
O lugre Gazela Primeiro, foi construído no estaleiro de J. M. Mendes, em Setúbal, Portugal. Os registos, relativos à sua actual forma, datam de 1901, mas existe boa evidência de que as madeiras usadas na sua construção são do navio Gazella (com 2 L’s) que foi construído em 1883 em Cacilhas. Pinho português foi a principal madeira usada no casco e coberta, enquanto os mastros e vergas são de Pinheiro-do-Oregon.
O Gazela Primeiro foi construído para transportar pescadores para a pesca do bacalhau nos Grandes Bancos da Terra Nova. Juntamente com o Argus, o Creoula e outros, fez parte da última frota de veleiros mais emblemática do mundo. A famosa «White Fleet», a frota bacalhoeira portuguesa.

Em cada Primavera o Gazela Primeiro deixava o porto de Lisboa com 35 dóris empilhados na coberta como chávenas umas sobre as outras e uma tripulação de 40 pessoas (onde se incluíam 35 pescadores/marinheiros e 2 cozinheiros). Transportava sal que era depois usado para conservar o peixe capturado (bacalhau, solha, palmeta, eglefim). Só os registos de 1903 e 1904 é que sobreviveram, por isso pouco se sabe dos primeiros anos do lugre. Em 1903 o capitão era Paulo Fernandes Bagão. Iniciou o registo a 18 de Maio desse ano. Com uma tripulação de 50 pessoas, levantou ferro às 5 da manhã, foi rebocado rio Tejo abaixo e rumou a oeste ao longo do paralelo 38 até atingir águas fundas. A uma média de 100 milhas por dia atingiu os Grandes Bancos a 7 de Junho, depois de ter percorrido 1.900 milhas. Os 126 dias seguintes foram passados naquela zona, colocando diariamente (desde que o tempo o permitisse) os dóris na água, fazendo deslocações ocasionais a St. John´s para reabastecimento.
A capacidade do navio era de 350 toneladas, mas o peixe perdia 20 por cento do seu peso por desidratação, por isso carregava-se mais do que aquele peso. O peixe também encolhia no tamanho e o balanço das ondas tendia a acamá-lo. Com ventos favoráveis de oeste, chegava a terra em 13 dias, descarregava o peixe e pagava à tripulação. Durante o Inverno procedia-se a trabalhos de manutenção.
A 19 de Maio de 1904 o Gazela Primeiro zarpou de novo Tejo fora e 20 dias depois estava nos Grandes Bancos, tendo feito 98 milhas por dia. Durante mês e meio a pesca decorreu normalmente mas, a 21 de Julho, 3 dóris não regressaram, apesar do tempo estar limpo e calmo. Nunca se chegou a descobrir o que lhes aconteceu.

Estas viagens à Terra Nova continuaram até aos anos 30, quando os bancos começaram a dar sinais de esgotamento devido à sobre-pesca, agravada com o surgimento dos barcos motorizados e com sistemas de pesca com redes. A frota começou então a demandar águas mais a norte, até ao estreito de Davis, entre a ilha de Baffin e Gronelândia. Por volta de 1938 tornou-se evidente que o Gazela Primeiro tinha de ser equipado com um motor devido às difíceis condições de tempo e navegabilidade daqueles mares. O barco foi então acrescido de mais 2 metros e levou um motor diesel de 180 cavalos. Podia fazer 7 nós com o motor, mas as velas continuaram a ser a principal fonte de propulsão, por motivos de poupança. Recebeu igualmente um rádio e um gerador que fornecia iluminação e refrigeração. Uma cabine foi também colocada para proteger a bússola e a roda de leme. Outro melhoramento foi um motor diesel para içar a âncora.
A última viagem do Gazela Primeiro como pesqueiro teve lugar em 1969. O capitão, Aníbal Carlos da Rocha Parracho abriu o diário de bordo a 25 de Maio, e 15 dias depois chegavam aos bancos. Devido ao mau tempo – nevoeiros, ventos, tempestades – e um guincho partido, a pesca não rendeu e o navio deslocou-se para os bancos de Virgin Rocks. Mas o tempo continuou a causar problemas: dos 123 dias seguintes, apenas em 76 foi possível pescar. Finalmente, em 14 de Outubro, iniciou a viagem de regresso a Lisboa, que durou 11 dias. Continuava em boas condições para navegar mas já não podia concorrer economicamente com os arrastões.
Por esta altura o Museu Marítimo de Filadélfia andava à procura de um veleiro de madeira antigo e, no ano seguinte, foi adquirido para o Museu pelo filantropo William Wikoff Smith. Em 24 de Maio de 1971, com uma tripulação americana e um antigo engenheiro do Gazela Primeiro, o lugre partiu para a sua nova casa em Filadélfia, onde chegou a 8 de Julho. Aqui foram-lhe feitos algumas adaptações para receber visitantes. Foi-lhe igualmente adicionado um pequeno barco motorizado português da pesca à baleia, de nome Gazelita.
Desde então tem ocupado o seu tempo num cais de Filadélfia como atracção turística, ou velejando com fins didácticos e honoríficos, ou ainda participando em diversos filmes.

Características:
Veleiros portugueses
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