Nocturlábio


Posição aproximada da Kochab ao longo do ano

Roda Polar de Raimundo Lúlio (c. 1272)

Rodas de D.Duarte (c. 1428)

Roda do Homem do Polo (c. 1490)

O Noturlábio foi um instrumento usado nos primórdios da navegação que servia para se ler a hora através do movimento das estrelas. Pode assim dizer-se que era um relógio sideral. O princípio de funcionamento de um Noturlábio assenta na observação e leitura do movimento que as estrelas realizam em torno da estrela Polar. Este movimento é, como todos sabemos, um movimento aparente resultante da rotação do nosso planeta. Em teoria considera-se que a Polar está fixa no enfiamento do eixo de rotação da Terra, a norte, apesar de um pequeno desvio que era de 3º,5 no séc.XV. As estrelas giram no sentido contrário aos dos ponteiros dos relógios em torno da Polar (isto no hemisfério norte!), e é o movimento de uma das guardas da Ursa Menor, a estrela Kochab, que é observado e usado na leitura do tempo ao longo do ano.

No fim do séc.XIII, o maiorquino Raimundo Lúlio, descreveu a chamada Roda Polar a que chamou de astrolabii nocturni, ficando no entanto conhecida por Noturlábio. A roda era apontada à Polar, alinhando-se a data de observação a leste do orifício por onde se fazia pontaria à referida estrela. A zona onde a Kochab tangia o instrumento indicava a hora.

Neste exemplo da Roda Polar, no dia 15 de Abril, a Kochab indica 23 horas (na coroa exterior em numeração romana), e na 3ª coroa indica ainda a duração média do dia (12 horas) nesse mês.

Outros tipos de rodas foram surgindo, como as Rodas de D.Duarte. O princípio era o mesmo, mas o método de contar o tempo diferia um pouco. Esta roda permitia ainda saber a hora aproximada do nascer do Sol.

Com a Roda de D.Duarte fazia-se na mesmo pontaria à Polar através do orifício central, mas alinhava-se sempre o mês de Janeiro a leste do orifício. O alinhamento da data de observação indica a posição da Kochab à meia-noite dessa data. O número de intervalos na segunda coroa entre a data de observação e a Kochab indica o número de horas que faltam ou passam da meia-noite. Neste exemplo no dia 31 de Maio são cerca das 20 horas (24-2). Para saber a hora do nascer do sol contamos, na segunda coroa, os intervalos entre a data da observação na 1ª coroa e a mesma data na 4ª coroa, pelo que assim o Sol nasceria às 4,5 horas.

A Roda do Homem do Polo tinha um método semelhante à anterior, e a sua leitura era feita consoante o Regimento de Évora. A imagem do lado é um exemplo onde, com a data de observação em fins de Fevereiro, são cerca das duas horas depois da meia-noite.

Regras do Regimento de Évora

  • Janeiro meado, será meia-noite no braço esquerdo; e no fim do dito mês, será meia-noite uma hora acima do braço.
  • Fevereiro meado, será meia-noite duas horas acima do braço; no fim do mês será meia-noite na linha do ombro esquerdo.
  • Março meado, será meia-noite uma hora acima da linha; e no fim do mês será meia-noite duas horas acima da linha.
  • Abril meado, será meia-noite na cabeça; no fim do dito mês será meia-noite uma hora abaixo da cabeça.
  • Maio meado, será meia-noite duas horas abaixo da cabeça; e no fim do mês será a meia-noite na linha do ombro direito.
  • Junho meado, será meia-noite uma hora abaixo da linha; e no fim do mês será meia-noite duas horas abaixo da linha.
  • Julho meado, será meia-noite no braço direito, e no fim do mês será meia-noite uma hora abaixo do braço.
  • Agosto meado, será meia-noite duas horas abaixo do braço; e no fim do mês será meia-noite na linha intermédia.
  • Setembro meado, será meia-noite uma hora a baixo da linha; no fim do mês será meia-noite duas horas abaixo da linha.
  • Outubro meado, será meia-noite no pé; e no fim do mês será a dita meia-noite uma hora acima do pé.
  • Novembro meado, será meia-noite duas horas acima do pé; e no fim do mês será meia-noite na linha intermédia.
  • Dezembro meado, será meia-noite uma hora acima desta linha; e no fim do mês será meia-noite duas horas acima da mesma linha.

No séc.XVI a evolução destes instrumentos apresenta-nos o Noturlábio de Ponteiro, mais preciso e fácil de usar.

  Nocturlábio de Ponteiro séc.XVI  Nocturlábio de Ponteiro do séc.XVII

Faz-se coincidir a data da observação com a alidade da roda menor e aponta-se, como de costume, à Polar segurando o instrumento pela pega. Roda-se o ponteiro maior até este tangenciar a Kochab. A leitura da hora é directa na zona onde este ponteiro intercepta a coroa interior; neste caso aproximadamente 7h15 da noite do dia 11 de Fevereiro.

Os exemplos que descrevemos são todos relacionados com a estrela Polar, mas o Nocturlábio também foi adaptado pelos nossos navegadores para as navegações no hemisfério sul. Nesses mares socorriam-se do Cruzeiro do Sul, já que a Polar em latitudes abaixo do Equador já não é visível. Ao olhar-se para o pólo sul celeste o movimento aparente da esfera celeste é inverso ao do hemisfério oposto quando se está virado para Norte. Assim o instrumento teve de ser também adaptado, tendo inscrito nos círculos os meses e as horas em sentido inverso. Como as estrelas a observar com o instrumento tinham ascenções rectas diferentes, o ponteiro para a data de observação tinha de estar se acordo com as estrelas pretendidas. Alguns instrumentos tinham mais do que um ponteiro para ser usado com mais do que uma estrela.

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