
Lá diz o nosso ditado que Quem vai para o Mar avia-se em Terra. Todos sabemos que no mar não temos as mesmas facilidades que em terra e por isso uma preparação conveniente da tripulação, embarcação e viagem reduzem ou eliminam algumas dificuldades que possamos vir a enfrentar.
As sugestões e lista de materiais que abaixo se apresentam são apenas um ponto de partida e de
referência para que cada um elebore a sua lista. Cada um deve adaptá-la à sua viagem, barco e tripulação
e discuti-la com os mais experientes as suas próprias necessidades. Esta lista, um pouco exaustiva,
será para um cruzeiro de algumas semanas ou meses em alto-mar, devendo ser adaptado para outras
durações e distâncias.
O cálculo dos custos, em combustível, alimentação, comunicações e outros (marinas, taxas, etc.),
não deve ser descurado.
Será um dos aspectos importantes a considerar. O sucesso de um cruzeiro depende em muito
da tripulação e do bom ambiente a bordo. Momentos bem passados só trazem boas recordações.
A selecção da tripulação não deve ser efectuada com muita antecedêndia, pois durante o
periodo que antecede a partida as disponibilidades alteram-se mediante imprevistos ou o
entusiasmo inicial que alguns manisfestam no início tende a desaparecer com o tempo.
O melhor será ter já um esboço avançado da viagem antes de abordar alguém. Data de partida,
duração do cruzeiro, escalas, divisão de custos, etc.
O espaço a bordo tende rapidamente a diminuir com o tempo, provocando stress nos tripulantes,
podendo dar origem a conflitos mais ou menos graves que convém prevenir. A duração da
viagem (dias no mar sem escala), a extenção do cruzeiro (total dos dias), tamanho e instalações
do barco ditará o número de tripulantes. É importante que cada tripulante tenha o seu próprio
espaço e função definida. Cozinheiro, navegador, etc.
A escolha deverá ter em conta os seguintes aspectos: saúde física, boa relação entre os escolhidos
e a capacidade de cada um para a viagem. Deverá ser também tomado em conta que pelo menos um dos
tripulantes seja capaz de assumir o comando no caso de algum imprevisto.
É muito importante a participação na preparação desde o início pois facilitará a integração no grupo.
Fazer umas saídas ou passar um fim-de-semana em conjunto será um bom teste para observar o
comportamento da tripulação. Um cruzeiro não começa só no dia de largada ...
Recomendamos por isso:
Resumindo:
Comandante (responsável cujas decisões têm de ser respeitadas)
Tripulantes (boa relação, experiência, tarefas bem definidas, espaço e responsabilidades
próprias)
Distribuição dos turnos (preferência aos pares de 2 a 4 horas)
Trocas de tripulantes (pontos de escala)
Saúde - fazer uma revisão à condição física (dentista!, análises, vacinas, etc.) e psíquica
de cada um (motivação - passar muito tempo seguido no mar, não é para todos).
Despesas - comparticipação nas despesas
Uma embarcação em bom estado oferece confiança a todos. Deve ser revista no que respeita ao casco (estado geral, leme, machos, bombas de esgoto, etc.), aparelho (brandais, estais, fixações, etc.), motor (circuito de refrigeração, filtros, óleo, depósitos, etc.), e parte eléctrica (alternador, baterias, luzes, instrumentos, etc.) pois a assistência técnica poderá ser diminuta ou mesmo nula em alguns portos. Os suplentes e uma boa caixa de ferramentas sabemos que não são demais.
As revisões e reparações não devem ser feitas em cima da hora, pois é frequente que as coisas não fiquem bem à primeira sendo necessários ajustes posteriores. Qualquer peça em dúvida deverá ser sempre substituída. Não é demais lembrar que, no meio do mar a loja ou mecânico não estão disponíveis.
O interior também é importante. Os arrumos, os espaços de cada um, a cozinha, o frigorífico, as sanitas,
fazem parte do conforto necessário a bordo. A estanquicidade dos albois, da enora, passa-fios, etc.,
deve ser garantida para que comida, roupa ou outro material se mantenha em condições e bem isolada da
água. Os depósitos de água devem ser desinfectados e a tubagem revista. A botija de gaz deve estar num
local bem arejado e com as mangueiras de ligação ao fogão sem roturas. Verifique também se a torneira de
segurança funciona bem (a da garrafa e a de corte no circuito).
Rever/Lembrar:
O estudo prévio da meteorologia, do percurso, com a leitura atenta dos roteiros, cartas e demais literatura, as marcações das derrotas, só simplificará a viagem e nas alturas próprias trará os seus benefícios. Saber onde se abastecer de alimentos e combustível faz parte do planeamento da viagem. Não se esqueça também, se for caso disso, de reservar o lugar na marina.
Por vezes o equipamento lembra-se de falhar, e vá-se lá saber porquê é sempre quando estamos
a navegar! A redundância de alguns instrumentos, como o GPS, VHF ou piloto-automático é
bastante útil.
Um ponto muito importante ainda a ser lembrado. É sempre sensato ter um contacto que
o siga em terra. Não se esqueça de deixar a sua previsão da viagem a essa pessoa e contacte-a
regularmente informando-a da situação a bordo e alterações da viagem. Avise as autoridades e
algum familiar ou amigo em terra da sua largada, rumo e porto de destino. Não se esqueça também
de o informar da sua chegada.
Rever/Lembrar:
Será necessário lembrar? Nunca é demais fazê-lo. A prevenção é sempre a primeira atitude. Não se deve correr riscos desnecessários e cada tripulante deve estar bem consciente disso.
Em primeiro lugar a embarcação deve oferecer a segurança necessária para o tipo de cruzeiro que se vai efectuar. O equipamento de segurança deve estar operacional e pronto a ser imediatamente usado por qualquer tripulante. Por isso todos devem saber o que fazer nas diversas situações que eventualmente se lhe deparem. Homem ao mar, incêndio, rombo, tempestade, avaria, etc.
Será bom cada um levar sempre um apito (idêntico aos dos coletes) pendurado ao pescoço. O colete pode
também estar equipado uma lanterna de flash estanque (e com pilhas!) e com fachos guardados
em sacos estanques. Deve equipar-se com o arnez sempre que o mar enrijar, ou for trocar uma vela à proa.
De noite, mesmo com mar calmo, deve usar sempre o arnez (preso à linha de vida!). Uma queda de um
tripulante ao mar, e sobretudo de noite, é dramática. Lembre-se que os acidentes não acontecem só aos
outros!
Aqueles pirotécnicos fora de validade (não quer dizer que não estejam operacionais) podem também
embarcar. Guarde-os no fim do arrumo para os usar quando gastar aqueles que estavam dentro do prazo.
Com certeza que não se vai arrepender. Também não nos parece uma má ideia treinar uma manobra de
homem ao mar.
Antes de sair verifique que o estado do mar e a previsão meteorológica são favoráveis para
a sua viagem. Não ponha em risco a segurança da sua tripulação e do próprio barco. Se necessário
fique em terra e aproveite para conhecer melhor a região. Não é uma decisão cobarde mas sim
sensata!
Rever/Lembrar:
Comer bem é uma das chaves do sucesso dum cruzeiro (e não só...). Planifique um menú (variado),
pois facilita a aquisição dos alimentos.
A água não deve faltar a bordo. Não é recomendável, mas se tenciona beber ou cozinhar com a
água dos depósitos, deve lavar muito bem os depósitos com lexívia e muita água. Se quiser
poderá depois adicionar desinfectantes apropriados. A inexperiência levará a consumos excessívos
na lavagem da louça e sobretudo na higiéne pessoal. Pode lavar a louça com água salgada e mesmo
cozinhar, se lhe adicionar pelo menos quatro partes de água doce. Na sua higiéne depois de se
lavar com água do mar poderá retirar o sal utilizando uma toalha molhada em água doce.
Deve ter muita água a bordo, de preferência fria para combater a desidratação. A água
engarrafada é a mais segura, devendo contar-se com uma média de 1,5 litros por dia e por
pessoa. Sumos e bebidas doces devem ser usados com descrição, pois aumentam a sede e o consumo
de líquidos. As bebidas alcoólicas devem ser sempre usadas com moderação e nunca usá-las como
bebidas hidratantes, é um grave erro.
Evite os enlatados que devem ser sempre uma comida de emergência. Rejeite as latas amachucadas
e que produzam ruído de ar quando abertas, por se encontrarem estragadas. A intoxicação por
alimentos enlatados pode ser mortal. Evite comidas gordurosas e use e abuse das verduras e
frutas. Não abuse do pão e farinácios para simplificar a cozinha. Tenha sempre gelo a bordo,
nem que seja apenas para as bebidas, abrindo a geleira apenas o tempo indispensável para não
perder frigorias. Pescar, além de um passatempo, pode fornecer comida fresca, mas não conte
sempre com a sorte!
Os principais problemas são resultantes da desorganização de horários, da quantidade e
qualidade da comida. Comida duvidosa deve ser deitada fora! Os seus efeitos no organismo podem
ir desde uma ligeira indisposição, com alterações no trânsito indestinal, até a uma gastroenterite.
O enjoo será agravado pelos problemas citados.
Abastecer pode ser complicado quando as tiradas são compridas. Tanto na diversidade como depois
na arrumação a bordo. Compre sempre produtos frescos e sem «toques», caso contrário têm
tendência, esses e aqueles que estão em contacto, a detriorarem-se mais depressa.
Evite levar alimentos só porque são mais baratos que na próxima escala. Além de se poderem
estragar ocupam espaço. Leve antes alimentos em excesso que não consegue comprar nos portos
ou locais onde vai fazer escala e, claro, que não se degradem.
Não compre embalagens do tipo «familiares». Prefira antes as pequenas pois arrumam-se melhor.
Num barco todos os arrumos são poucos e por vezes é necessário inventar espaço. Seja organizado
e procure dispor das coisas de modo a não retirar logo no primeiro dia uma lata que ficou
arrumada mesmo em baixo de tudo o resto. Com uma caneta própria marque as latas com o seu
conteúdo, validade, etc., pois os rótulos com a humidade têm tendência para se descolarem!
Abrir uma lata de feijão em vez da de grão para o nosso bacalhau obriga com certeza a algum
improviso de cozinha.
Atenção com garrafas e outros vidros. Acondicione bem pois todos sabemos os balanços violentos a
que o barco está sujeito.
Os alimentos devem ficar em local fresco e bem secos. Frutos e outros géneros perecíveis podem ser
colocados em redes penduradas no tecto. Garrafas de água podem ser guardadas debaixo dos paneiros.
Tenha uma lista dos alimentos onde pode controlar aquilo que vai gastando e é necessário
comprar na próxima escala. Arranje um responsável pela cozinha e o seu abastecimento. Normalmente
será o cozinheiro!
Programe bem os abastecimentos, prevendo sempre uma duração de viagem maior que a esperada.
Rever/Lembrar:
Não se esqueça de reunir todo o lixo possível de contaminação e que não seja bio-degradável (pilhas, latas, plásticos, vidros, tecidos, etc.) em sacos próprios que deverão ser colocados em contentores do lixo à chegada de cada porto. O mar não é nenhum contentor de lixo!
Roupa dependendo para os locais por onde pensamos navegar, coisas da nossa higiéne pessoal, a nossa almofada ou o livro, documentação, dinheiro, máquina fotográfica, ferramenta, um sem número de artigos que num dado momento nos poderão fazer falta.
Rever/Lembrar:
Com certeza que faltará, nalguns casos, ou estará a mais, para muitos outros, algum material. Mas como se disse no início, esta lista é apenas um ponto de partida para que cada um elabore a sua.
Resta-nos desejar uma boa viagem, e sobretudo uma navegação cuidada.
Página principal da A.N.C.
Coloque aqui o seu correio, sugestões, ou informações.