Diário de Bordo do "CASVIC" de Manuel Martins

De Portugal à Índia

500 anos depois

Manuel Martins e o "CASVIC", a sua embarcação de 10 metros, evocaram a memória de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, na viagem de Portugal à Índia. Foram cerca de 27.000 milhas, o equivalente a uma volta e um quarto do perímetro do globo. Na sua bagagem tem uma volta ao Mundo em solitário, tendo sido, até agora, o único navegador português a realizar tal feito.

Diário de Bordo do "CASVIC"

  • 17 de Novembro de 1996

Saída de Lisboa acompanhado até à foz do Tejo por algumas embarcações, rumo a Sines. Nessa escala, terra natal de Vasco da Gama, foi feita uma evocação com o Presidente da Câmara. No dia seguinte a primeira contrariadade.

"... não é que verdadeiramente houvesse mau tempo. O problema é que havia uma previsão de vento de sudoeste e mar forte com vagas de 4 a 5 metros que por sinal até agora não aconteceu. Se tivessemos feito a saída directa Lisboa - Funchal estávamos psicológicamente preparados. No mar temos de aceitar aquilo que nos aparece ..."

O "CASVIC" navegou durante 5 dias com ventos fortes que rasgou a genoa. Durante os 6 dias de escala no Funchal foi reparada para fazer face às 1200 milhas até Cabo Verde.

"... estamos praticamente a terminar a travessia entre o Funchal e Cabo Verde. Provávelmente amanhã à noite podemos começar a avistar S.Vicente. É uma viagem sem história, tirando os primeiros 2 dias em que houve de facto um tempo mais adverso. Saímos do Funchal com ventos de cerca de 40 nós e o primeiro dia foi particularmente duro. Valeu-me a companhia do Jorge, que neste momento está a descansar. Sem ele teria sido um começo de viagem um bocado duro.

Peripécias aconteceram poucas. Pescámos dois peixes, vimos alguns navios e passamos o tempo a ler e a conversar. No dia de ontem e anteontem houve bastante vento e o hoje o tempo começou a melhorar, mas voltaremos a ter vento no canal de S.Antão. Fizemos uma boa média de 7 dias ..."

  • 8 de Dezembro de 1996

Chegada ao Mindelo, ilha de S.Vivente, Cabo Verde, para matar saudades. Aproveitei para reparar mais uma vela danificada à saída da Madeira.

  • 17 de Dezembro de 1996

Largada de Cabo Verde rumo à ilha de Fernando de Noronha no Brasil, desta vez em solitário.

"... estamos na Noite de Natal. São 12h45 e estou a 1ºN 31ºW a dois dias de chegar a Fernando de Noronha...

...está tudo a correr bem , o único contratempo foi a refeição. Não correu bem porque o bacalhau que trouxe não me parecia bom e tive de preparar outro tipo de jantar. Desejo que quem está em terra esteja a ter uma boa consoada."

"... esta vista do "CASVIC" é lindíssima! Estamos a chegar a Fernando de Noronha numa travessia que correu de certa forma um bocadinho agitada.

De Lisboa ao Funchal e depois para Cabo Verde fi-la com companhia, pe-lo que ganhei vícios. De modo que quando me encontrei de novo sózinho tive de adaptar-me outra vez a estar isolado. Os primeiros 2/3 dias não foram dias de desespero, mas de desalento. Estava profundamente triste por estar só. Agora, tal como na Volta ao Mundo, voltei a endurecer, e as coisas estão de novo a correr bem.

A viagem não teve incidentes. O "CASVIC" portou-se bem e fez esta parte muito rápidamente. Amanhã de manhã quando chegarmos faremos 10 dias.

A zona dos Doldrams, 300 milhas antes do Equador e um pouco para o Sul deste, esteve muito reduzida apenas no 3º/2º N tive dificuldades com o céu a tornar-se muito escuro e com vento muito forte para 5 minutos depois faltar e novamente aparecer. Chove com abundância, mas tudo isto passou quando voltou o vento Sueste, o normal desta zona.

Em Fernando de Noronha voltarei a ter companhia, a equipa da RTP, que me acompanhará até ao Recife e Porto Seguro."

  • 27 de Dezembro de 1996

O "CASVIC" fundeou em Fernando de Noronha. Nunca tinha lá estado e era um dos pontos do Atlântico que faltava conhecer.

"Aquilo que eu mais anseava era chegar a terra e conversar com alguém. Diariamente contactava com pessoas pela rádio, inclusivé de Portugal e a família, mas é sempre diferente falar com a pessoa à nossa frente. Quando se chega qualquer pessoa serve, nem que seja para dizer «Bom dia, como está?» ..."

"... há sempre o espírito do marinheiro e o que me apetece é estar no mar a navegar ..."

Os seis dias de escala servira para apreciar a beleza da ilha ainda a salvo das invasões turísticas. Desta vez o ano novo foi passado em terra numa grande festa organizada pelo principal comerciante da ilha com centenas de convidados vindos de toda a parte do Brasil.

  • 2 de Janeiro de 1997

Os golfinhos apareceram a escoltar o "CASVIC" até ao alto mar quando levantou ferro rumo ao Recife.

"Hoje temos para o almoço esparguete à bolonhesa, para variar. Já não comemos esparguete à bolonhesa à dois dias..."

Já perto do Recife foi pescado um dourado com mais de quinze quilos. O bicho era muito grande!

"- Isto dá para duas refeições. Estamos quase a entrar no Recife e isto é uma judiaria! Eu solto o bicho! Ele recupera.

- Então e o jantar?

- Ao jantar comes esparguete. Aquilo é peixe para uma dúzia."

"Estamos a cerca de 40 milhas do Recife. Isto é um percurso de 290 milhas. A retrospectiva não tem grande história. O mar bom. Vento de feição de Sueste. Uma viagem muito confortável onde me dediquei a pôr os acontecimentos em dia. Saber notícias do país, saber o que se passa na nossa terra. Temos descansado, conversado e pescado ... infelizmente o peixe era grande, e contra a vontade dos meus companheiros, foi devolvido ao mar. Era um peixe para uns 15 dias."

  • 5 de Janeiro de 1997

Chegada ao Recife. 500 anos depois, Manuel Martins, foi bem acolhido ao chegar a terras de Vera Cruz. A comunicação social não o esqueceu e estava à sua espera. Durante a escala de uma semana aproveitou para conhecer a cidade.

"Estou a dois dias de partir do Recife e houve aqui uma pequena decepção. Estava a contar com companhia neste percurso de 1.000 milhas até ao Rio de Janeiro. Será mais um em solitário e ao que parece o resto da viagem também. Assim volta tudo ao normal que é um navio em solitário porque as companhias vão rarear cada vez mais ..."

Manuel Martins partiu depois do Rio de Janeiro em direcção à Africa do Sul até chegar à Índia, passando por Moçambique e pelo Quénia.

Chegou a Sines a 26 de Junho e a Lisboa dois dias depois tendo sido recebido por inúmeras embarcações que o aguardavam em S.Julião da Barra e o acompanharam até Belém.

 


Volta ao Mundo em solitário (89 - 91)

Foi no dia 2 de Dezembro de 1989 que Manuel Gomes Martins deixou para trás o sonho e passou a enfrentar a realidade. Partiu sozinho, do mesmo local em que há cinco séculos os navegadores portugueses levantaram ferro à descoberta do Mundo.

Páginas do diário de bordo

"(...) A viagem para a Madeira, que normalmente demora 5 dias, durou sete dias e meio devido ao mau tempo. Ao fim do segundo dia de viagemo tempo deteriorou-se de tal modo que a atitude correcta teria sido abrigar-me na Costa de África, mas isso não aconteceu. Unimos os nossos esforços, misturando a valentia do "CASVIC" com o meu medo e conseguimos chegar ao Funchal (...)"

"(...) Das Canárias a Cabo Verde a viagem foi rápida. Fizemos 900 milhas em cerca de seis dias. No dia 16 de Janeiro de 1990 o "CASVIC" chegava à Ilha do Sal. Depois de muito vento e água, a âncora tocava o fundo da Praia de Santa Maria. Apesar de ter perdido material que ainda hoje não consegui substituir, Cabo Verde instalou-se definitivamente no meu coração. Foi o povo caboverdiano que muito me ajudou. (...) "

"(...) A travessia do Atlântico até Barbados, demorou dezanove dias, três dos quais de completa calmaria, percorrendo 2.200 milhas. O desejo de comida fresca tem a ver com as carências sentidas a bordo. Tive de racionar o tabaco e estive seis dias praticamente sem fumar. Não consegui apanhar peixe, para além dos peixes voadores que aterravam no convés (...)"

"(...) Foram 500 milhas difíceis entre Granada e Aruba, sobretudo à entrada desta, porque há muito vento à entrada da ilha. Entre Aruba e Panamá, por causa do estado do mar e do medo dos piratas, vivi um pesadelo. Nessa noite, o "CASVIC" foi heroi e conseguiu fazer rápidamente 120 milhas para noroeste. (...) "

"(...) A viagem entre o Canal do Panamá e Galápagos correu bem e o "CASVIC" conseguiu fazer 950 milhas em dez dias. É a primeira vez que navego no maior oceano do mundo, cheio de vida, com aves e peixes. (...)"

"(...) A travessia entre Galápagos e as Marquesas, que significam o começo da Polinésia, durou 25 dias e o mar não foi fácil, pois estava desencontrado e o vento não foi regular, obrigando-me a muitas horas de vigilância ao piloto automático. Durante a viagem passei a maior parte do tempo dentro da cabine a ler e a ouvir música, pois lá fora as ondas rebentavam contra o casco e varriam o convés. Consegui pescar, o que me valeu alimentação fresca durante vários dias. A determinada altura vi pássaros e Fatu Iva à vista. Gritei e emocionei-me, uma lágrima rolou. Quem anda no mar, sabe que ao fim de um mês, sem ver ninguém, só água e céu, dar com a ilha que se quer e tê-la na proa do barco, é fantástico (...)"

"(...) Tenho passado a maior parte do tempo dentro do barco, já não tenho posição. De pé não posso estar, pois passo o tempo desiquilibrado. Cai tudo, entorna-se tudo, partem-se os termos. Estas 3.100 milhas de travessia do Pacífico correspondem à parte deserta, não há praticamente navegação. De vez em quando vou lá fora e vejo correr o mar (...)"

"(...) Tahiti é um marco para quem navega o Pacífico. A cultura francesa tem muita influência. Já não é o mesmo que se lê nos relatos das antigas viagens, nem se vive da mesma maneira que viveu Gaugin. Encontro-me fundeado e a chegada foi muito turbolenta. Ainda bem que tomei a decisão de passar por fora do arquipélago de Tuamotre, porque soube hoje que dois barcos (um suiço e um alemão), que ali tinham passado, se afundaram. (...)"

"(...) Ao fim de 14 dias de mar avistámos Samoa e o "CASVIC" fundeou em Pago-Pago à uma da manhã. Foi a minha primeira entrada de noite. Nestas paragens, alguns homens ainda usam o "pareo" um pano enrolado à cintura. (...)"

"(...) Navegamos agora o mar de coral. Ainda faltam 1.800 milhas até Thursday Islands o meu primeiro porto australiano. Estou já perto do estreito de Torres, onde não é fácil navegar. Há muitas correntes. No dia 19 de Agosto o "CASVIC" chegou à Austrália. (...)"

"(...) O percurso entre Mauritius e Durban é dos que pior reputação teem entre os marinheiros. Para nós, na segunda semana, chegou o primeiro aviso. Durante um dia mal conseguimos andar para a frente. O vento era forte e deu para travar o "CASVIC". Eu precisava de ter confiança no meu barco. Conseguimos passar a parte sul de Madagascar sem dificuldades. O problema surgiu depois com um grande temporal, que durou 36 horas, reduzido ao terceiro rizo da vela grande e ao bocadinho da genoa. (...)"

"(...) O "CASVIC" está a tentar atravessar a corrente das Agulhas. As vagas teem 8 a 10 metros, mas não estão a rebentar. O barco vergou um bocadinho, mas rápidamente recuperou. Cai uma chuva terrível e não consigo pisar muitas das marcas indicadoras da entrada do porto de Durban. Uma hora da manhã do dia 2 de Dezembro. Um ano depois de ter saído de Lisboa, o "CASVIC" entrou em Durban. O tempo está frio e chove. Mas tinhamos amigos à nossa espera. Tinha valido a pena. (...)"

"(...) A ilha de Ascenção é um ponto de paragem em pleno Atlântico. Assiti a belo espectáculo, mesmo na praia onde o "CASVIC" fundeou: a postura das tartarugas do Atlântico sul. A partir dos cinco anos de idade, as tartarugas veem desovar na praia durante os meses de Março e Abril. As que vi tinham cerca de cem anos. (...)"

"(...) A 27 de Abril de 1991 às quatro horas da manhã, toco pela segunda vez um porto das ilhas de Cabo Verde, terminando assim, oficialmente, com êxito a viagem de circum-navegação em solitário. (...)"

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