Expedição Lusitania - Suek - Etapa 2. Canárias (Las Palmas) - Cabo Verde (Mindelo)

27/04/2022

2ª Etapa - Canárias (Las Palmas) - Cabo Verde (Mindelo) 16 a 23 de Abril 2022

Saímos da marina do Real Club Náutico de Las Palmas no dia 16 de Abril pelas 09:30 para ir atestar de gasóleo, tendo iniciado depois a viagem ás10h com o depósito e jerrycans atestados. O dia estava nublado, inicialmente sem vento e com ondas altas e curtas que tornavam o andamento desagradável sobretudo indo a motor. Assim que nos afastámos do porto, apareceu o vento e içámos a vela grande. Passado algum tempo o vento subiu, chegando a picos de 27 nós. Nessa altura e apenas com a vela grande chegámos a fazer 8,5 nós de velocidade real. Chegados á ponta da ilha da Gran Canária, ficámos á sombra das montanhas, provocando por esse motivo uma súbita caída do vento o que nos obrigou a afastar mais para o largo, navegando mais próximo do Anixa II, que após contacto pelo vhf soubemos que tinha vento.

Os quatro primeiros dias praticamente não têm história. Simplesmente chatos! Isto porque houve sucessivas faltas de vento o que obrigou a andar várias horas e noites inteiras a motor e a maior parte das vezes com uma mareta curta e desencontrada, Nada que não estivesse nas previsões que tínhamos visto, mas confesso que mesmo assim esperava mais vento. Também por isso é que saímos dois dias mais cedo, para garantir que chegávamos a Cabo Verde a tempo, já que a partida de Las Palmas só estava prevista inicialmente para o dia 18 de Abril. O único aspeto a destacar eram as inúmeras visitas dos golfinhos, que apareciam de vez em quando, dando algumas piruetas e reviravoltas junto ao barco. Depois desapareciam de repente e voltavam mais tarde.

Também perdemos contacto com os outros barcos, ainda ouvi o Arnika chamar o Anixa II pelo vhf, eu respondi, mas eles não me ouviram. A partir dai, só trocas de emails através do IridiumGo.

No dia 19 (terça), pousaram no Suek três andorinhas do mar e um pássaro muito bonito cheio de cores que não consegui identificar na altura, mas que depois me disseram ser um guarda rios. Pousaram na traseira do bimini e ali foram ficando o dia todo. Ainda chegaram a pousar no varandim e na escota da genoa, mas elegeram como poiso preferido o bimini. Tentámos dar-lhes água mas não quiseram. Ao final da tarde, uma das andorinhas e o pássaro mais colorido foram-se embora. Dos outros dois, um deles entrou para dentro do barco e pousou na rede da fruta que se encontra pendurada a meio do salão. Enxotei-o para fora, mas continuaram por ali. Entretanto percebemos que foram dormir para o poço, aninhados no canto onde ficam os comandos do piloto automático. De manhã, um deles estava morto e o outro também acabou por morrer um pouco mais tarde. Soube depois pelos outros barcos que lhes aconteceram situações idênticas.

Na madrugada de quarta feira, dia 20, o vento apareceu e a partir dai foi sempre á vela com ventos a rondar os 10, 12 nós. As ondas continuavam altas e por vezes desencontradas, deixando um efeito de "parafuso" que o Suek ia compensando com o piloto automático ora para um lado ora para o outro. via-se também alguma carneirada e ao final da tarde fazia frio.

Ainda na quarta feira, há hora do almoço, tínhamos acabado de abrir uma cerveja sentados no poço, para comermos pão com queijo como entrada, quando veio um golpe de vento repentino bastante forte e do lado oposto. Como íamos com a vela grande presa com preventer e a genoa aquartelada com o pau de spi, foi imediato ficarmos com as velas a receber o vento pelo lado contrário e o barco parado. Largámos o pão e o queijo..., enrolámos a genoa, ligámos motor, metemos o barco aproado ao vento, cambámos e rizámos a vela grande. A partir dai seguimos com a genoa rizada, presa no pau de spi no mesmo bordo da vela grande e a fazer entre 4 e 6 nós.

A noite de 20 para 21, (quarta para quinta) foi passada a corrigir o rumo face ás constantes mudanças de direção do vento. No meu turno, ainda foi necessário enrolar a genoa e cambar a vela grande. De manhã cedo, ainda mal o sol tinha nascido, estava o José no final do seu turno quando uma onda bateu no casco na zona da alheta e a água saltou toda por cima do poço. Por sorte, tínhamos o toldo montado, o que evitou ter-se molhado. Contudo, como um dos fechos da porta estava aberto ainda molhou uma parte do cobertor que tínhamos posto para nos taparmos.

Entretanto, já o vento tinha subido para cima dos 20 nós e o mar estava uma confusão com ondas de popa e algumas desencontradas pelo través que faziam um barulho seco ao baterem com força no costado. O piloto automático pela primeira vez desde o inicio da viagem, mostrava que não gostava do que se estava a passar, dando muitas voltas e chegando mesmo uma vez a ficar em standby. Como as baterias já estavam a começar a acusar a utilização da noite, com uma tensão de 12,6v e o sol estava encoberto, acabei eu por fazer leme durante uma parte da manhã, pela primeira vez desde o início da viagem. Desta forma permitia controlar melhor o rumo, dar algum descanso ao piloto e começar a recuperar as baterias com o sol a aparecer com mais força, se bem que a manhã estava fria, o céu parcialmente encoberto e o convés do barco todo molhado devido ás ondas.

A meio da manhã voltou ao piloto automático, o sol já era mais forte e o vento tinha amainado um pouco. O mar é que continuava de mau humor, rebentando ondas mesmo ao nosso lado e até debaixo do casco, levantando o Suek por uns tempos na crista, embalando-o depois com mais velocidade para depois o deixar quase parado na cava. A seguir vinha outra onda e a dança continuava. Foi assim praticamente todo o dia. Ao almoço, fizemos feijoada pela primeira vez, que acompanhámos com um vinho tinto e deixámos a ideia de começar a pescar para o dia seguinte...

Neste momento, estamos praticamente a dois dias de chegar a Cabo Verde e as previsões mantêm-se com o mesmo vento e mar.

A noite de 21 para 22, quinta para sexta, foi talvez a mais tranquila que tivemos. O vento na ordem dos 12 nós, manteve-se numa direção constante pela alheta, dando um rumo direto para Cabo Verde. A lua já estava em quarto minguante, mas mesmo assim quando não estava encoberta pelas nuvens ainda deixava transparecer uma boa luminosidade. Claro que já não era o holofote que nos tinha habituado á umas noites atrás, mas mesmo assim muito agradável. As condições de vento mantiveram-se durante todo o dia, continuamos a fazer uma média de 5,5 nós, que só não foi superior, porque o mar com a alta ondulação cruzada não deixava. Continua o efeito de máquina de lavar, com constantes subidas e descidas, modo "parafuso", obrigando a uma atenção constante para fazer seja o que for se não quisermos voar de uma ponta á outra. Ainda por cima, há um set de ondas periódico que provoca um adornar ainda mais forte. O Suek é que continua a responder com a maior descontração e tranquilidade, mantendo-se inabalável no seu rumo com o piloto automático. Até agora tem comprovado a fama que tem, de ser um barco robusto e bastante estável. Nunca nos deu qualquer sensação de insegurança ou fragilidade mesmo nalgumas das situações em que as condições de mar e vento eram mais duras.

O dia, apesar de alguns períodos encobertos, manteve-se com sol, o que permitiu ter as baterias completamente carregadas ao inicio da tarde. Continuamos a trocar as posições entre os barcos que têm o IridiumGo e onde alguns até aproveitam para partilhar a ementa do dia...

A última noite, de 22 para 23, foi feita a andar com bom vento, quase sempre constante entre os 17 e 19 nós. Ao nascer do dia o vento caiu, ligámos motor, e mantivemo-nos assim praticamente até chegarmos a S. Vicente. Ainda alternámos com alguns períodos de vela, mas o mar forte e desencontrado, com pouco vento, fazia com que as velas batessem constantemente com força, o que além de desagradável podia provocar danos,

Chegámos ás 15h á marina do Mindelo, precisamente á mesma hora a que tínhamos terminado a 1ª etapa na Gran Canária. Parámos no posto de combustível, abastecemos de gasóleo e depois com "muita ajuda", colocámos o barco com a proa amarrada a duas poitas e a popa com dois cabos ao pontão. Fazer a manobra com o forte vento lateral de proa, não é tarefa fácil, mas correu tudo bem. Depois foi lavar e arrumar o barco, tomar banho e ir jantar num agradável restaurante junto à Marina, com música ao vivo e com a companhia da simpática tripulação do Anixa II.

Cumprida a segunda etapa, a próxima, já será com escala em Fernando Noronha, no Brasil.

 

Total 2ª etapa (Canárias-Cabo Verde)

Distância: 903,2 NM

Motor: 65 h