Expedição Lusitania - Suek - Resumo 1a parte etapa 3 - Cabo Verde - Penedos S Pedro e S Paulo

20/05/2022

Expedição Lusitania. SUEK - Resumo 1a parte etapa 3 - Cabo Verde - Penedos S Pedro e S Paulo

Saimos da marina do Mindelo no dia 3 de Maio ás 09:30h, com ajuda dos marinheiros para retirar os cabos de amarração que prendiam os cunhos da proa do Suek ás poitas da marina que estavam colocadas na água. Não havia muito vento, cerca de 10/12 nós, com algumas rajadas, pelo que a manobra fez-se sem grande dificuldade. Juntámo-nos na baia do Mindelo ao Anixa que tinha saido um pouco mais cedo para abastecer de gasóleo e largámos juntos. Como esperava vento no canal entre S. Vicente e St Antão, abri apenas a genoa, decisão acertada, porque assim que saimos da proteção da baia, o vento começou a soprar forte, sempre acima dos 20 nós e rajadas que chegaram aos 29 nós, juntamente com uma vaga forte, cheia de espuma. Ainda rizámos a vela e fomos assim até rondarmos o sul da ilha, onde por essa altura, o vento e a vaga acalmaram. A partir dai tivemos sempre um bom vento, entre 10 a 15 nós, que se manteve ao longo da noite. Por vezes subia um pouco mais, mas nada de preocupante. Andámos sempre próximo do Anixa, falávamos pelo vhf e combinávamos o rumo a seguir de acordo com as previsões do Predictwind. O Suek, para acompanhar a velocidade do Anixa ia só de vela grande, á popa arrasada com o preventer na retranca, a fazer velocidades entre os 5 e os 6 nós. Na manhã do dia 4 Abril, foi necessário o José fazer um pouco de leme, porque o plotter acusou o alarme de baterias com pouca carga. Situação estranha, porque apenas tinhamos consumido durante a noite 70 Ah e as baterias de serviços somam ambas 330 Ah. Por volta das 12h já estavam completamente carregadas pelos painéis solares assim que o sol apareceu com mais força. Abri também o painel solar dobrável de 120W de reserva para reforçar o carregamento.
A meio da noite do terceiro dia, foi necessário ligar o motor para carregar as baterias. Coloquei-o ás 1500rpm, o habitual para carregar (a esta rotação, o alternador começa a debitar 60 Ah) e dar também um andamento extra ao barco. Passado pouco tempo, notei um barulho de falta de potência do motor. Achei estranho, acelerei um pouco, mas o motor não passava das 1500rpm, mesmo que colocasse a manete do acelerador a fundo. Pensei logo nalgum problema do gasóleo que tivesse entupido o pré-filtro. Pareceu-me também alguma vibração adicional, pelo que poderia ser algo preso na hélice. Não forcei, as baterias já tinham carga até de manhã pelo que desliguei o motor e seguimos á vela.

De manhã o vento caiu completamente, ligámos de novo o motor e já nos pareceu normal, se bem que ás 1500/1700rpm só conseguiamos fazer entre 3,5 a 4,5 nós, menos 1 nó do que o habitual. Entretanto reparei em enormes manchas de sargaço que passavam junto ao barco, pelo que podia ter sido este o motivo das dificuldades da noite, caso se tivessem agarrado ao hélice. Continuámos a motor práticamente o dia todo, com conversas frequentes por vhf com o Anixa e depois com o Zalala que entretanto nos alcançou e se juntou a nós. Ao final do dia, começou a aparecer um vento fraco de cerca de 8 nós e decidimos içar o gennaker. Levar o saco para a proa, prender no enrolador, colocar a adriça, colocar a escota, içá-lo, procurando que não bata no radar, abrir e perceber que o ângulo de 120° não era favorável ao rumo, além de que o balão batia com força com o vento fraco e a vaga. Resolvemos cambar, para isso, enrolar o gennaker, trocar a escota para o outro bordo, abrir de novo a vela e ver que também não era boa opção. Enrolar, baixar, guardar no saco e depois colocar dentro do barco...

Optámos então por abrir a vela grande e a genoa em borboleta com pau de spi e preventer. Ficámos no rumo e iamos devagar mas andando á vela. O Anixa ao pé de nós tinha feito a mesma coisa. Primeiro gennaker, depois grande e genoa em borboleta.

Ao cair da noite, para não nos afastarmos muito do Anixa e porque estávamos a andar mais, decidimos recolher a genoa. Começámos a puxar o cabo do enrolador, mas ao fim de meia duzia de voltas o cabo prendia e a vela não enrolava.
Decidi ir á proa ver o que se passava, e o que vi não era nada de bom. O enrolador tem umas palas internas para segurar o cabo que permite enrolar/desenrolar a vela e uma das voltas do cabo tinha passado para fora da pala e por isso ficava preso. Tentei tirá-lo com as mãos, mas sem sucesso. O cabo estava em tensão e além disso o enrolador mexia-se com o balanço da vela. Voltei ao poço, abri a mala das ferramentas, tirei uma chave de fendas e voltei á proa, sentado com uma perna para cada lado do costado a tentar tirar o cabo. Ao fim de algumas tentativas, de novo sem sucesso, decidi desmontar a parte da frente do enrolador e dessa forma chegar melhor ao cabo e ás palas. Voltei ao poço, peguei numa chave sextavada que me pareceu ser a indicada e lá fui, de novo encavalitado na proa do barco com as pernas uma para cabo lado, empoleirado quase em cima da âncora, com ambas as velas abertas, a noite a chegar e eu com uma chave a desapertar os parafusos do enrolador, numa ginástica constante para não deixar cair nenhum á água. Consegui desmontar a parte da frente do enrolador, colocar o cabo no sitio e depois nova acrobacia para voltar a colocar os parafusos. Acabou por correr tudo bem, enrolámos a genoa e voltei para o poço para jantar o frango estufado com legumes que tinha feito durante a tarde. A noite decorreu com pouco vento, mas sempre á vela e sem percalços.

A manhã do quarto dia, foi passada no vhf com o Anixa e o Zalala. Sol, calor, humidade e cardumes de peixes voadores...
Por vezes de manhã temos de tirar alguns do convés já secos pelo sol, tarefa que faz parte das rotinas do dia.

O quarto e quinto dias, têm sido também de rotinas, sempre com bom vento entre os 10 e os 13 nós, por vezes subindo um pouco mais mas depois estabilizando. Banho de mar, limpezas a bordo, fazer comida já que temos mantido desde o inicio da viagem sempre duas refeições quentes a bordo, confecionadas em grande parte com grande ginástica face aos constantes balanços e guinadas do barco.

O Suek continua junto ao Zalala e ao Anixa pelo que continuamos a falar várias vezes durante o dia por vhf, para discutir as informações meteorológicas e o rumo. Durante o dia tive muitas dificuldades em descarregar os ficheiros grib do Predictwind e ver emails. O IridiumGo bloqueava constantemente e perdia a rede. Entretanto tirei-lhe a bateria, fez reset e a partir dai passou a trabalhar bem. As noites são passadas alternando os turnos no poço, a maior parte das vezes debaixo de um mar de estrelas deslumbrante que me deixa perplexo. São autenticas estradas de pontos brilhantes, alguns mesmo muito fortes, num código de figuras geométricas em toda a extensão do céu. Cheguei inclusivamente a ver estrelas cadentes, algumas com um longo raio de luz; simplesmente fantástico.

No dia 9 Maio, sexto dia de viagem tive a confirmação de que as baterias efetivamente têm problemas,  dai disparar o alarme de voltagem a meio da noite. Nada fazia supor, já que são de uma boa marca, nunca foram sujeitas a grandes descargas e têm 3 anos. Neste momento a sua capacidade útil está reduzida a 1/3, o que significa na prática de que apenas disponho de 50 Ah para os consumos da noite. Por esse motivo, vou ter de ligar o motor duas vezes cerca de 1 hora durante a noite para carregar as baterias. Durante o dia os painéis solares têm sido suficientes, garantindo 100% da carga.

Hoje, também coloquei a linha na água pela primeira vez desde o inicio da viagem. Ao fim de algumas horas, o carreto começou a fazer barulho e a linha a soltar-se. Peguei de imediato na cana, mas o carreto não tinha força para puxar a linha. A cana fazia imensa pressão e só não fui atrás dela porque a encostei ao cabo de aço do bimini. A partir dai foi uma luta de cerca de meia hora, em que só consegui puxar a linha com a mão, já que entretanto tinha calçado umas luvas com a ajuda do José. Puxava a linha, segurava-a na mão, dava umas voltas no carreto para a enrolar. Por fim, depois de um enorme esforço, banhado em suor, verifico que o que vinha agarrado era nada mais, nada menos, que um monte de sargaço. Retirei a amostra, guardei a cana e a pesca ficou suspensa por 24 horas...

Continuam a ver-se enormes manchas de sargaço e cardumes de peixes voadores. O que nunca mais vimos desde que saimos de Cabo Verde foram golfinhos, até á data nem uma vez apareceram.

O calor é enorme, assim como o grau de húmidade, que nos mantém  encharcados em suor durante o dia. Á noite, refresca e fica uma brisa agradável, permitindo fazer as noites em calções e t-shirt, se bem que dentro do barco, mantém-se um calor insuportável já que não se pode abrir as janelas com risco de entrar água.

Continuamos próximo do Zalala em rumo paralelo para os rochedos. É muito agradável, já que permite irmos falando por vhf. O dia foi de vento fraco, mas permitiu ir andando á vela, amanhã contamos que caia, esperemos que não muito.

Entretanto, o Anixa foi ficando para trás e está agora a cerca de 30 milhas. Mas vamo-nos certamente encontrar todos de novo quando o vento cair na zona dos doldrums.

Dia 10 de Maio, chegámos á zona onde a instabilidade meteorológica é enorme, com periodos de algum vento, habitualmente fraco, passando de repente para vento forte, muitas vezes acompanhado de chuva, coincidindo com a passagem de nuvens negras carregadas de vento e chuva.
Habitualmente dura pouco tempo, apenas durante a sua passagem e o vento logo de seguida cai completamente. Foi assim o dia, a falar por vhf com o Zalala que ia á nossa frente, cerca de 12 milhas e com o Anixa que ia mais atrás a cerca de 15 milhas. Apesar das nuvens que iamos controlando pelo radar, a tarde acabou por ser calma, com uma grande parte a motor. Durante o dia tivemos a visita de uma borboleta e ao final da tarde, uma cagarra dava voltas ao Suek e planava num voo razante junto á água. Subia e descia, dava uma volta e voltava a repetir, com enorme tranquilidade, numa harmonia que não demonstrava qualquer sinal de esforço. Também pela primeira vez, apareceram os golfinhos. Eram vários, deram algumas piruetas junto ao barco e depois desapareceram de forma tão rápida e silenciosa como tinham aparecido. Continuava bastante calor, uma brisa suave e a água do mar a 29,6°, de acordo com uma informação transmitida pelo Zalala, já que o termómetro do Suek avariou.

A noite de 10 para 11 de Maio prometia ser calma, a motor, sem vento, num mar chão com luar e céu carregado de estrelas. E assim foi, durante o turno do José! Quando o rendi, sentei-me no poço com as costas recostadas e as pernas estendidas sob o banco a observar as estrelas e a pensar que faltam cerca de 24h para chegarmos aos Penedos. Passado algum tempo, senti uma aragem adicional nas pernas, olhei para o anemómetro e sopravam 9 nós reais com um ângulo de 60°. Fantástico; era vento!
No radar não havia nuvens em cima do Suek, apesar de estar bastante salpicado de manchas, mas todas ainda um pouco longe. Abri as velas, desliguei o motor e por momentos senti o enorme prazer de deslizar a 5 nós sem o ruido infernal do Volvo. Não durou foi muito tempo! O vento começou a subir rápidamente, 15, 17, 18 nós, o céu tornou-se preto e começaram uns salpicos de chuva. De imediato, rizei a genoa, depois a vela grande e de novo um pouco mais a genoa, porque num abrir e fechar de olhos estávamos debaixo de chuva forte com picos de 26 e 27 nós de vento. A "borrasca" apareceu tão rápida e tão forte, que o José que dorme tranquilamente todas as noites e não acorda com nada, apareceu á porta do poço para ver o que se passava. Aquilo durou cerca de 1 hora, o vento uivava furiosamente, ora vinha até aos 21, 22 nós como subia de novo para os 26. No final começou a ficar mais tempo nos 17, 18 nós e depois baixou, até cair, ficando apenas uma chuva que durou até ao inicio do dia.
A manhã estava nublada, mas quente e encontrámo-nos com o Zalala que tinha parado a aguardar por nós.  Com os dois barcos com os motores desligados, tomámos um banho de mar com água a 29,6°, aproveitando também para um compasso de espera para que o Anixa se aproximasse de nós.

O mar estava espelhado, apenas com uma ondulação longa que fazia lembrar ao longe as dunas ondulantes de um deserto, mergulhámos em pleno oceano, num mar com um azul imenso de uma tonalidade que não consigo descrever. Simplesmente uma sensação de imensidão, suspensos por cima de um abismo azul.

Chegámos aos Penedos de São Pedro e São Paulo ao nascer do dia. Primeiro o Zalala um pouco mais á frente de nós, a cerca de 5 milhas. Duas horas depois chegou o Anixa. A meio da manhã chegou o Maião, o Laluna a meio da tarde e o Arnika no dia seguinte por volta das 10:30h.

Não havia possibilidade de fundear, porque apenas existem os rochedos e logo depois um mar profundo. Desta forma,  desligámos os motores e a pairar, tomei um banho de mar na popa do barco. De novo a fantástica sensação refrescante do imenso azul. O skipper do Zalala fez o mesmo, mas um aspeto curioso é que ele á hora do almoço, resolveu também tomar um banho de mar, nessa altura já com a marinha brasileira junto de nós. De imediato, saiu uma comunicação do navio patrulha via vhf a dizer que os banhos estavam interditos devido á enorme quantidade de tubarões que existiam na zona. Que não havia registo recente de ataques, mas era para prevenir... Pudera, desde o Gago Coutinho e o Sacadura Cabral, só nós os dois é que nos devemos ter banhado naquelas águas...

Assim que o Maião chegou, juntámo-nos ao barco da marinha brasileira, o navio patrulha "Guaiba", que nos recebeu via vhf com uma simpática mensagem de boas vindas. Andámos depois á volta dele enquanto tiravam fotografias e preparavam os bidons com gasóleo para abastecimento da frota. Eram bidons com 50 litros, grandes e pesados pelo que o abastecimento no Suek foi bastante difícil. Valeu a ajuda de um dos marinheiros brasileiros que subiu a bordo e ajudou na operação. Utilizo uma bomba que é apenas um tubo e por gravidade permite passar o gasóleo do bidon para o depósito. Acontece é que como o bidon era grande, o tubo de sucção não chegava ao fundo e para não perder o gasóleo, os últimos litros foram tirados com o marinheiro a verter o bidon para um funil ligado a um tubo para dentro do depósito do barco. Era um litro dentro, meio litro por cima de mim e do barco... enfim, lá se conseguiu e o Suek ficou reabastecido para Fernando de Noronha.

Entretanto, a marinha brasileira convidou as tripulações a visitar o navio, algo que só um tripulante de um dos barcos aceitou em virtude da forte ondulação e corrente que existiam na zona. Da parte da tarde ofereceram a todos os barcos um conjunto de livros sobre os oceanos, e organizaram uma visita aos Penedos , tendo sido para mim, um dos momentos altos desta expedição, talvez até o mais relevante. Vieram-me buscar ao Suek num bote, tendo sido necessário depois fazer o transbordo para outro bote mais pequeno de um barco de pesca que dá apoio aos Penedos. A entrada é pelo meio de um canal estreito no meio das rochas com o mar a bater e a entrar constantemente entre os rochedos e com muitos remoinhos. Depois de passar essa zona faz uma ligeira curva para a direita e entra-se numa pequena enseada tendo ao fundo uma escada de ferro por onde subimos para um passadiço de madeira que nos leva á casa. A casa está construída em cima da rocha, assente em pilares feitos de rodelas de cimento. É pequena, tem cozinha, quarto com camaratas e uma zona de arrumos. O melhor, é um espaçoso alpendre com bancos corridos de madeira. Fomos simpaticamente recebidos pelos residentes, 3 investigadores e um elemento da marinha brasileira responsável pelo posto. Os rochedos são uma colónia de caranguejos com carapaças de cores vivas e pássaros com um enorme bico afiado e que nos tentam picar á nossa passagem. Para subirmos ao farol que fica praticamente ao lado da casa, tivemos de ser acompanhados por um dos residentes que levava um pau para que eles mordessem furiosamente enquanto nós passávamos. O bico além de forte e afiado também é rendilhado...

Conversámos sobre a vida nos Penedos, uma das investigadores está a fazer um doutoramento sobre tubarões e faz periodicamente turnos de 15 dias desde 2015. Extremamente simpáticos, disponibilizaram inclusivamente o acesso wifi para podermos telefonar via whatsapp. Tivémos sorte com o dia, estava calor e apesar do mar bater com força nos rochedos e a água saltar por cima das rochas, disseram-nos que era o dia mais calmo que tinham desde há bastante tempo. Confidenciaram também que a visita da expedição tinha sido muito boa, porque tinha dado destaque aos Penedos e ao trabalho que faziam. Para nós foi um momento especial conhecer um sitio tão exótico, no meio do oceano e onde ninguém consegue ir sem autorização especial e apoio.
Saimos dos Penedos de novo no meio do mar agitado, guiados pela pericia do pescador entre as rochas e os remoinhos. Ao cair da noite, o Suek e o Maião partiram para Fernando de Noronha, próxima etapa da travessia, enquanto que o Zalala, Anixa e Laluna ficaram a pairar durante a noite á espera do Arnika para seguirem depois todos juntos até Fernando de Noronha.

Acabámos por chegar juntamente com o Maião a Fernando de Noronha no dia 15 de Maio pelas 14:00h utc, mas essa parte será contada na parte 2, juntamente com a travessia até ao Recife e que concluirá esta etapa.

FM

Amanhã, dia 21 Maio de manhã a frota sairá de Fernando de Noronha para o Recife.