque há muito vento à entrada da ilha. Entre Aruba e Panamá, por causa do estado do mar e do medo dos piratas, vivi um pesadelo. Nessa noite, o "CASVIC" foi heroi e conseguiu fazer rápidamente 120 milhas para noroeste. (...) "

"(...) A viagem entre o Canal do Panamá e Galápagos correu bem e o "CASVIC" conseguiu fazer 950 milhas em dez dias. É a primeira vez que navego no maior oceano do mundo, cheio de vida, com aves e peixes. (...)"

"(...) A travessia entre Galápagos e as Marquesas, que significam o começo da Polinésia, durou 25 dias e o mar não foi fácil, pois estava desencontrado e o vento não foi regular, obrigando-me a muitas horas de vigilância ao piloto automático. Durante a viagem passei a maior parte do tempo dentro da cabine a ler e a ouvir música, pois lá fora as ondas rebentavam contra o casco e varriam o convés. Consegui pescar, o que me valeu alimentação fresca durante vários dias. A determinada altura vi pássaros e Fatu Iva à vista. Gritei e emocionei-me, uma lágrima rolou. Quem anda no mar, sabe que ao fim de um mês, sem ver ninguém, só água e céu, dar com a ilha que se quer e tê-la na proa do barco, é fantástico (...)"

"(...) Tenho passado a maior parte do tempo dentro do barco, já não tenho posição. De pé não posso estar, pois passo o tempo desiquilibrado. Cai tudo, entorna-se tudo, partem-se os termos. Estas 3.100 milhas de travessia do Pacífico correspondem à parte deserta, não há praticamente navegação. De vez em quando vou lá fora e vejo correr o mar (...)"

"(...) Tahiti é um marco para quem navega o Pacífico. A cultura francesa tem muita influência. Já não é o mesmo que se lê nos relatos das antigas viagens, nem se vive da mesma maneira que viveu Gaugin. Encontro-me fundeado e a chegada foi muito turbolenta. Ainda bem que tomei a decisão de passar por fora do arquipélago de Tuamotre, porque soube hoje que dois barcos (um suiço e um alemão), que ali tinham passado, se afundaram. (...)"

"(...) Ao fim de 14 dias de mar avistámos Samoa e o "CASVIC" fundeou em Pago-Pago à uma da manhã. Foi a minha primeira entrada de noite. Nestas paragens, alguns homens ainda usam o "pareo" um pano enrolado à cintura. (...)"

"(...) Navegamos agora o mar de coral. Ainda faltam 1.800 milhas até Thursday Islands o meu primeiro porto australiano. Estou já perto do estreito de Torres, onde não é fácil navegar. Há muitas correntes. No dia 19 de Agosto o "CASVIC" chegou à Austrália. (...)"

"(...) O percurso entre Mauritius e Durban é dos que pior reputação teem entre os marinheiros. Para nós, na segunda semana, chegou o primeiro aviso. Durante um dia mal conseguimos andar para a frente. O vento era forte e deu para travar o "CASVIC". Eu precisava de ter confiança no meu barco. Conseguimos passar a parte sul de Madagascar sem dificuldades. O problema surgiu depois com um grande temporal, que durou 36 horas, reduzido ao terceiro rizo da vela grande e ao bocadinho da genoa. (...)"

"(...) O "CASVIC" está a tentar atravessar a corrente das Agulhas. As vagas teem 8 a 10 metros, mas não estão a rebentar. O barco vergou um bocadinho, mas rápidamente recuperou. Cai uma chuva terrível e não consigo divisar muitas das marcas indicadoras da entrada do porto de Durban. Uma hora da manhã do dia 2 de Dezembro. Um ano depois de ter saído de Lisboa, o "CASVIC" entrou em Durban. O tempo está frio e chove. Mas tinhamos amigos à nossa espera. Tinha valido a pena. (...)"

"(...) A ilha de Ascenção é um ponto de paragem em pleno Atlântico. Assiti a belo espectáculo, mesmo na praia onde o "CASVIC" fundeou: a postura das tartarugas do Atlântico sul. A partir dos cinco anos de idade, as tartarugas veem desovar na praia durante os meses de Março e Abril. As que vi tinham cerca de cem anos. (...)"

"(...) A 27 de Abril de 1991 às quatro horas da manhã, toco pela segunda vez um porto das ilhas de Cabo Verde, terminando assim, oficialmente, com êxito a viagem de circum-navegação em solitário. (...)"


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Última actualização : 1 de Abril de 1996
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