Expedição Lusitania - Suek - Resumo 2ª parte etapa 3 - Cabo Verde - Recife

26/05/2022

Expedição Lusitania - Suek - Resumo 2ª parte etapa 3 - Cabo Verde - Recife

 

Dia 12 de Maio, ao cair da noite, o Suek e o Maião partiram do arquipélago de São Pedro e São Paulo, rumo a Fernando de Noronha. Não havia vento, pelo que iniciámos a viagem a motor. A meio da noite, apareceu o vento que se manteve até ao final da viagem, entre 13 e 18 nós, com picos de 20 quase sempre pelo través, levando-nos a fazer velocidades por vezes acima dos 6 e 7 nós. Foi uma constante da viagem, assim como o mar, agitado e desordenado, com ondas a baterem com força no costado.

Desta etapa, não houve muito a destacar, excepto o facto de ter um marco importante que foi a passagem do equador pelas 10:50h utc (08:50h locais) no dia 13 de Maio. Marca a entrada no hemisfério sul e a nossa primeira vez num barco á vela, pelo que ao almoço foi altura de comemorar com a abertura de uma garrafa de espumante francês que tinha trazido especialmente para esta ocasião.

Começámos a avistar os contornos da ilha de Fernando de  Noronha, ao longe, a meio da manhã do dia 15 de Maio. Á medida que nos iamos aproximando, ia ficando mais nitida, começando por se ver logo que o que se destacava, era a sua cor, toda muito verde, assim como o seu caracteristico pico.

Fundeámos na baia em frente á praia do porto de Santo António por volta das 14h utc, 12h locais.
Havia vários barcos amarrados a poitas, a maioria pertencente a empresas de atividades marítimo-turisticas, fazendo uma correnteza de barcos, todos alinhados paralelos á ilha. Não havia outros barcos á vela fundeados, tendo o Suek e o Maião ficado o mais próximo possivel do porto, a uma distância de segurança.
Almoçámos, enchemos o bote e fui a terra levantar dinheiro e ver as infraestruturas locais de apoio. Água, gasóleo, compras, etc. O Maião já tinha ido á frente fazer o mesmo.

Para água, havia uma torneira no porto junto ao chão onde podíamos encher bidons. O gasóleo tinha de ser na única bomba da ilha, que fica perto do porto, as compras na vila dos Remédios que é a zona central com restaurantes e "algum" comércio. Para levantar dinheiro tive de ir de taxi ao aeroporto porque era a única caixa multibanco disponível naquele dia.

No dia seguinte, chegaram os restantes barcos e fomos almoçar a uma das esplanadas da praia do porto, ficando depois lá grande parte da tarde a conversar.

Nos outros dias, além de abastecer os barcos com água e no caso do suek também de gasóleo, fizemos passeios pela ilha e parque natural, tendo inclusivamente num dia alugado buggys para uma volta completa á ilha.
O parque natural está bastante cuidado, com alguns acessos livres a praias, mas outros condicionados a marcação prévia e entrada controlada. Está tudo muito bem cuidado, tem passadiços de madeira e uma caracteristica comum a toda a ilha, que é o facto de não haver qualquer tipo de lixo espalhado pelo chão. Algumas paisagens sobre as praias e baias são deslumbrantes e talvez por nos encontrarmos na época baixa as praias têm pouca gente, algumas mesmo quase desertas.
Numa das noites, jantámos no restaurante do museo do tubarão, um espaço ao ar livre e com música ao vivo em que davam uma festa para celebrar o nascimento da lua cheia. O restaurante fica num alto, virado para o mar e assim que a lua nasce, como um olho enorme, dando uma claridade espelhada sobre o mar, as pessoas levantam-se e dançam celebrando o acontecimento numa animação que é incentivada pelo vocalista da banda de musica.

A marinha manteve o seu inesxedivel apoio á frota, tendo inclusivamente solicitado ao turismo a disponibilização de um carro a meio da semana para apoio no abastecimento do gasóleo do suek no transporte dos bidons e a compras de supermercado na vila dos Remédios a toda a frota.

Convidaram-nos também para nos juntarmos a um churrasco num bar com uma vista deslumbrante sobre uma praia, num evento que estava reservado para a marinha, e eu e o José Mesquita, como representantes da ANC e da Associação David Melgueiro, fomos convidados pelo almirante chefe do estado maior da armada do distrito que abrange Recife, Fernando de Noronha e Natal, para almoçar, juntamente com outros convidados, a bordo do navio-patrulha oceânico "Araguari" que se encontrava fundeado na ilha a dar apoio a ações de sensibilização de cuidados médicos á população.

No dia anterior a virmos embora, disponibilizaram através de uma empresa de atividades maritimo-turisticas um pequeno passeio de barco, para vermos do mar as principais praias e tomar banho numa baia com a particularidade de ter tubarões de uma espécie inofensiva.

Além de tudo isto, reafirmaram todo o apoio á frota, garantindo mais uma vez seguimento em toda a costa e portos brasileiros. Irão também aguardar a chegada da frota no Recife para garantir a entrada em segurança no Cabanga Iate Club.

Integrado nos eventos, o José Mesquita, fez uma palestra sobre o clima no centro de investigação marinha e biosfera de Fernando de Noronha (icmBIO) para representantes da marinha e do centro.

No dia 21 de Maio pelas 10h utc (08h locais), levantámos ferro e largámos rumo ao Recife. Sol, calor e um vento entre 13 e 16 nós com bolina cerrada. Previsão entre 2 a 3 dias.

Parecia ser uma das etapas fáceis e descontraidas, além de curta, face ás milhas que já percorremos.
Acontece é que acabou por não ser nada assim. Antes pelo contrário! Foi das mais duras e exigentes para os barcos e tripulações.
Aconteceu um pouco de tudo. Avarias em vários barcos, que incluiu uma genoa descosida, obrigando a vir só com a vela grande depois de algumas tentativas falhadas para montar genoas que outros barcos tinham de reserva. Outro barco teve uma entrada de água, num problema com o motor e que entretanto resolveu e outro teve um brandal interior que se soltou e que o obrigou a vir apenas a motor até ao Recife.

Numa das noites, apanhámos várias trovoadas, com chuva intensa, ventos fortes e variáveis e enormes clarões no céu que iluminavam o mar de uma ponta á outra.
O vento, as ondas e a corrente (cerca de 1 nó) eram de frente, mesmo pela proa no rumo para o Recife, o que obrigava a fazer bordos com abatimento, sem conseguir manter rumo direto.

Na tarde do dia anterior á chegada ao Recife, tinhamos acabado de almoçar quando o vento levantou rápidamente e extremamente forte. Havia várias nuvens na zona, pensávamos que fosse passageiro, mas manteve-se a tarde toda. Ventos grande parte do tempo acima dos 25, 30, 33 nós com picos que chegaram aos 37 nós. Iamos com a vela grande e a genoa rizadas, mas mesmo assim por vezes batiam furiosamente, sobretudo quando as ondas que entretanto ficaram enormes, adornavam mais o barco. Outras vezes batiam com grande estrondo no casco como se fosse um tiro de canhão, varrendo todo o convés. Era difícil manobrar e além disso o vento vinha da direção do Recife. Andámos assim, a fazer bordos, tentando progredir para sul, mas muito devagar na direção do Recife.

Entretanto, a força do vento era de tal forma, que um dos fechos do bimini começou a abrir, o que obrigou a ter de ir rápidamente colocar um cabo para o prender, o painel solar dobrável de reserva que ia preso em cima do bote (o bote ia virado ao contrário bem amarrado em cima do barco), começou a desprender-se e a querer "voar", obrigando a ter de lhe passar um cabo adicional, tarefa nada fácil com aquele vento, o barco a dar saltos como um cavalo selvagem que é montado pela primeira vez e as ondas a varrerem o barco. Reparámos também que a escota da genoa, pelo facto de ir muito rizada, prendeu-se num dos bidons de gasóleo que iam amarrados na balustrada do barco e com os sucessivos esticões, estava a soltá-lo. Assim, nova incursão á proa para soltar a escota. A adicionar a isto tudo, caia uma chuva torrencial com tanta intensidade e de tal forma com bátegas grossas que mal se via um palmo á frente. O barulho era enorme, não só pela chuva, mas pelo vento e as ondas a baterem no casco. Além disso, o suek por vezes voava da crista de uma onda, caindo depois na seguinte com grande estrondo.

Apesar disto tudo, o barco manteve-se sólido, sempre a navegar com piloto automático, excepto nas viragens de bordo que tinham de ser rápidas, caso contrário, o barco abatia e falhava a viragem.

Apesar de tudo isto, o mais complicado desta tarde, foi que um dos barcos no meio deste turbilhão de mar e vento e sem qualquer visibilidade, embateu contra um barco de pesca que estava parado sem AIS, no meio do mar a cerca de 15 milhas da costa. Bateu-lhe de raspão com a proa, tendo feito danos no verdugo, parte de cima do casco e luz de navegação. Aparentemente o barco de pesca não teve danos, os pescadores ficaram bem, continuaram na sua faina e o barco da expedição pôde seguir viagem.

Ao cair da noite, finalmente o mar e o vento abrandaram. Parecia que o vento tinha parado, quando na verdade estava nos 20, 21 nós..., mas com isso permitiu ir apenas com a vela grande e o motor, num rumo quase direto para o Recife.
Foi assim a andar toda a noite e no dia 24 de Maio, por volta das 10h locais, chegámos juntamente com o Laluna ao Recife. Ainda aguardámos juntamente com os outros barcos no cais comercial pelo estofo da maré e ao final da manhã entrámos no Cabanga Iate Clube. Á hora do almoço chegavam os dois últimos barcos que tinham vindo um pouco mais atrás.

A travessia do Atlântico sul desde Cabo Verde até ao Recife tinha terminado. Desde Lisboa tinhamos feito cerca de 3400 milhas náuticas e 200 horas de motor.
Agora é descer a costa do Brasil até ao Rio de Janeiro, tendo como próximo porto, Salvador da Bahia.