
Em 1869 Eça de Queiroz encontrava-se no Egipto na companhia do seu amigo conde de Rezende.
Assistiu à inauguração do canal de Suez deslocando-se a bordo do Fayoum. Vale a pena saborear a
carta sobre acontecimento, que Eça de Queiroz enviou ao Diário de Notícias, no português
da época.
« Snr. Redactor: - Accedo da melhor vontade ao seu desejo de que lhe escreva a historia real
das festas de Suez. Conto-lhe, porém, simplesmente e descarnadamente, o que me ficou em memoria
d'aquelles dias confusos e cheios de acontecimentos, tanto mais que as festas de Suez estão
para mim entre duas grandes recordações - o Cairo e Jerusalem: estão abafadas, escurecidas por
estas duas luminosas e poderosas impressões: estão como pode estar um desenho a lapis, entre
uma tela resplandecente de Decamps, o pintor do Alcorão, e uma tela mortuaria de Delaroche, o
pintor do Evangelho.
Talvez em breve diga o que é o Cairo e Jerusalem na sua crua e positiva realidade, se Deus
consentir que eu lhe escreva o que vi na terra dos seus Prophetas. Hoje faço-lhe apenas a
narração trivial, o relatorio chato das festas de Port-Said, Ismailia e Suez.
..... Tinhamos voltado, eu e o meu companheiro, o conde de Rezende, d'uma excurção ás Pyramides
de Gizeh, aos templos de Sakkara e ás ruinas de Memphis, quando no Cairo soubemos que estavam
na bahia de Alexandria os navios do Khediva que deviam levar-nos a Port-Said e Suez.

Vinhamos do socego do deserto e das ruinas, e logo na gare do Cairo, ao partir para Alexandria,
começámos a envolver-nos, bem a custo, n'aquella confusão irritante que foi o maior elemento de
todas as festas de Suez. A previdente penetração da policia egypcia tinha esquecido que trezentos
convidados, ainda que não tenham a corpulencia tradicional dos pachás e dos visires, não pódem
caber em vinte lugares de wagons, estreitos como bancos de réos. Por isso, em volta das carruagens,
havia uma multidão tão avida como no saque de uma cidade.
Jonas Ali, o nosso drogman, um nubio, intrigou, conspirou, clamou e alcançou-nos n'uma carruagem
de segunda classe, miseravelmente desmoronada, dous lugares empoeirados.
Confesso que foi com o maior tedio que comecei a atravessar a magnifica natureza do Delta. Demais,
os caminhos de ferro egypcios não teem velocidade fixa. Vão aos caprichos do machinista, que, de
vez em quando, pára a machina, desce, accende o cachimbo, ri com algum velho conhecimento de
estrada, sorve minuciosamente o seu café, torna a subir bocejando, e faz partir distrahidamente o
comboio. N'esse dia, porém, o ar estava nublado, chuvoso; o machinista levou-nos rapidamente a
Alexandria. Na bahia esperavam o Marsh, o Fayoum, o Behera, navios do Pachá.
O embarque fez-se com a confusão habitual, complicada com os embaraços d'um mar agitado: os barcos
iam cheios de gente, uns de pé, outros sentados na borda, roçando pela agua, outros gravemente
equilibrados sobre a accumulação pittoresca das bagagens: ria-se, fulminava-se a organização e a
policia das festas, gritava-se um pouco quando os barcos pesados oscilavam mais inquetadoramente.
Nós subimos para o Fayoum, que devia levantar ferro n'essa tarde, apesar do tempo
contrario e dos mares que viamos partir de longe na linha de rochedos, que precede a bahia de
Alexandria. E ao outro dia, por uma bella manhã, entrávamos em Port-Said por entre dous grandes
molhes que se adiantam parallelamente pelo mar, feitos de poderosos blocos de pedra solta. Port-Said
é uma cidade improvisada no deserto. É uma cidade de industria e de operarios: estaleiros, forjas,
serralharias, armazens de materiaes, apparelhos distillatorios. A sua construcção foi determinada
pela necessidade de haver um vasto porto, que fôsse uma estação de navios, á entrada do canal, e
primitivamente para que engenheiros, machinistas, directores de obras tivessem um centro. Isto
dá-lhe um aspecto de cidade provisoria. Como havia espaço, as ruas são largas como praças e
compridas como avenidas: as casas são baixas, de materiaes ligeiros: sente-se a construcção
rapida e a incerteza da duração. Apesar dos seus doze mil habitantes, não ha ainda alli um viver
definitivo e regular. Não ha estabelecimentos feitos na esperança de duração: Não ha commercio
fixamente estabelecido: tudo tem o aspecto d'uma feira, que hoje ganha e se anima, e ámanhã se
levanta e se dispersa. E isto porque, apesar da confiança de toda a população na properidade do
canal, nenhuma profissão, nenhum negocio se quer arriscar a estabelecer-se d'num modo definitivo,
correndo o perigo de vêr aquelle começo de cidade estiolar-se e morrer miseravelmente. Pois tal
seria a sorte de Port-Said, bem como de Ismailia, se o canal fôsse uma inutilidade, abandonado
do commercio e da navegação.
A sua construcção resente-se, pois, d'estas circumstancias: nem edificios, nem monumentos, nem
habitações solidas e serias: tudo é ligeiro, barato, temporario. A igreja catholica é como uma
grande barraca: vê-se o céo azul atravez do seu tecto feito de grandes traves mal unidas. D'ahi
o aspecto triste de Port-Said. No fim das festas, tempo depois, quando alli tornei a passar, em
viagem para Jerusalem, pareceu-me pela apathia de vida, pelo silencio, que o deserto começava
de novo a apparecer por entre aquella fraca apparencia de cidade.
Mas n'aquelle dia 17, da inauguração, Port-Said, cheio de gente, coberto de bandeiras, todo
ruidoso dos tiros dos canhões e dos hurrahs da marinhagem, tendo no seu porto as esquadras da
Europa, cheio de flamulas, de arcos, de flores, de musicas, de cafés improvisados de barracas
de acampamento, de uniformes, tinha um bello e poderoso aspecto de vida. A bahia de Port-Said
estava triumphante. Era o primeiro dias das festas. Estavam ali as esquadras francezas do levante;
a esquadra italiana, os navios suecos, holandezes, allemães e russos, os egypcios, a frota do pachá,
as fragatas hespanholas, a Aigle, com a Imperatriz, o Mamondeh com o kediva, e
navios com todas as amostras de realeza, desde o imperador christianissimo Francisco José, até
aos kediva arabe Ábd-el-Kader. As salvas faziam o ar sonoro. Em todos os navios empavesados e
cheios de pavilhões a marinhagem prefilada nas vergas saudava com vastos hurrahs. De todos os
tombadilhos vinha o vivo ruido das musicas militares. O azul da bahia era riscado em todos os
sentidos pelos escaleres, a remos, a vapor, à vela: almirantes com os seus pavilhões, officialidades
todas respladencentes d'uniformes, gordos funccionarios turcos afadigados e apopleticos, viajantes
com os chapéus cobertos de veus e de couffis, cruzavam-se ruidosamente por entre os grandes
navios ancorados; as barcas decrepitas dos arabes, apinhadas de turbantes, abriam as suas largas
vellas d'azul. Sobre tudo isto o ceu do Egypto d'uma côr, d'uma profundidade infinita. Á noute
a cidade illuminava-se, enchia-se de musicas, de festas populares. As esquadras tinhas as suas
armações e cordagens, cobertas de fios de luz. Durante toda a noute os fogos d'artificio n'uma
grande linha de terra, faziam sobre o ceu escuro, grande bordado luminoso.
Na bahia havia um viver completo, como n'uma cidade: bailes a bordo dos navios, jantares, visitas
trocadas, recepções, passeios a remo, serenata dos escaleres. De tudo isto saía uma luz, um ruido
um fluido de vida poderosamente original. Havia em Port-said um café cantante memorável pela
excentricidade da sua alegria: estava tão cheio de gente que era necessário fumar, beber, ouvir,
de pé, suffocado, hirto. Quando no palco aparecia a atriz para dizer a sua canção, as mil vozes
d'aquella imensa multidão, acompanhadas pelo tenir cadênciado dos corpos, do bater dos pés, dos
assobios, dos uivos, dos gritos, começava repetindo com estrondo assombroso, a canção conhecida
da atriz. Era bestial e extraordinário. No dia seguinte ao da chegada descemos todos a terra para
a cerimónia da inauguração. Do lado opposto aos molhes, para além da cidade, tinham-se construído
três pavilhões, estrados tapetados e blasonados, sobre a areia húmida da espuma do mar. Era n'esse
logar a celebração religiosa: os ulemas e os padres christãos deviam abençoar e consagrar nos
seua ritos o canal de Suez. Um grande cortejo de convidados, precedido dos principes, entre os
quaes sobresaia a pensativa e bella figura de Abdel-Kader, dirigiu-se para esse logar, entre duas
fileiras de soldados egypcios, de arcos, de bandeiras, e de arabes que abriam grandes olhos. No
pavilhão principal, de côres triuphantes, collocavam-se os convidados reaes e imperiaes e os
mais que podiam caber: no outro pavilhão estavam os ulemas mahometanos, no terceiro os padres
latinos, gregos, armenios e coptas.
Quando todos tomaram os seus lugares e o grande rumor da chegada se acalmou, os ulemas prostraram-se,
voltados para o lado de Méca, os padres christãos começaram a missa, a artilheria salvou nas
esquadras. Entretanto a multidão apinhava-se sobre a arêa humida e em volta dos estrados; a
grossa figura vermelha do Khediva estava radiosa, a Imperatriz tinha um ar de satisfação
discreta, o Snr. de Lesseps tinha o seu bello e intelligente sorriso. Em redor e até ao fundo
horisonte, o mar sereno reluzia. Quando a artilheria findou, Mr. Bauer adiantou-se á beira do
estrado e fallou. Mr. Bauer é um homem baixo, pallido, de cara feminina e larga, cabellos
pendentes em anneis sobre os hombros, asseado, barbeado, perfumado, delicado e com uma voz
assombrosa. O que elle dizia era palavras de fraternidade entre o Oriente e o Occidente,
esperanças de uma humanidade mais unida por aquella ligação maritima, palavras affaveis aos
convidados reaes, e recordações piedosas dos corajosos trabalhadores, que durante aquella obra
de lucta morreram obscuramente. Quando elle disse o nome do Snr. de Lesseps, toda a immensa
multidão bateu as palmas. Mr. Bauer findou, e o cortejo voltou á praia e dispersou-se pelos
navios. Durante toda a noite os fogos de artificio, os clamores alegres da cidade, o ruido dos
escaleres, as musicas, encheram a bahia de vida.
Ao outro dia os navios começaram a mover-se lentamente, voltando a prôa para um ponto da bahia
de Port-Said, onde se erguiam, como os dous humbraes de porta, dous obeliscos de madeira
pintados de vermelho.
Era a entrada do canal de Suez. »
Eça de Queiroz
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