A.N.C. - de Portugal à Índia

Associação Nacional de Cruzeiros

de Portugal à Índia
500 anos depois
Manuel Martins, 47 anos de idade, e o "CASVIC", a sua embarcação de 10
metros, evocaram a memória de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, na viagem de Portugal à Índia.
Foram cerca de 27.000 milhas, o equivalente a uma volta e um quarto do perímetro do globo. Na sua
bagagem tem uma volta ao Mundo em solitário, tendo sido, até agora, o único
navegador português a realizar tal feito.
Diário de Bordo do "CASVIC"
17 de Novembro de 1996
Saída de Lisboa acompanhado até à foz do Tejo por algumas embarcações, rumo a Sines. Nessa
escala, terra natal de Vasco da Gama, foi feita uma evocação com o Presidente da Câmara.
No dia seguinte a primeira contrariadade.
"... não é que verdadeiramente houvesse mau tempo. O problema é que havia uma previsão de
vento de sudoeste e mar forte com vagas de 4 a 5 metros que por sinal até agora não aconteceu.
Se tivessemos feito a saída directa Lisboa - Funchal estávamos psicológicamente preparados.
No mar temos de aceitar aquilo que nos aparece ..."
O "CASVIC" navegou durante 5 dias com ventos fortes que rasgou a genoa. Durante os 6
dias de escala no Funchal foi reparada para fazer face às 1200 milhas até Cabo Verde.
"... estamos práticamente a terminar a travessia entre o Funchal e Cabo Verde. Provávelmente
amanhã à noite podemos começar a avistar S.Vicente. É uma viagem sem história, tirando os
primeiros 2 dias em que houve de facto um tempo mais adverso. Saímos do Funchal com ventos
de cerca de 40 nós e o primeiro dia foi particularmente duro. Valeu-me a companhia do Jorge,
que neste momento está a descansar. Sem ele teria sido um começo de viagem um bocado duro.
Peripécias aconteceram poucas. Pescámos dois peixes, vimos alguns navios e passamos o tempo
a ler e a conversar. No dia de ontem e anteontem houve bastante vento e o hoje o tempo
começou a melhorar, mas voltaremos a ter vento no canal de S.Antão. Fizemos uma boa média de
7 dias ..."
8 de Dezembro de 1996
Chegada ao Mindelo, ilha de S.Vivente, Cabo Verde, para matar saudades. Aproveitei para reparar
mais uma vela danificada à saída da Madeira.
17 de Dezembro de 1996
Largada de Cabo Verde rumo à ilha de Fernando de Noronha no Brasil, desta vez em solitário.
"... estamos na Noite de Natal. São 12h45 e estou a 1ºN 31ºW a dois dias de chegar a Fernando
de Noronha...
...está tudo a correr bem , o único contratempo foi a refeição. Não correu bem porque o
bacalhau que trouxe não me parecia bom e tive de preparar outro tipo de jantar. Desejo que
quem está em terra esteja a ter uma boa consoada."
"... esta vista do "CASVIC" é lindíssima! Estamos a chegar a Fernando de Noronha numa travessia
que correu de certa forma um bocadinho agitada.
De Lisboa ao Funchal e depois para Cabo Verde fi-la com companhia, pe-lo que ganhei vícios.
De modo que quando me encontrei de novo sózinho tive de adaptar-me outra vez a estar isolado.
Os primeiros 2/3 dias não foram dias de desespero, mas de desalento.
Estava profundamente triste por estar só. Agora, tal como na
Volta ao Mundo, voltei a endurecer, e as coisas estão de novo a correr bem.
A viagem não teve incidentes. O "CASVIC" portou-se bem e fez esta parte muito rápidamente.
Amanhã de manhã quando chegarmos faremos 10 dias.
A zona dos Doldrams, 300 milhas antes do Equador e um pouco para o Sul deste, esteve muito reduzida
apenas no 3º/2º N tive dificuldades com o céu a tornar-se muito escuro e com vento muito forte
para 5 minutos depois faltar e novamente aparecer. Chove com abundância, mas tudo isto passou
quando voltou o vento Sueste, o normal desta zona.
Em Fernando de Noronha voltarei a ter companhia, a equipa da RTP, que me acompanhará
até ao Recife e Porto Seguro."
27 de Dezembro de 1996
O "CASVIC" fundeou em Fernando de Noronha. Nunca tinha lá estado e era um dos pontos do Atlântico
que faltava conhecer.
Os seis dias de escala servira para apreciar a beleza da ilha ainda a salvo das invasões
turísticas. Desta vez o ano novo foi passado em terra numa grande festa organizada pelo principal
comerciante da ilha com centenas de convidados vindos de toda a parte do Brasil.
2 de Janeiro de 1997
Os golfinhos apareceram a escoltar o "CASVIC" até ao alto mar quando levantou ferro rumo
ao Recife.
"Hoje temos para o almoço esparguete à bolonhesa, para variar. Já não comemos esparguete à bolonhesa
à dois dias..."
Já perto do Recife foi pescado um dourado com mais de quinze quilos. O bicho era muito grande!
"- Isto dá para duas refeições. Estamos quase a entrar no Recife e isto é uma judiaria! Eu solto o
bicho! Ele recupera.
- Então e o jantar?
- Ao jantar comes esparguete. Aquilo é peixe para uma dúzia."
"Estamos a cerca de 40 milhas do Recife. Isto é um percurso de 290 milhas. A retrospectiva não
tem grande história. O mar bom. Vento de feição de Sueste. Uma viagem muito confortável onde
me dediquei a pôr os acontecimentos em dia. Saber notícias do país, saber o que se passa na nossa
terra. Temos descansado, conversado e pescado ... infelizmente o peixe era grande, e contra
a vontade dos meus companheiros, foi devolvido ao mar. Era um peixe para uns 15 dias."
5 de Janeiro de 1997
Chegada ao Recife. 500 anos depois, Manuel Martins, foi bem acolhido ao chegar a terras de
Vera Cruz. A comunicação social não o esqueceu e estava à sua espera. Durante a escala de
uma semana aproveitou para conhecer a cidade.
"Estou a dois dias de partir do Recife e houve aqui uma pequena decepção. Estava a contar com
companhia neste percurso de 1.000 milhas até ao Rio de Janeiro. Será mais um em solitário e ao
que parece o resto da viagem também. Assim volta tudo ao normal que é um navio em solitário
porque as companhias vão rarear cada vez mais ..."
Manuel Martins partiu depois do Rio de Janeiro em direcção à Africa do Sul até chegar
à Índia, passando por Moçambique e pelo Quénia.
Chegou a Sines a 26 de Junho e a Lisboa dois dias depois tendo sido recebido por inúmeras embarcações
que o aguardavam em S.Julião da Barra e o acompanharam até Belém.
Contamos logo que nos for possível completar finalmente o seu Diário de Bordo desta aventura.
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Última actualização : 6 de Julho de 1998
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